A mobilização dos Coletes Amarelos não enfraquece

Rémy Herrera    19.Ene.19    Colaboradores

No dia de hoje haverá nova mobilização dos «coletes amarelos» em França. Os sinais deixados pelas semanas anteriores são inequívocos: não só a mobilização não enfraquece como o Presidente Macron deixou de aparecer em público, de tal forma é generalizado o repúdio público pela sua governação.

Para começar, um primeiro ponto estatístico: a única fonte de contagem do número total de participantes nas mobilizações dos «coletes amarelos» é, em França, o Ministério do Interior. É extremamente problemático em si, primeiro, porque a própria natureza deste movimento torna impossível uma contagem exacta; depois porque o Estado recorre cada vez mais para efectuar essas contagens, a sociedades privadas especializadas, donde a independência deve ser interrogada: enfim porque o evidente interesse das autoridades é minorar esse número, como o faz em todas as manifestações organizadas pelos sindicatos — que fornecem geralmente — uma estimativa alternativa.

Por exemplo, para o Acto VII» de 29 de Dezembro de 2018, o Ministério do Interior anunciava que 12 mil coletes amarelos se tinham mobilizado no total do território. Ora a simples soma dos dados oficiais relativos às acções dos coletes amarelos realizadas em nove cidades apenas (na realidade, Bordéus [com 2500 participantes], Toulouse [2400], Marselha [2000), Metz [2000], Lyon [1000], Rouen [1000], Brest [750], Caen [700] e Sens [399], dados fornecidos pelas prefeituras, mas muito diminuídos, ultrapassa 12 000.Onde estão as outras 35 991 comunidades da França, incluindo a capital do país? Não havia ninguém nas rotundas nesse dia? Absurdo! Foi portanto esta «estimativa» de 12 000 coletes amarelos que foi repetida incessantemente em todas as notícias dominantes, sem hesitação. É tanto mais ridículo que uma das instruções dos coletes amarelos é de ir protestar… sem colete! Para melhor se fundir na multidão e evitar assim ser interpelado pelas forças da ordem.

Pelos seus porta-vozes mediáticos, as autoridades tinham objectivos pouco claros, mesmo antes da apresentação das promessas do presidente Macron aos Franceses. A 31 de Dezembro: tirar «a prova». 1. que a mobilização dos coletes amarelos se gorara. 2. que, quem escolhesse prosseguir a luta eram «elementos radicais», «extremistas» isolados do resto do movimento, adeptos da violência para arruinar os «pobres comerciantes» em período de festas de fim de ano, ou pior ainda, «atacar a República», «atingir a democracia» e «abalar o poder» e 3. que a fuga para a frente do governo na escalada da repressão é justificada.

Quando se encontrava entre uns cinquenta coletes amarelos a prestar homenagem às vítimas da violência policial, Eric Drouet, uma das figuras mais conhecidas do movimento foi de novo interpelado e ficou com guarda à vista a 2 de Janeiro. Penas de prisão foram requeridas e (algumas já pronunciadas) contra vários coletes amarelos. Um tinha gritado no rosto de um deputado da maioria, «guilhotina», outros tinham decapitado um boneco com a efígie do presidente Mácron. Do lado da imprensa escrita a palma vai sem dúvida para o jornalista de que um dos seus arroubos líricos afirma que apoiar os coletes amarelos é declarar-se partisan «dos goulags soviéticos, dos campos de concentração cubanos e do genocídio dos Khmers Rouges». Vamos desculpá-lo, o pânico que percorre actualmente as fileiras da burguesia obriga muitos a dizer não importa o quê. E sugerimos que os seus chefes lhe ofereçam uma semana de férias nos trópicos para que ele descanse um pouco e veja por si próprio se há ou não campos de concentração em Cuba.

O Acto VIII de sábado 5 de Janeiro demonstrou que a mobilização dos coletes amarelos não enfraqueceu. E que uma grande maioria de Franceses (hoje mais de 55 ou 60%), após todas as sondagens recentes) continua a simpatizar e a dar apoio ao movimento. Segundo informações da polícia, 50 mil coletes amarelos (sensivelmente mais, segundo todas as aparências) estavam ainda fora, ao frio invernal a bloquear os eixos de circulação ou a manifestar-se nas ruas das grandes (e menos grandes) cidades do país, para exigir democracia política, e justiça social. Em toda a França, até por vezes nas pequenas aldeias, surgem inúmeras concentrações de populares coletes amarelos, pacíficos, simpáticos, bem dispostos, entre amigos ou vindos em família, todos motivados e determinados a continuar a luta. Com coragem. Com dignidade. E saudados pelas buzinas de automobilistas solidários.

E, em alguns lugares, inevitáveis cenas de desespero, de tensões, de caos, as únicas imagens continuamente apresentadas pelas cadeias de televisão, para tentar inquietar, dividir, dissuadir, desencorajar /em vão!) barricadas de rua, braseiros na noite, agitações por vezes muito violentas com as forças da ordem nalgumas cidades da província, sob a chuva de granadas lacrimogéneas e de golpes de matraca, ou em Paris, aqui e ali, perto da Avenida dos Campos Elísios, sob as guirlandas vermelhas cintilantes das decorações de Natal. Bem no meio dos turistas que vieram festejar o ano novo à francesa. Assim: boas entradas no ano de 2019 para todos.

As novidades deste 5 de Janeiro? Um percurso predeterminado declarado «dentro das regras» segundo as autoridades policiais pelos organizadores dos coletes amarelos na capital, idos da praça do Hotel de Ville até à Assembleia Nacional. Várias tentativas de intrusão de coletes amarelos na cintura dos edifícios oficiais (prefeituras…) sendo que a mais espectacular foi a de m pequeno grupo de pessoas forçando com o auxilio de uma máquina o portal do Ministério das Relações Exteriores com o Parlamento destruindo com os mesmos meios algumas viaturas oficiais e provocando a evacuação precipitada do porta voz do governo, Benjamin Griveaux antigo membro do partido socialista (e braço direito de Dominique Strauss-Kahn) e, dos seus colaboradores.

Mais impressionantes ainda, as imagens de um manifestante fazendo recuar a murros, uma carga de policias de capacete e munidos de armaduras, numa ponte de Paris, e as de Toulon, de um oficial superior da polícia a bater muitas vezes no rosto de um individuo que acabava de ser interpelado. O primeiro, que se soube ser um antigo campeão francês de boxe, ganho para a causa dos coletes amarelos, foi obrigado a render-se após dois dias de «fuga» (aqueles que queriam financiar a «vaquinha» de apoio à sua família tomem cuidado!: uma secretaria de Estado pode acusá-los na justiça!). O segundo, quanto a ele, justifica as suas acções declarando que estava a neutralizar um «perigoso delinquente» e «cabecilha» …e que não receava qualquer queixa porque era comandante de polícia! E condecorado com a Legião de Honra desde o 1.o de Janeiro, em segredo.

Para além destes acontecimentos, que nada têm de anódino, convém medir a crise política em que o país está hoje mergulhado. E de entender bem a gravidade da situação: o presidente Mácron, que há pouco tempo afirmava gostar de entrar em contacto com os franceses, não voltou a sair em público desde 4 de Dezembro passado! Data em que efectuou uma visita a Puy-en-Velay depois de os manifestantes terem incendiado a prefeitura de Haute-Loire (região de Auvergne-Rohne-Alpes). Uma visita, de que, segundo dizem, teria regressado, traumatizado: um comité de apoio de contestatários encolerizado insultou-o copiosamente, e perseguiu a viatura oficial através da cidade.

Um mês e cinco dias mais tarde, o gabinete da presidência da República francesa fazia saber que todas as «cerimónias de votos» a que Emmanuel Mácron havia confirmado assistir tinham sido anuladas, com excepção daquela que teria lugar nas forças armadas. Motivo apresentado? O presidente precisava de «concentrar-se» sobre a redacção de uma «Carta» aos seus concidadãos e sobre «a abertura do Grande Debate». .

Pois ele pensou na «abertura de um Grande Debate». Um “Grande Debate” em que se esforçaria por responder aos «desejos profundos dos franceses»…. Mas apenas sobre as temáticas seleccionadas pelo governo! Afim de coordenar esta farsa da democracia, Emmanuel Mácron tinha indicado a actual presidente da Comissão nacional do debate público Chantal Jouanno, ex-colaboradora e ministra de Nicolas Sarkozy. Apenas alguns dias depois a revelação da remuneração generosa a receber por Madame Jouanno (mais de 175 mil euros anuais brutos pagos pelo erário público) levou esta última a renunciar a dirigir o chamado «Grande Debate» (mas sosseguem, não a perder a remuneração).

Perante a «multidão de ódio», como o presidente Mácron qualifica os coletes amarelos, este, abrigado pelos muros espessos do Palácio do Eliseu, avisou: pensa «ir mais longe e com mais vigor», ser «ainda mais radical» ou seja retomar as «reformas» isto é adoptar novas medidas de destruição dos serviços públicos (aceleração do desmantelamento do sector da energia, entre outros), de recuo na protecção social (a começar pelo endurecimento das condições de obtenção de subsídios de desemprego e das pensões de reforma), da discussão do estatuto de funcionários, etc.

E o primeiro ministro Édouard Philippe, de fazer a promessa redobrada: participar numa manifestação não declarada terá não só uma pena de contravenção (passível de mera multa), mas será a partir de agora considerado delito (podendo dar azo a condenações a prisão) O ano de 2019 promete desde já ser em França especialmente «delituoso».

Tradução: Manuela Antunes

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