A morte da história

John Pilger    05.Oct.17    Outros autores

A reescrita da história da guerra do Vietnam por parte do imperialismo não visa apenas ocultar a esmagadora derrota militar sofrida ou os monstruosos crimes de guerra cometidos. Visa também justificar o prosseguimento das agressões militares por todo o mundo, numa escalada que volta a colocar a humanidade à beira de uma catástrofe de dimensão planetária.

Um dos mais incensados “eventos” da televisão americana, The Vietnam War, teve agora início na rede PBS. Os realizadores são Ken Burns e Lynn Novick. Aclamados pelos seus documentários sobre a Guerra Civil, a Grande Depressão e a história do jazz, Burns diz dos seus filmes sobre o Vietname: “Eles inspirarão o nosso país a começar a falar e a pensar sobre a guerra do Vietname de um modo inteiramente novo”.

Numa sociedade muitas vezes destituída de memória histórica e sob o domínio da propaganda do “excepcionalismo”, a guerra do Vietname “inteiramente nova” de Burns é apresentada como um “épico e histórico trabalho.” A luxuosa campanha publicitária promove o seu maior apoiante, o Bank of America, que em 1971 foi incendiado por estudantes em Santa Barbara, Califórnia, como símbolo da odiada guerra no Vietname.

Burns diz que está grato a “toda a família do Bank of America” que “tem desde há muito apoiado os veteranos do nosso país”. O Bank of America foi apoio empresarial a uma invasão que matou talvez até quatro milhões de vietnamitas e devastou e envenenou uma terra outrora generosa. Mais de 58 mil soldados americanos foram mortos e estima-se que aproximadamente o mesmo número se tenha suicidado.

Assisti ao primeiro episódio em Nova Iorque. Desde o princípio que não deixa dúvidas acerca das suas intenções. O narrador diz que “a guerra foi iniciada com boa-fé por pessoas decentes em resultado de incompreensões decisivas, da super-confiança americana e de incompreensões da Guerra Fria.”

A desonestidade desta declaração não surpreende. A fabricação cínica de “falsas bandeiras” que levaram à invasão do Vietname é uma questão factual – o “incidente” do Golfo de Tonquim em 1964, que Burns promove a verdadeiro, foi apenas um deles. As mentiras grassam numa multidão de documentos oficiais, nomeadamente nos Pentagon Papers, que o grande denunciante Daniel Ellsberg divulgou em 1971.

Não havia boa-fé. A fé era apodrecida e cancerosa. Para mim – como deverá também ser para muitos americanos – é penoso assistir à forma como o filme amontoa uma balbúrdia de mapas do “perigo vermelho”, entrevistados não justificados, arquivos cortados de modo inepto e sequências lacrimejantes de campos de batalha filmados por americanos.

No press release da série na Grã-Bretanha – a BBC irá apresentá-la – não há qualquer menção a mortos vietnamitas, só a americanos. “Estamos todos em busca de algum significado para esta tragédia terrível”, diz uma citação de Novick. Muito pós-moderno.

Tudo isto será familiar àqueles que observaram como os media americanos e o monstro gerador da “cultura popular” reviram e apresentaram o grande crime da segunda metade do século vinte: desde The Green Berets (Os boinas verdes) e The Deer Hunter (O caçador) até Rambo e, ao assim fazer, legitimaram subsequentes guerras de agressão. O revisionismo nunca para e o sangue nunca seca. O invasor merece piedade e é expurgado de culpa, enquanto “buscam algum significado nesta tragédia terrível”. Soa a Bob Dylan: “Oh, onde tens estado, meu filho de olhos azuis?”

Reflecti acerca de “decência” e “boa-fé” quando recordei as minhas primeiras experiências de jovem repórter no Vietname: o observar hipnótico da pele que cai, como pergaminho velho, a crianças camponesas atingidas por napalm, e as chuvas de bombas que deixam árvores petrificadas e engrinaldadas com carne humana. O general William Westmoreland, comandante americano, referia-se ao povo como “formigas térmitas”.

No princípio dos anos 1970 fui à província de Quang Ngai onde na aldeia de My Lai entre 347 e 500 homens, mulheres e crianças foram assassinados por tropas americanas (Burns prefere dizer “mortos”). Naquela época, isto foi apresentado como uma aberração: uma “tragédia americana” (Newsweek). Só nesta província, foi estimado que 50 mil pessoas haviam sido massacradas durante a era das “zonas de fogo livre” americanas. Homicídio em massa. Isto não era notícia.

A norte, na província de Quang Tri, foram despejadas mais bombas do que em toda a Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Desde 1975, munições não explodidas provocaram mais de 40 mil mortes, principalmente no “Vietname do Sul”, o país que a América afirmava “salvar” e, com a França, concebida como uma singular falcatrua imperial.

O “significado” da guerra do Vietname não é diferente do significado da campanha genocida maciça contra os nativos americanos, os massacres coloniais nas Filipinas, os bombardeamentos atómicos do Japão, o arrasar de todas as cidades na Coreia do Norte. O objectivo foi descrito pelo coronel Edward Lansdale, o famoso homem da CIA sobre quem Graham Greene baseou o seu personagem central em O americano tranquilo.

Citando A guerra das pulgas de Robert Taber, Landsdale disse: “Só há um meio de derrotar um povo insurgente que não se rende, e é o extermínio. Só há uma forma de controlar um território que acolhe a resistência, e é transformá-lo num deserto”.

Nada mudou. Quando Donald Trump discursou nas Nações Unidas a 19 de Setembro – um organismo estabelecido para poupar à humanidade o “flagelo da guerra” – declarou que estava “pronto, desejoso e capaz” de “destruir totalmente” a Coreia do Norte e seus 25 milhões de habitantes. A sua audiência engasgou-se, mas a linguagem de Trump não era inabitual.

A sua rival à presidência, Hillary Clinton, tinha-se gabado de estar preparada para “obliterar totalmente” o Irão, uma nação de mais de 80 milhões de pessoas. Isto é o American Way, só os eufemismos estão agora ausentes.

Voltando aos EUA, impressiona-me o silêncio e a ausência de uma oposição – nas ruas, no jornalismo e nas artes, como se a discordância outrora tolerada na “cultura predominante” (”mainstream”) tivesse regredido a uma dissidência: uma clandestinidade metafórica.

Há muito barulho e aversão dirigida ao odioso Trump, o “fascista”, mas quase nenhum ao Trump enquanto sintoma e caricatura de um persistente sistema de conquista e extremismo.

Onde estão os fantasmas das grandes manifestações antiguerra que ocuparam a ruas de Washington na década de 1970? Onde está o equivalente do Freeze Movement que encheu as ruas de Manhattan na década de 1980, exigindo que o presidente Reagan retirasse armas nucleares operacionais da Europa?

A poderosa energia e persistência moral destes grandes movimentos teve sucesso em grande medida; em 1987, Reagan tinha já negociado com Mikhail Gorbachev um Tratado de Forças Nucleares de Médio Alcance que efectivamente pôs fim à Guerra Fria.

Hoje, de acordo com documentos secretos da NATO obtidos pelo jornal alemão
Suddeutsche Zeitung, este tratado vital está provavelmente em vias de ser abandonado pois o “planeamento de alvos nucleares aumentou”. O ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Sigmar Gabriel, advertiu contra a “repetição dos piores erros da Guerra Fria… Todos os bons tratados sobre desarmamento e controlo de armas de Gorbachev e Reagan estão em perigo iminente. A Europa está de novo ameaçada de se tornar num campo de treino militar para armas nucleares. Devemos levantar a nossa voz contra isto.”

Mas não na América. Os milhares que se mobilizaram em torno da “revolução” do senador Bernie Sanders na campanha presidencial do ano passado estão colectivamente mudos quanto a estes perigos. Que a maior parte da violência da América por todo o mundo tenha sido perpetrada não por republicanos, ou por mutantes como Trump, mas por democratas liberais permanece um tabu.

Barack Obama proporcionou a apoteose, com sete guerras simultâneas, um recorde presidencial, incluindo a destruição da Líbia enquanto estado moderno. O derrubamento por Obama do governo eleito da Ucrânia teve o efeito desejado: a concentração de forças da NATO liderada pelos americanos junto à fronteira ocidental da Rússia através da qual os nazis a invadiram em 1941.

O “pivot para a Ásia” de Obama em 2011 assinalou a transferência da maioria das forças navais e aéreas da América para a Ásia e o Pacífico sem qualquer outro propósito senão o de confrontar e provocar a China. A campanha mundial de assassínios por parte do Prémio Nobel da Paz é comprovadamente a mais ampla campanha de terrorismo desde o 11 de Setembro.

Aquilo que é conhecido nos EUA como “a esquerda” aliou-se efectivamente com os nichos mais negros do poder institucional, nomeadamente o Pentágono e a CIA, para inviabilizar um acordo de paz entre Trump e Vladimir Putin e reinstaurar a Rússia como inimigo, com base numa evidência inexistente da sua alegada interferência na eleição presidencial de 2016.

O verdadeiro escândalo é a insidiosa ascensão ao poder de sinistros interesses promotores da guerra em favor dos quais nenhum americano votou. A rápida ascensão do Pentágono e das agências de vigilância sob Obama representou uma mudança histórica do poder em Washington. Daniel Ellsberg classificou-a correctamente como um golpe. Os três generais que tutelam Trump são testemunho disso.

Nada disto consegue penetrar naqueles “cérebros liberais preservados no formol das políticas de identidade”, como Luciana Bohne observou de modo inesquecível. Mercantilizada e testada no mercado, a “diversidade” é a nova marca liberal, não a classe que comanda as pessoas independentemente do género e da cor da pele: não a responsabilidade de todos em travar uma guerra bárbara para acabar com todas as guerras.

“Como diabo se chegou a isto?”, diz Michael Moore no seu show na Broadway, Terms of My Surrender (Termos da minha rendição), um teatro de variedades para os insatisfeitos tendo como pano de fundo Trump como Big Brother.

Admirei o filme de Moore, Roger & Me, sobre a devastação económica e social da sua cidade natal de Flint, Michigan, e Sicko, a sua investigação sobre a corrupção nos cuidados de saúde na América.

Na noite em que assisti ao seu espectáculo, a audiência beatamente feliz saudava a sua reafirmação da confiança em que “nós somos a maioria!” e clamava pelo “impeachment de Trump, um mentiroso e um fascista!” A sua mensagem parecia ser que se você tivesse tapado o nariz e votado por Hillary Clinton, a vida teria voltado a ser previsível.

Ele pode estar certo. Ao invés de simplesmente insultar o mundo, como Trump faz, a Grande Destruidora (Great Obliterator) podia ter atacado o Irão e lançado mísseis sobre Putin, que comparou a Hitler: uma blasfémia singular, uma vez que 27 milhões de russos foram mortos na invasão de Hitler.

“Reparem”, disse Moore, “pondo de lado o que os nossos governos fazem, o mundo realmente ama os americanos!”

Houve um silêncio.

O original encontra-se em johnpilger.com/articles/the-killing-of-history

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . Tradução revista por odiario.info

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