A Nicarágua dói

Claudio Katz*    31.Jul.18    Outros autores

Os acontecimentos na Nicarágua têm suscitado posições contraditórias entre personalidades firmemente solidárias com o sandinismo. Ainda que a informação que chega seja, como seria de esperar, controversa, os protestos populares, ao contrário do que se tem passado na Venezuela, incluem reivindicações justas. A repressão desencadeada pelo governo tem assumido uma violência desproporcionada. O facto de Washington ter gente sua no terreno - ao lado da reacção nicaraguense, com destaque para a Igreja católica - e estar à espreita da oportunidade para instalar um governo mais servil não pode justificar esta actuação. A violência contra o povo facilita objectivamente a acção do imperialismo.

Escrever sobre a Nicarágua é tão doloroso e triste com indispensável. As recordações da revolução sandinista estão ainda muito presentes na geração que conheceu essa gesta. O silêncio seria uma afronta aos que participaram nessa memorável insurreição contra Somoza.

Os factos dos últimos meses oferecem poucas dúvidas. Uma sucessão de protestos sociais foi brutalmente reprimida. Há 350 mortos, só de um lado, devido à acção de forças militares ou paramilitares. Em todos os casos foram disparados tiros contra os manifestantes desarmados, que responderam ou escaparam conforme puderam à caçada.

As informações de numerosas fontes coincidem nessa descrição. Registou-se uma escalada crescente de disparos impunes, que que começara com alguns mortos e subiu para 60 em fins de Abril. Essa tragédia não foi interrompida pelo começo das conversações. Pelo contrário, o diálogo foi coroado com mais 225 crimes.

Não há qualquer justificação para esta selvajaria. As entidades oficiais (e as vozes de apoio que recebem) não mostram qualquer prova da «acção terrorista» que que apontam às vítimas. Também não há baixas significativas no campo governamental e não existem quaisquer registos do uso de armas de fogo pelos opositores.

Estes acontecimentos não foram só denunciados pelos que estão próximos dos que tombaram. Uma infinidade de testemunhos e uma larga variedade de jornalistas corroboraram esses acontecimentos. Mas o mais importante são as autorizadas vozes de ex-comandantes e dirigentes do sandinismo, que verificaram o que aconteceu no próprio lugar dos factos. As suas denúncias têm uma altíssima credibilidade e coincidem com a visão de velhos participantes estrangeiros da revolução. Estas opiniões importam pelo seu grande conhecimento dos atores em luta.

A sangueira descarregada pelo governo de Ortega assemelha-se à reacção de qualquer presidente de direita, Foi a típica violência do Estado contra os descontentes. Perante esse comportamento atroz, um movimento saído de reivindicações básicas assumiu o carácter democrático de resistência à repressão. A questão original contra a reforma da segurança social perdeu importância, perante o cenário dantesco de centenas de mortos provocados pelo tiroteio dos gendarmes.

Levantar a voz perante este crime, exigir o fim imediato da repressão e o julgamento dos culpados é a questão primeira perante o sucedido.

INVOLUÇÃO SEM RETORNO

Os protestos contra o aumento das quotizações para a segurança social encontraram um enorme eco junto da população. Essa adesão indicou o mal-estar existente em amplos sectores da população. Há cansaço com as políticas oficiais divorciadas do passado revolucionário do governo.

O orteguismo não preservou a mais leve parecença com a sua origem sandinista. Estabeleceu alianças estratégicas com o empresariado, adoptou as medidas exigidas pelo FMI e garantiu as ligações com a Igreja, depois de proibir o aborto. Consolidou a privilegiada burocracia dos negócios que se enamorou da apropriação dos bens públicos.

Sob a sua condução, Daniel Ortega rege um sistema clientelar assente em maquinarias eleitorais. A persistência da velha simbologia sandinista oculta esta mudança substancial, que reproduz a involução sofrida por outros processos progressistas.

Muito antes de se converter numa simples rede de mafiosos, O PRI mexicano tinha enterrado o seu legado de transformações agrárias e tradições nacionalistas. O mesmo aconteceu com o MNR da Bolívia, que actuou durante vários anos como um partido reaccionário contraposto à sua origem. Os exemplos de regressão política – que Ortega recria – estendem-se a outros partidos latino-americanos, que se despiram completamente das suas antigas ambições socialistas e anti-imperialistas.

Mas a repressão incorpora uma viragem mais irreversível. Converte uma formação aburguesada numa organização antagónica com a esquerda. Quando os aparelhos policiais assassinam impunemente, rompe-se o último ponto de contacto com um horizonte progressista. Esta regressão sem retorno deu-se nos últimos meses na Nicarágua.

As diferenças substanciais com a Venezuela não radicam apenas na permanência de um processo bolivariano, que se confronta com a direita e defende a soberania num quadro de inédita adversidade. Na interminável sucessão de guarimbas, o chavismo batalhou contra tentativas golpistas, incursões paramilitares e provocações por parte de grupos adestrados pela CIA. Cometeram muitas injustiças e fustigaram vários lutadores populares, mas a sua luta central foi contra a desestabilização promovida e financiada pelo imperialismo.

O que ocorreu na Nicarágua foi muito diferente. Os protestos não foram teledirigidos a partir de Washington. Surgiram de baixo, contra reformas aconselhadas pelo FMI e, posteriormente, articularam-se de forma espontânea na defesa de direitos vulnerados. Também as principais figuras dos conservadores - que concertaram incontáveis pactos com o governo – propiciaram a revolta. As manifestações reuniram um heterogéneo conglomerado de descontentes que actuam sob a orientação da Igreja e dos estudantes. As diferentes vertentes eclesiásticas não seguem um libreto rígido e uniforme, e os estudantes estão agrupados em várias correntes internas com líderes de direita e de esquerda.

Este movimento com baixo nível de politização inicial começou a adoptar posturas mais claras perante o acosso repressivo. O seu posicionamento consolidou-se perante o fracasso das mesas de diálogo que o governo disse aceitar, mas na prática boicotou.

UM OLHAR INTEGRAL

De todas as opiniões difundidas nas últimas semanas, a posição adoptada por um reconhecido dirigente revolucionário chileno reúne méritos ausentes noutras posturas.

Esta posição ressalta a legitimidade dos protestos, denuncia a traição de Ortega e questiona o silêncio cúmplice de muitas correntes progressistas perante a repressão. Mas alerta também contra a utilização pela direita dos protestos e sublinha que os Estados Unidos aproveitarão o conflito para socavar o governo. Além disso, constata que persiste o apoio de uma parte da população à política oficial e apela a que se encontre uma solução pacífica, para que a burguesia local e o seu mandante imperial não venham a ser os beneficiários da eventual hecatombe das forças no poder.

Esta visão sintetiza muito bem o repúdio moral das mortandades com o reconhecimento da complexa situação criada no país. Ainda que Ortega pactue sem qualquer escrúpulo com todos os expoentes da reacção, os Estados Unidos procuram o seu afastamento. Não toleram a autonomia que a Nicarágua preservou na sua política externa. O país não só faz parte da ALBA como mantém laços estreitos com o governo venezuelano. Pretende, além disso, construir um canal interoceânico com financiamento chinês na região mais quente do «pátio traseiro» da primeira potência.

Como ficou demonstrado durante o golpe contra Zelaya nas Honduras (e mais recentemente na Guatemala), os Estados Unidos tratam os pequenos países centro-americanos como colónias de segunda ordem. Não aceitam a menor indisciplina dessas nações. Por isso já puseram em marcha todos os mecanismos para cooptar os dirigentes dos protestos, a fim de os alinhar com a futura colocação de um títere do império no lugar de Ortega. Os encontros de vários líderes estudantis em Washington com congressistas da ultradireita anticastrista (e as reuniões do mesmo tipo em S. Salvador) constituem os episódios mais visíveis da nova operativa ensaiada por Trump.

Desconhecer os preparativos dessa agressão seria de uma inadmissível ingenuidade. O próprio Ortega que atropela brutalmente o povo é visto pelo Departamento de Estado como um adversário a sepultar. Este tipo de contradições tem sido muito frequente na história e devem ser seriamente avaliadas na esquerda, no momento de tomar uma posição. É vital não nos somarmos às campanhas da OEA e à gritaria de Vargas Llosa que entretece o Comando Sul.

PERIGOS E DEFINIÇÕES

Constatar que o sandinismo conserva a adesão de uma considerável parte da população é compatível com os resultados das últimas eleições. Mas Cabieses não parte apenas deste dado para apelar a uma solução pacífica. As negociações permitiriam evitar a transformação da revolta actual num confronto maior, com terrível sequela de vítimas e nefastas consequências no plano geopolítico e nacional.

O que aconteceu em dois países do Médio Oriente oferece antecedentes para temer essas consequências. Tanto na Líbia como na Síria predominavam governos de índole progressista que se alteraram até ao ponto de recorrer à repressão contra os seus defensores e o povo. Kadhafi prendeu palestinos e Assad descarregou sobre o povo fuzilamentos indiscriminados. Ambos os casos terminaram em tragédias maiores. O estado líbio praticamente desapareceu, dando lugar a ambiciosas disputas entre clãs rivais. A Síria teve um desenlace mais dramático.

Assistiu primeiro ao assumir do protesto pelos jihadistas e depois sofreu o pior desastre humanitário das últimas décadas.

As realidades históricas e o cenário político do Médio Oriente e da América Central são muito diferentes. Mas o imperialismo actua com os mesmos propósitos de dominação em ambas as regiões. Destrói sociedades e arrasa países sem contemplações. Se na Venezuela tivessem ganho a partida, o país seria um cemitério semelhante ao Iraque, com o petróleo nas mãos das grandes companhias estado-unidenses.

Por tudo isto convém não esquecer, em momento algum, quem é o inimigo principal. Uma solução pacífica na Nicarágua é o melhor caminho para evitar o perigoso aproveitamento do conflito. O mecanismo dessa saída esteve muito presente no pedido de diálogo para negociar eventuais eleições antecipadas.
Esta reclamação é diferente da identificação do governo com uma ditadura e exigir a sua queda. Aparentemente, nas últimas semanas a tensão cedeu, não que as negociações tenham avançado mas pela consolidação da repressão. Ortega conseguiu respirar graças ao chicote. Mas a sua conduta criou um abismo inultrapassável com a juventude rebelde. O seu divórcio com a esquerda é definitivo. A tradição revolucionária sandinista voltará a ressurgir, mas no caminho contrário ao do orteguismo

(*) Claudio Katz é economista, investigador, Professor na Universidade de Buenos Aires e membro do EDI (Economistas de Izquierda).

Tradução: João Paulo Gascão

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