A nova equipa de Obama: as esquecidas lições do Iraque

Gary Younge*    27.Mar.13    Outros autores

Gary Younge Na sua campanha antes de ser pela primeira vez candidato às eleições presidenciais, Obama manifestou-se contra a guerra no Iraque. Uma vez eleito, prosseguiu a política de Bush, e em muitos aspectos ampliou-a e tornou-a ainda mais agressiva. E vem nomeando como principais responsáveis pela política externa norte-americana vários daqueles a quem antes de ser candidato se opôs, incluindo vários dos mais notórios vira-casacas da política dos EUA.

Em Abril de 1968, um pelotão de la 9ª Divisão de Infantaria dos EUA no Vietnam tropeçou numa armadilha de corda que detonou uma mina terrestre. No transporte de tropas estavam dois irmãos, Chuck e Tom Hagel. Chuck retirou Tom, inconsciente, de entre os destroços e ambos foram evacuados. “Na noite em que Tom e eu saímos daquela aldeia graças à evacuação médica disse a mim próprio: se saio desta e alguma vez chego a estar numa posição de poder político, farei tudo o que possa para evitar guerras desnecessárias e sem sentido”, declarou Chuck à revista Vietnam. Em 1996 Chuck foi eleito senador republicano pelo Nebraska. Quando se lhe apresentou uma “guerra desnecessária e sem sentido” no Iraque em Outubro de 2002, votou a favor. Na semana passada Obama escolheu-o para secretário da Defesa.

Em 22 de Abril de 1971, John Kerry, jovem veterano do Vietnam, prestou testemunho perante o Comité de Relações Exteriores do Senado, destacando os crimes de guerra cometidos por soldados norte-americanos no Vietnam e perguntando: “¿Como é que se pede a um homem que seja o último a morrer por um erro?”.

“Racionalizamos a destruição de aldeias com a ideia de as salvar”, declarou. “Vimos a América do Norte perder o seu sentido da moralidade ao aceitar My Lai [1] e ao negar desfazer-se da imagem dos soldados norte-americanos que distribuem chocolates e chicletes”.

Em Outubro de 2002, quando se lhe apresentou a oportunidade de impedir que os soldados norte-americanos matassem e morressem por um erro, Kerry desperdiçou-a. Como senador democrata pelo Massachusetts, também ele votou a favor da guerra do Iraque. Na semana passada, Obama escolheu-o para secretário de Estado.

“Se a obscenidade não te preocupa, não te preocupa a verdade; e se não te preocupa a verdade, olha como votas”, escreveu Tim O’Brien na sua novela bélica sobre o Vietnam, The Things They Carried [Las cosas que llevaban los hombres que cayeron, Anagrama, Barcelona, 1993]. “Enviai jovens para a guerra e regressarão a casa desnorteados”. Enviai esses mesmos jovens para o Congresso umas quantas décadas depois e vede como votam. Muitos perdem a ânsia pela verdade e proferem imbecilidades quando sobem à tribuna.

Apesar de todo o sangue derramado e do que se gasta nos conflitos militares norte-americanos, da carnificina e do caos que ocasionam e dos inimigos que se criam, bem poucas lições parecem chegar até ao topo da classe política. As nomeações mais recentes de Obama sugerem que, a despeito da sua retórica acerca de virar a página em política exterior, não pode resistir a regressar aos autores mais desacreditados dos capítulos recentes para elaborar o episódio seguinte.

A oposição de Obama a essa guerra foi essencial para o tornar atractivo tanto dentro do Partido Democrata como para o país no seu conjunto. Deu resposta às críticas acerca da sua falta de experiencia e de uma ambição descomunal com a evidência de que tinha princípios e capacidade de julgamento. Apenas uma semana antes de Kerry e Hagel votarem a favor da guerra, Obama falou contra ela num comício em Chicago, quando era senador do estado de Illinois, acusando a invasão de “guerra estúpida, guerra temerária. Uma guerra baseada, não na razão mas na paixão, não sobre princípios mas sobre a política”. Com 62% do país a apoiar a guerra na altura tratava-se de um risco para um candidato qua apontava a um cargo mais elevado.

Mas desde que chegou ao mais alto cargo tem repetidamente promovido a postos-chave da política externa aqueles que foram suficientemente estúpidos, temerários ou sem princípios para apoiar a Guerra. O seu vice-presidente, Joe Biden, foi um dos principais corifeus democratas a favor da guerra. Manteve no mesmo posto o secretário da Defesa de Bush, Bob Gates, nomeou Hillary Clinton – que considerava o seu próprio apoio à guerra como a sua maior vulnerabilidade durante as primarias democratas – como secretaria de Estado. Vêm agora Hagel, Kerry e John Brennan – escolha sua para director de la CIA – notoriamente implicado nos programas de tortura da era de Bush e responsável pelos ataques com aviões não tripulados.

Como tal, a presidência de Obama continua a marcar não tanto um novo discurso comparado com a agenda de Bush posterior ao 11 de Setembro como uma sequela dessa mesma agenda, mais sensível nas suas tonalidades. Quando, durante a campanha presidencial, acusou Mitt Romney de querer “fazer as mesmas coisas que nós fazemos, mas dizendo-as em voz mais alta”, enunciou uma triste verdade. A sua evocação acrítica do serviço militar de Kerry e Hagel no Vietnam como qualificação para o servir diz tudo acerca das insuficiências do país no sentido de processar os efeitos secundários do conflito militar.

De acordo com Christopher Gelpi, professor de ciências políticas na Universidade de Duke, especializado nas atitudes sobre política exterior, o mais importante factor singular entre os que configuram as opiniões dos norte-americanos acerca de qualquer guerra é se crêem que os EUA vencerão. Solipsista, oportunista e essencialmente amoral, o ponto crucial não assenta nas violações de direitos humanos, nas vítimas civis ou sequer na morte de soldados norte-americanos. Reside simplesmente nas expectativas de êxito. “A opinião pública norte-americana é em parte alérgica às baixas, mas aquilo a que tem primordialmente alergia é à derrota”, afirma Gelpi. “Nos EUA é possível conseguir-se apoio para qualquer operação militar, seja ela qual for, desde que tenhas do teu lado um número suficiente de pessoas do grupo dos alérgicos à derrota”.
O problema de Vietnam não foi o descalabro ético de uma cultura política que permitia a morte, a destruição e a tortura numa proporção desmedida; o problema foi a derrota. Os que são responsáveis progridem ou ascendem. Os que sofrem ficam para trás abandonados. Aqueles que têm a memória mais curta movem-se mais rapidamente e chegam mais longe. Os que forçam um ajuste de contas com o passado ou contraem uma amnésia colectiva e selectiva ou são postos de parte.

A maioria dos que votaram a favor da guerra no Iraque lamentam hoje a sua decisão. Hagel tem sido uma das vozes mais críticas sobre o Vietnam e foi quem levantou maiores objecções antes do Iraque. “¿Quantos de nós conhecem verdadeiramente e compreendem alguma coisa do Iraque, o país, a história, as pessoas, o seu papel no mundo árabe?”, perguntou. “Debruço-me sobre a questão do Iraque posterior a Sadam e do futuro da democracia e da estabilidade do Médio Oriente com mais cautela, realismo e um pouco mais de humildade”. Não obstante tudo isto, representa um triste exemplo dos esforços de Obama para adoptar um enfoque bipartidista.

E no final acabariam todos a deitar as culpas para uma defeituosa actividade de inteligência, uma liderança deficiente e uma planificação inadequada. Todos estes problemas eram reais. Todos eram evidentes antes da guerra. Nenhuma das justificações era apropriada. Cuando tiveram a oportunidade de a parar, não a pararam. As questões relativas a intervenções exteriores podem ter a sua complexidade. O Iraque não a tinha. Moral, militar, estratégica, politicamente não se tratava de uma decisão difícil.

A maioria das pessoas do mundo, independentemente da sua educação, religião ou nacionalidade, compreendeu que se tratava de uma má ideia desde o princípio. Aqueles que estando no poder não o compreenderam, não puderam ou não quiseram, são responsáveis pelo maior, mais garrafal e mortífero erro em política externa da última década, pelo menos. Encomendar-lhes que nos livrem da próxima guerra é a mesma coisa que esquecer como nos metemos na última.

20/01/13

Nota:
[1] A destruição da aldeia de My Lai em Março de 1968 é, se não a maior, pelo menos a mais tristemente célebre das matanças de civis vietnamitas às mãos de soldados norte-americanos. Embora seja inclusivamente ignorado o número aproximado de vítimas, estima-se que foram assassinadas entre 300 e 500 pessoas.

*Gary Younge é um dos vários correspondentes que o diário The Guardian tem nos Estados Unidos e nessa qualidade tem feito a cobertura das eleições presidenciais e para o Congresso dos últimos anos.

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