A Península Ibérica e a Reconquista Cristã …

Jorge Messias*    23.Mar.08    Colaboradores


“A Igreja nunca desistiu de recuperar privilégios perdidos. Esta regra cruza toda a sua história e orienta as acções e as estratégias da hierarquia, do clero e do laicado católico. Independentemente do que sejam as diferenças ideológicas, as opções particulares, os quadros da fé ou os ventos da história. (…)O teatro de operações está bem definido: será o mesmo espaço que assistiu à derrota dos mouros pelo fio da espada - a Península Ibérica.”

A Igreja nunca desistiu de recuperar privilégios perdidos. Esta regra cruza toda a sua história e orienta as acções e as estratégias da hierarquia, do clero e do laicado católico. Independentemente do que sejam as diferenças ideológicas, as opções particulares, os quadros da fé ou os ventos da história. Lembremo-nos de que séculos houve em que o Vaticano teve o monopólio do Ensino, da Assistência, da Protecção à Família, da Cultura dos Povos, da Catequese das Crianças, etc., etc.

Depois, com a passagem do tempo e com a progressiva emancipação das ciências e a autonomização dos métodos seculares da investigação e do ensino, a Igreja foi perdendo grande parte da influência que ganhara nas áreas da política, da economia, da cultura e da educação, na vida social e assistencial – em suma, na sociedade. As suas cúpulas, porém, sempre tiveram em mente recuperar e ampliar esse ascendente perdido.

O clero e os corpos confessionais, religiosos ou laicos – o todo a que recentemente se convencionou chamar sociedade civil, com o sentido de Igreja - aguardaram pacientemente que estivessem reunidas condições para o desencadear de uma nova Cruzada Cristã. Numa primeira fase, como se viu, tiveram êxito e conseguiram desmantelar o sistema socialista dos estados do Leste europeu. Todavia, consideraram os cardeais e assim continuam a pensar, que tanto no Leste europeu como no resto mundo, em todos os países alguma vez tocados pela praga do socialismo e do laicismo, muito há ainda a fazer antes de cantar vitória. É esta preocupação obsessiva que impele o Vaticano e motiva as suas acções.

Assim como aconteceu com as Novas Cruzadas antisocialistas, sem as quais teria sido impossível à Igreja reocupar posições no Leste da Europa, também nada impede que o credo católico regresse, em todos os restantes países do mundo, aos esplendores da época doirada medieval. Basta, fundamentalmente, que recupere o pensamento místico dos séculos passados. Modernizando os instrumentos da acção, sem dúvida, mas conservando a mística do Velo de Oiro ou dos Cavaleiros da Távola Redonda.

O teatro de operações está bem definido: será o mesmo espaço que assistiu à derrota dos mouros pelo fio da espada - a Península Ibérica. Os objectivos principais também permanecem os mesmos: o reforço e a expansão do império católico. Mas os meios a utilizar e os circuitos de organização terão de ser modernizados. Quer na sistematização das acções do factor humano, quer no domínio das tecnologias de ponta, os métodos operacionais terão de dar um grande salto em frente e dominar as mais recentes conquistas tecnológicas colocando-as ao serviço de uma direcção eclesiástica disciplinada e tecnocrática apoiada nas estruturas capitalistas das sociedades de mercado. O poder laico fundir-se-á então com o poder clerical. A força do dinheiro casar-se-á com a teara, para todo o sempre. Será aí o início do Milénio Cristão.

Os recentes acontecimentos em Espanha, vistos à luz deste megaprojecto do Vaticano de Bento XVI, indiciam que a contra-ofensiva da igreja se irá desencadear dentro de não muito tempo.

Os planos da Igreja ou “ do perto se faz longe “

A sociedade espanhola revela contradições profundas e conflitos internos praticamente insanáveis. Há a questão do regime e das autonomias regionais. Falou-se muito em milagre económico mas a economia não está consolidada e a crise é patente. A hierarquia da igreja, extremamente conservadora, bloqueou a modernização do aparelho do Estado.

Mas sem a ruptura total com o passado não haverá margem de manobra para o capitalismo neoliberal se instalar. A sombra da guerra civil, com a imagem do Cristo Crucificado e do sólido fantasma consistente de Franco sobrevivente, permanece para muitos espanhóis como alternativa a defender e animar.

Não obstante, a esmagadora maioria dos observadores - sociólogos e politólogos - reconhece agora que a Espanha se seculariza e que está em curso a formação de uma mentalidade nova, enquanto que a Igreja perde influência social. Os casamentos civis, anteriormente repudiados pela maioria dos espanhóis, representam agora 44% dos matrimónios. Os baptizados católicos, que até há poucos anos atingiam praticamente 100% dos nascimentos, desceram para apenas 57% dos recém-nascidos e a tendência continua a acentuar-se. As críticas à Igreja e à religião oficial avolumaram-se e, curiosamente, onde mais subiram de tom foi nas regiões que tradicionalmente representam a maior força da pressão católica: a Catalunha, o País Basco e a Navarra.

No sentido inverso, cresceu o poderio das hierarquias religiosas espanholas, sobretudo após a entronização de Bento XVI. O ex-cardeal Ratzinger não tem poupado esforços no sentido de reforçar a influência das alas mais retrógradas do clero e do laicado espanhóis. Recentemente, nomeou Superior da Ordem dos Jesuítas um espanhol, o padre Adolfo Nicolás, e promoveu a aproximação da Companhia ao Opus Dei.

Ninguém pode calcular as dimensões do tesouro jesuíta ou a capacidade de infiltração das suas organizações na sociedade, mas pode afirmar-se sem hesitações que a Companhia de Jesus representa em Espanha um estado dentro do Estado e que o mesmo se passa com o Opus Dei. Foi neste enquadramento que o Papa beatificou os padres franquistas que morreram durante a guerra civil. Esta beatificação, feita a poucas semanas da realização de eleições legislativas no país vizinho, revela claramente a intenção de a Santa Sé se imiscuir nos assuntos internos de uma nação soberana, ainda que em termos gerais, católica.

Finalmente, deu-se o grande golpe de teatro da gigantesca manifestação convocada pelo Arcebispado de Madrid, em 5 de Janeiro do ano corrente, sob o pretexto da celebração de uma missa campal em intenção da Família Cristã. Reuniu-se uma assistência computada em 2 milhões de pessoas, em grande parte estrangeiras. Viam-se por toda a parte dísticos e bandeiras, sobretudo espanholas, alemãs, do Vaticano e de Portugal. A missa transformou-se em demonstração de força política. As alocuções dos bispos tomaram a peito combater as leis que regem o casamento e o divórcio, a interrupção voluntária da gravidez, a educação, o financiamento das igrejas, a liberdade religiosa, a segurança social, a imprensa e a rádio, a família e os direitos humanos. Foi uma verdadeira declaração de guerra ao Estado laico e à separação dos poderes. Na multidão identificavam-se numerosas formações fundamentalistas religiosas que actuam, simultaneamente, em Espanha e em Portugal: os Focolares, os Recoletos, os Neocatecumenais, o Exército Azul, a Família Cristã, a Comunidade de Santo Egídio, e muitas outras organizações ultraconservadoras que actuam em rede nos dois países ibéricos.

Parte do PSOE reagiu imediatamente, com paixão, aos desafios do Vaticano.“ Não daremos nenhum passo atrás!”, declarou em comunicado o seu Executivo Federal. Naturalmente, deseja-se que assim aconteça. Mas, também se sabe que, logo após o estalar do espectacular confronto, a diplomacia do Vaticano tomou a iniciativa de negociar secretamente com Zapatero. Curiosamente, o intermediário designado pelo papa foi um português que é núncio apostólico em Madrid. Sucederam-se os almoços de trabalho e as conversações à porta fechada. As eleições legislativas aproximavam-se e o conflito foi esquecido. A que preço, ninguém sabe.

Torna-se evidente que os objectivos a atingir pela Santa Sé, relativamente ao caso espanhol, são a dois níveis: avanços tácticos das pressões da Igreja e aproveitamento dos resultados eleitorais ; e consolidação das bases de uma situação que, a médio prazo permita ao Vaticano avançar para a sua ofensiva final de Reconquista ibérica.

O tratamento específico reservado a Portugal vai-se desenvolvendo, em paralelo.

As próximas eleições legislativas portuguesas estão marcadas para 2009, de acordo com o calendário constitucional. Sem relação aparente, surge agora a notícia de que o Papa, por sugestão do português cardeal Saraiva Martins, figura “parda” do governo do Vaticano, decidiu antecipar em dois anos os ritos de beatificação da irmã Lúcia, a “pastorinha” de Fátima. Como o prazo canónico da beatificação é de 6 anos e Lúcia faleceu em 2005, feitas as contas, a cerimónia litúrgica terá lugar em Fátima, em 2009, ano da realização das eleições legislativas portuguesas. Juntar-se-ão no Santuário milhões de peregrinos vindos dos quatro cantos da terra; os milagres da política e dos mitos católicos confundir-se-ão, uma vez mais; e, em nome da fé, apagar-se-á a memória dos atropelos, dos crimes e dos escândalos que pontuam as acções deste governo “laico” e“socialista”. Igreja e tirania dar-se-ão as mãos. Por bom preço, é claro…

Mistérios insondáveis dos desígnios de Deus!

*amigo e colaborador de odiario.info

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A Península Ibérica e a Reconquista Cristã …

Jorge Messias*    25.Feb.08    Colaboradores

“(…) Com a passagem do tempo e com a progressiva emancipação das ciências e a autonomização dos métodos laicos da investigação e do ensino, a Igreja foi perdendo grande parte da influência que ganhara nas áreas da política, da economia, da cultura e da educação, na vida social – em suma, na sociedade. Mas a hierarquia sempre teve em mente reocupar o ascendente perdido e ampliá-lo. O clero e as instituições confessionais religiosas ou laicas (a que recentemente se passou a chamar sociedade civil, com o sentido de Igreja) aguardaram pacientemente que estivessem reunidas condições para a grande contra-ofensiva.

A Igreja nunca desistiu de recuperar privilégios perdidos. Este princípio atravessa toda a sua história e orienta o conjunto das posições e das estratégias desenvolvidas pela hierarquia, pelo clero e pelo laicado católico. Independentemente do que sejam as diferenças ideológicas, as opções particulares, os quadros da fé ou os ventos da história. Lembremo-nos de que séculos houve em que o Vaticano teve o monopólio do Ensino, da Assistência, da Protecção à Família, da Cultura dos Povos, da Catequese das Crianças, etc., etc. Depois, com a passagem do tempo e com a progressiva emancipação das ciências e a autonomização dos métodos laicos da investigação e do ensino, a Igreja foi perdendo grande parte da influência que ganhara nas áreas da política, da economia, da cultura e da educação, na vida social – em suma, na sociedade. Mas a hierarquia sempre teve em mente reocupar o ascendente perdido e ampliá-lo. O clero e as instituições confessionais religiosas ou laicas (a que recentemente se passou a chamar sociedade civil, com o sentido de Igreja) aguardaram pacientemente que estivessem reunidas condições para a grande contra-ofensiva.

Tiveram êxito, como se viu, com o desmantelamento político dos estados socialistas do Leste europeu. Todavia, consideram os cardeais que, tanto no Leste europeu como no terceiro mundo, em todos os países alguma vez tocados pela praga do socialismo e do laicismo, muito há ainda a fazer. É esta ideia fixa que orienta o Vaticano. E tal como aconteceu com o Movimento das Cruzadas (sem o qual teria sido impossível à Igreja reocupar posições no Leste da Europa) também as igrejas do Oeste e do Sul do Continente regressarão à sua época de oiro se tomarem como modelo de acção a Reconquista Cristã dos tempos medievais. O teatro de operações está bem definido: será o mesmo espaço que assistiu à derrota dos mouros pelo fio da espada – a Península Ibérica.

Os objectivos principais também permanecem os mesmos: o reforço e a expansão do império católico. Mas os meios a utilizar terão de ser os mais modernos. Quer na organização do elemento humano, quer nas tecnologias de ponta, os instrumentos operacionais darão um grande salto em frente e disporão das mais recentes técnicas e de um aparelho eclesial ultra-sofisticado, à semelhança do que acontece nos grupos económicos das sociedades de mercado. O poder laico fundir-se-á com o poder clerical. A força do dinheiro casar-se-á com a teara, para todo o sempre. Será, então, que terá início o Milénio Cristão. Os recentes acontecimentos em Espanha, vistos à luz deste megaprojecto do Vaticano de Bento XVI, indiciam que a contra-ofensiva da igreja se irá desencadear dentro em breve.

Os planos da Igreja ou “ do perto se faz longe “

A sociedade espanhola revela contradições profundas e conflitos internos praticamente insanáveis. Há a questão do regime e das autonomias regionais. Falou-se muito em milagre económico mas a economia não está consolidada e a crise é patente. A hierarquia da igreja, extremamente conservadora, bloqueou a modernização do aparelho do Estado. Mas sem a ruptura total com o passado não haverá margem de manobra para o capitalismo neoliberal se instalar. A sombra da guerra civil, com a imagem do Cristo Crucificado e do sólido fantasma consistente de Franco sobrevivente, permanece para muitos espanhóis como alternativa a defender e estimular.

Inversamente, a esmagadora maioria dos observadores – sociólogos e politólogos – reconhece agora que a Espanha se seculariza e que está em curso a formação de uma mentalidade nova, enquanto que a Igreja perde influência social. Os casamentos civis, anteriormente repudiados pela maioria dos espanhóis, representam agora 44% dos matrimónios. Os baptizados católicos, que até há poucos anos atingiam praticamente 100% dos nascimentos, desceram para apenas 57% da totalidade dos partos e a tendência continua a acentuar-se. As críticas à Igreja e à religião oficial avolumaram-se e, curiosamente, onde mais subiram de tom foi nas regiões que tradicionalmente representam a maior força da pressão católica: a Catalunha, o País Basco e a Navarra.

No sentido oposto, também cresceu o poderio das hierarquias religiosas espanholas, sobretudo após a entronização de Bento XVI. O ex-cardeal Ratzinger não tem poupado esforços no sentido de reforçar a influência das alas mais retrógradas do clero e do laicado espanhóis. Recentemente, nomeou Superior da Ordem dos Jesuítas um espanhol, o padre Adolfo Nicolás, e promoveu a aproximação da Companhia ao Opus Dei. Ninguém pode calcular as dimensões do erário jesuíta ou a capacidade de infiltração das suas organizações, mas pode afirmar-se sem hesitações que a Companhia de Jesus representa em Espanha um Estado dentro do Estado e que o mesmo se passa com o Opus Dei. Imediatamente depois, o Papa beatificou em massa os padres franquistas que morreram durante a guerra civil. Esta beatificação, feita a poucas semanas da realização de eleições legislativas no país vizinho, revela claramente a intenção de a Santa Sé se imiscuir nos assuntos internos de uma nação soberana, ainda que em termos gerais, católica.

Finalmente, deu-se o grande golpe de teatro da gigantesca manifestação convocada pelo Arcebispado de Madrid para 5 de Janeiro, sob a capa da celebração de uma missa campal em intenção da Família Cristã. Reuniu-se uma assistência computada em 2 milhões de pessoas, em grande parte estrangeiras. Viam-se por toda a parte dísticos e bandeiras, sobretudo espanholas, alemãs, do Vaticano e de Portugal. A missa transformou-se em demonstração política de força. As alocuções dos bispos tomaram a peito combater as leis em vigor que regem o casamento e o divórcio, a interrupção voluntária da gravidez, a educação, o financiamento das igrejas, a liberdade religiosa, a segurança social, a imprensa e a rádio, a família e os direitos humanos. Foi uma verdadeira declaração de guerra ao Estado laico e à separação dos poderes.

Na multidão identificavam-se numerosas formações fundamentalistas que actuam simultaneamente em Espanha e em Portugal: os Focolares, os Recoletos, os Neocatecumenais, o Exército Azul, a Família Cristã, a Comunidade de Santo Egídio, e muitas outras organizações, dinâmicas e que actuam em rede nos dois países ibéricos. Parte do PSOE reagiu imediatamente, com paixão, aos desafios do Vaticano.

“Não daremos nenhum passo atrás!”, declarou em comunicado o seu Executivo Federal. Naturalmente, deseja-se que assim seja. Mas, também se sabe que, logo após o estalar do conflito, a diplomacia do Vaticano tomou a iniciativa da negociação secreta com Zapatero. Curiosamente, o intermediário designado pelo papa foi um português que é núncio apostólico em Madrid. Sucederam-se os almoços de trabalho e as conversações à porta fechada. As eleições legislativas aproximavam-se.

Torna-se evidente que os objectivos a atingir pela Santa Sé, relativamente ao caso espanhol, são a dois níveis: avanços tácticos das pressões da Igreja, no plano do aproveitamento dos resultados eleitorais das eleições de 6 de Março; e aprofundamento das bases de uma situação a médio prazo que permita ao Vaticano avançar para a sua ofensiva final da Reconquista da Península Ibérica.

O tratamento reservado a Portugal, adivinha-se ser em tudo idêntico ao do caso espanhol.
As próximas eleições legislativas portuguesas estão marcadas para 2009, de acordo com o calendário constitucional. Sem relação aparente, surge agora a notícia de que o Papa, por sugestão do português cardeal Saraiva Martins, figura “parda” do governo do Vaticano, decidiu antecipar em dois anos os ritos de beatificação da irmã Lúcia, a “pastorinha” de Fátima. Como o prazo canónico da beatificação é de 6 anos e Lúcia faleceu em 2005, feitas as contas, a cerimónia litúrgica terá lugar em Fátima, em 2009, ano da realização das eleições legislativas portuguesas. Juntar-se-ão no Santuário milhões de peregrinos vindos dos quatro cantos da terra; os milagres da política e do sobrenatural confundir-se-ão, uma vez mais; e, em nome da fé, passar-se-á uma esponja sobre os atropelos e os crimes do passado e do presente deste governo “laico” e “socialista”.

São os mistérios insondáveis dos desígnios de Deus…

* Jorge Messias é amigo e colaborador de odiario.info

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