A preocupação económica é pelo dólar

Julio C. Gambina    07.Nov.13    Colaboradores

O gigantesco deficit dos EUA é financiado por todo o mundo. É incrível a confiança na segurança de um país que está em quebra, que gasta mais do que tem de receita, que compra mais do que vende e que tem dificuldade em sustentar o dólar como moeda mundial.

Houve por estes dias e em todo o mundo preocupação pelo dólar ou, o que vem a dar no mesmo, pelo futuro da economia estado-unidense.

Em Outubro começou o novo ano fiscal nos EUA e a disputa política entre republicanos e democratas atrasou a aprovação do orçamento, o que significou a suspensão de actividade do governo, quer dizer, de alguns serviços e áreas administradas pelo governo estado-unidense. Isso traduziu-se em licenças antecipadas para 800.000 trabalhadores do estado que tiveram em risco salários e postos de trabalho num momento de crise no emprego.

No final chegou-se a acordo, transitório, mas acordo no fim de contas, acerca do tecto de endividamento estabelecido e foi concedida a aprovação até Dezembro, altura em que o tema voltará a ser discutido. Qualquer coisa como chutar a bola para a frente.

O problema de fundo não está resolvido. Não se resolveu a questão central do deficit fiscal, gravíssimo, que desde há 4 períodos atinge um valor médio anual de 1,5 milhares de milhões de dólares. Ainda que fique autorizado um novo tecto para o endividamento público da ordem dos 23 milhares de milhões de dólares, contra os actuais 16,7 milhares de milhões, as causas da necessidade de dívida não se modificam.
Há que encontrar a raiz do problema na despesa militar e na política externa e interna dos governos estado-unidenses, avalizadas por gestões republicanas e democratas. Uns e outros sustentam a política de intervenção com forte gasto estatal para garantir os interesses estratégicos dos EUA. Isso é conseguido graças à confiança do resto do mundo, que destina os seus próprios recursos a investimentos em activos externos de origem estado-unidense, especialmente os títulos do tesouro, que embora pagando pouco são fonte segura de investimento.

Em definitivo, o deficit dos EUA é financiado por todo o mundo. É incrível a confiança na segurança de um país que está em quebra, que gasta mais do que tem de receita, que compra mais do que vende e que tem dificuldade em sustentar o dólar como moeda mundial, confiança para a qual concorre tanto o apoio das armas e a militarização como a credibilidade de investidores capitalistas de todo o mundo desejosos de investir nos EUA, entre eles vários países que colocam as suas reservas internacionais nesses activos. China e Japão em primeiro lugar, o que os associa nas expectativas de superar os escolhos económicos e/ou políticos da principal potencia do capitalismo mundial.

A palavra de ordem destes dias pareceu ser: “salvemos todos o Titanic, ou seja, os EUA”. O capitalismo mundial está em crise e uma das suas manifestações são os limites de política económica do país hegemónico, mas também as políticas nacionais que pelo mundo fora sustentam o dólar. Porque os EUA mantêm-se porque o mundo reclama dólares.

A Argentina e o dólar

Vejamos a própria Argentina, que desde o início do ano já perdeu 10.000 milhões de dólares de reservas internacionais. De um pouco mais de 44.000 milhões baixou para pouco mais de 34.000 milhões em meados de Outubro. Sem contar que as reservas tinham atingido uns 52.000 milhões de dólares em Dezembro de 2011.

As divisas vão-se da Argentina por pagamentos de dívida, por fuga de capitais, e em consequência das condições da inserção subordinada da Argentina na economia capitalista mundial. Trata-se de um activo externo procurado pelos principais actores económicos e isso explica o seu preço em ascensão, seja no cambio oficial seja no paralelo, ultrapassando as tentativas das autoridades para reprimir essa escalada. As divisas são procuradas pelo governo e também pelos sectores económicos mais concentrados, sejam exportadores ou importadores, incluindo os turistas com grande capacidade de despesa.

O tema é de tal forma importante que, contradizendo a mensagem da “pesificação”, foi franqueado um branqueamento em dólares (CEDIN, BAADE) que teve de ser prorrogado até ao fim do ano em consequência do escasso fluxo de exteriorização de dólares, apenas menos de 400 milhões face a uma expectativa de 4.000 milhões de dólares. Para completar a medida, o BCRA acaba de regulamentar a possibilidade de que o sector privado se endivide no exterior e incorpore essas divisas no interior via compra de Títulos de investimento em energia, o BAADE, que tinha sido pensado para branquear divisas não declaradas.

Pode ser que esses recursos venham a entrar e, de facto, petroleiras e cerealeiras anunciam contributos de 1.000 milhões de dólares, ao mesmo tempo que se incrementa a preocupante dívida externa do sector privado. Já sabemos que quando a dívida privada externa é alta e se torna impagável, incidem sobre o Estado as pressões empresarias para socializar o seu cancelamento ou renovação à custa do orçamento público.
A dívida privada externa em ascenso e o aumento da dívida pública constituem problemas estruturais que asfixiam o presente e o futuro da soberania nacional. É de referir que, assim como nos EUA se chuta a bola para a frente face à crise económica mundial, outros países actuam em consequência. É esse o quadro da recomposição das relações entre a política oficial e os organismos internacionais, expresso na satisfação manifestada no conclave empresarial que nestas horas decorre em Mar del Plata.

Os empresários em IDEA reconhecem os elevados lucros destes anos e saúdam a orientação voltada para o mercado mundial de conversações e acordos com o CIADI, com o Banco Mundial e o FMI, o que anuncia um novo ciclo de inserção subordinada para afirmar a dependência local face aos EUA, ao dólar e ao sistema mundial do capitalismo.

Buenos Aires, 18 de Outubro de 2013

*Presidente da Fundação de Investigações Sociais e Políticas, FISYP
Montevideo 31, 2º Piso CP 1019ABA. Cidade de Buenos Aires.
blog www.juliogambina.blogspot.com

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