A prioridade

Correia da Fonseca    14.Dic.12    Colaboradores

O personagem que liderou uma “comissão de peritos” encarregue de encaminhar a privatização da RTP explicitou o que espera de um bom serviço de televisão: que “tenha uma imagem nítida”. A questão é assim, técnica e formal. Como se o ataque ao serviço público de televisão não fosse parte integrante da ofensiva reaccionária em curso. Para esta gente, tal como para Berlusconi em Itália, o direito à informação e à cultura não valem nada. O que vale é a desinformação e o entretenimento alienante, sobretudo se transmitido com “imagem nítida”.

1. Era, no quadro de um programa de opinião e debate, a vez de o senhor doutor se pronunciar. Senhor doutor, e não um doutor qualquer: não apenas economista frequentemente convidado pela televisão para vir esclarecer as gentes, mas também e talvez sobretudo director da mais importante escola de Economia e Gestão do ensino superior público. O tema naquela ocasião abordado pelo pequeno grupo reunido perante câmaras e microfones era o das privatizações, sendo presumível que sobre o assunto o doutor tivesse de um modo geral opiniões sólidas e, de um modo especial, opinião acerca da ainda nebulosa privatização da Radiotelevisão Portuguesa. De facto, não há muito tempo ele liderara uma comissão de peritos efectivos ou supostos encarregada de explicar como as coisas deverão ser encaminhadas, designadamente no plano das programações e do já famigerado serviço público de TV, essa coisa misteriosa que, sem que ninguém pareça saber o que é, contudo incomoda, e muito. É natural, assim, adivinhar-se que o tema exigira então ao senhor doutor algum tempo de reflexão que há-de ter florido em fundamentadas convicções. Terá sido por isso, de resto, que ao espírito lhe acudiu a ideia de, acerca do tema das privatizações que ali estava a ser abordado, explicar os seus entendimentos a partir de uma exemplificação que tomava a TV como ponto de partida. O método até provavelmente convergia com a sua função profissional de mestre e de, nessa qualidade, porventura ser-lhe habitual o recurso a exemplos concretos. Assim, ele entendeu explicar-nos que o que prioritariamente lhe interessa nas anunciadas privatizações, é a eficácia do resultado no concreto plano da prática. Entende-se.

2. Recorreu então o senhor doutor a um exemplo simples: disse ele, por palavras suas que não terão sido exactamente as que se seguem mas não tiveram outro significado, que o que antes do mais lhe importa em matéria de televisão é que ao seu televisor chegue uma imagem nítida. Parece ser um critério aceitável, se não irrecusável. Aponta, contudo, para um efeito que excede a questão da televisão e se projecta em horizontes mais largos: coloca o apuro formal como sendo o mais importante, situado no exemplo escolhido na qualidade da imagem e omitindo que o mais importante em matéria de TV é o conteúdo comunicado. É a identificação do suposto mérito a partir da forma, isto é, das aparências, critério que constitui passaporte para todos os equívocos e para todas as fraudes nos mais variados domínios; também, naturalmente, na televisão, esse pão-nosso quotidiano que alimenta milhões, Na área da programação dita de entretenimento, até muitas vezes acontece que o público detecta a mediocridade apenas disfarçada por retoques vistosos, espécie de missangas coloridas adequadas ao fascínio de basbaques ou nem isso, mas não se importa ou importa-se pouco: resigna-se a consumi-la porque é o que há e até lhe parece barata. Quanto à informação, sobretudo aos telenoticiários cuja culinária ascende por vezes ao nível da grande arte da manipulação social, a regra geral é a de consumi-los sem repugnância nem particular fastio. Partindo do critério revelado pelo senhor doutor, podemos imaginar que os telespectadores se desgostariam dos telenoticiários eventualmente impostores se as imagens surgissem sempre desfocadas ou se fossem mal audíveis as frases que muitas vezes contrabandeiam inverdades, mas com imagens nítidas e som claro tudo lhes parecerá aceitável e, afinal, globalmente crível. Quando muito, e num plano que lhes pareceria de menor relevância, aceitariam a impostura como uma espécie de fatalidade que não merece atenção especial. E não recriminemos por isso os telespectadores mistificados: afinal, eles adoptam o critério da “imagem nítida” como exigência primeira para avaliação da qualidade do serviço, qualquer coisa como a prioridade da embalagem sobre a avaliação dos produtos. É o critério do senhor doutor, que se presume ser suficientemente sábio. Que de facto o será. Mas num especial sentido.

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos