A Progressão do caos

José Goulão*    22.Ago.13    Colaboradores

José Goulão«Barack Obama interrompeu por momentos uma animada partida de golfe para condenar vagamente os militares egípcios pelas matanças dos últimos dias proibindo-os de participar em próximos exercícios militares mas não pondo em causa o auxílio logístico, financeiro e operacional. Obama fez mais uma vez de Pilatos decretando que só os egípcios podem resolver o problema que criaram. O presidente julga que nos esquecemos das declarações feitas há pouco tempo pelo seu secretário de Estado, John Kerry, segundo as quais o golpe militar no Egipto foi um acto para “correcção do caminho da democracia”».

A diplomacia económica e militarista que domina o mundo fabricando instabilidade e guerras civis para exportar a sua “democracia padrão” atingiu um limite crítico no Egipto. Já fora advertida na Argélia, no início dos anos noventa, já fora obrigada a um descarado golpe de rins na Palestina em 2007, mas ao destapar a caixa de Pandora egípcia começa a sentir – que não é o mesmo que perceber – os efeitos da irresponsabilidade criminosa com que gere o poder da sua força.

Depois do que está a passar-se no Egipto nada voltará a ser como dantes nas relações entre os neocruzados ocidentais e o Médio Oriente. Os fios com que Washington e Israel, na companhia dos seus obedientes aliados da NATO e da União Europeia, têm manipulado as marionetas regionais não apenas se embaraçaram no Cairo como deram um nó cego muito difícil de desatar.

É difícil acreditar que as administrações de Washington, Telavive e Bruxelas não soubessem que através da “primavera árabe” iria chegar o tempo da afirmação do islamismo político. A prova de que sabiam é que rapidamente começaram a infiltrar e a manipular as transformações e a entender-se com os grupos religiosos dominantes e influentes para tentarem modelar a nova situação consoante os seus interesses. Para isso não cuidaram sequer de distinguir entre o chamado “islamismo moderado” e o radicalismo islâmico, com o qual os poderes ocidentais têm cúmplices relações desde o Afeganistão dos anos oitenta e a ex-Jugoslávia dos anos noventa.

Passemos em revista o cenário deixado pela relação íntima entre os regimes ocidentais e os desenvolvimentos da “primavera árabe”: governos islamitas confessionais na Tunísia, onde o terrorismo contra a oposição se tornou moeda corrente, e no Egipto; caos na Líbia depois da intervenção militar da NATO, onde o governo instaurado em Tripoli não tem espaço para governar entre milícias religiosas e sectárias e o país se cindiu entre a Cirenaica e a Tripolitânia; guerra civil na Síria, onde a NATO apoia uma oposição dominada pelo radicalismo islâmico sunita, na qual se destacam grupos da rede da Al Qaida; transposição gradual da guerra civil síria para o Líbano. No Iraque, onde a “primavera” foi levada pela invasão norte-americana, prevalecem as forças centrífugas sectárias cultivadas desde o início pelos governadores instalados por Washington.

A situação no Egipto veio demonstrar de forma sangrenta que esta política se esgotou e a emenda é pior do que o soneto. Secretamente, a diplomacia ocidental decretou que o esmagador domínio eleitoral da Irmandade Muçulmana e dos grupos radicais não valeu e inventou um “governo transitório” de personalidades sob custódia militar. As forças armadas egípcias são um braço militar norte-americano no Médio Oriente.

Barack Obama interrompeu por momentos uma animada partida de golfe para condenar vagamente os militares egípcios pelas matanças dos últimos dias proibindo-os de participar em próximos exercícios militares mas não pondo em causa o auxílio logístico, financeiro e operacional. Obama fez mais uma vez de Pilatos decretando que só os egípcios podem resolver o problema que criaram. O presidente julga que nos esquecemos das declarações feitas há pouco tempo pelo seu secretário de Estado, John Kerry, segundo as quais o golpe militar no Egipto foi um acto para “correcção do caminho da democracia”.

Os resultados da “correcção” estão à vista. Entretanto, existem informações fidedignas de que Estados Unidos e Israel cultivaram boas relações com a Irmandade Muçulmana no Egipto durante grande parte do tempo em que esteve no poder, tal como acontece com as suas congéneres da Turquia e da Síria, onde são das mais activas aliadas dos desígnios da NATO. Falta saber o que correu mal com Morsi e o fez cair em desgraça.

A diplomacia e as instâncias internacionais, entre elas a ONU – cada vez mais uma correia de transmissão da NATO através do actual secretário geral – apelam agora aos militares egípcios e ao governo de transição para que restaurem a democracia através de eleições.

Ora não é segredo para ninguém que eventuais eleições irão proporcionar nova vitória esmagadora da Irmandade Muçulmana. E depois? Kerry vai outra vez “corrigir o caminho” da democracia, sucedendo-se novas matanças? No Egipto falhou a primeira experiência democrática e falhou agora a respectiva “correcção”. Nada do que poderá seguir-se funcionará, em tese, repetindo-se o que ficou para trás.

Para já, o mais populoso país árabe está à beira da guerra civil e um nó cego ata os fios políticos que têm sido manipulados até aqui. Abre-se um enorme buraco negro no Médio Oriente: três países vizinhos de Israel estão em guerra civil, o mesmo acontecendo, na prática, com o Iraque; a tragi-comédia das negociações entre Netanyahu e Abbas aprofunda a divisão palestiniana. As monarquias ditatoriais do Golfo, com a cumplicidade de Washington, da NATO e da Turquia, incentivam guerras entre comunidades sunitas e xiitas, com perseguições a outras minorias religiosas.

E são os irresponsáveis criminosos que o criaram quem continua a gerir a progressão deste caos.

* Jornalista

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