A propósito das “ reflexões” de Fidel

“ Fidel repetiu insistentemente ao longo da vida que o dever do revolucionário é fazer a revolução. Ele a sentiu e vê como infinito absoluto. Ninguém contribuiu tão positivamente como ele para romper na América Latina a submissão ao imperialismo encarada como fatalidade, ninguém conseguiu com tanto êxito contrariar a lógica aparente da História. E talvez também nenhum outro revolucionário tenha na sua intervenção como estadista revelado uma consciência tão permanente de que, por mais sábio que seja, dirigente algum pode sobrepor-se ao colectivo como sujeito transformador da História.”

A minha admiração por Fidel Castro remonta ao início dos anos 50, quando a Portugal chegaram ecos do assalto ao Quartel Moncada.

Eu era um jovem jornalista sem formação politica. Nessa época o culto dos heróis era inseparável do meu olhar sobre a Historia. Aquele moço cubano que numa louca aventura desafiara o poder de uma ditadura corrupta tomou lugar naturalmente no meu panteão de heróis carlilianos.

Transcorridos quatro anos, quando, iniciada a epopeia da Sierra Maestra, o nome de Fidel voltou às manchetes da imprensa internacional, a minha admiração pelo guerrilheiro barbudo que se propunha a destruir o exército de Batista e esboçava da Sierra os contornos de uma revolução humanista ampliou-se muito.

Qual será o desfecho deste desafio? - perguntava-me.

Somente anos depois ganhou transparência a certeza de que o grande desafio não terminou com a entrada em Havana do Exército Rebelde. A Revolução Cubana, acossada pelo imperialismo, avançou torrencialmente rumo ao socialismo, assumindo as proporções de um terramoto social e político que deixaria marcas profundas na América Latina.

A grande vaga romântica guerrilheira dos anos 60 foi derrotada na América Latina. Mas a herança da Revolução Cubana fortaleceu a consciência anti- imperialista de sucessivas gerações de latino-americanos. Sem o exemplo da resistência cubana não teriam sido possíveis as conquistas dos governos progressistas de Torres na Bolívia e de Velasco Alvarado no Peru e, dez anos depois, a vitória da Frente Sandinista na Nicarágua, e o combate travado em El Salvador pela Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional. Embora menos perceptíveis, as lições da saga cubana são também identificáveis nas lutas sociais que, em contextos muito diferentes, levaram à Presidência da Venezuela, do Brasil, do Uruguai, da Bolívia, do Equador, do Paraguai presidentes com programas iniciais moderadamente anti imperialistas e antineoliberais.

A presença cubana na luta dos movimentos de libertação africanos não foi somente importante. Ela assumiu em alguns casos um papel decisivo. Sem a ajuda cubana, Angola teria sucumbido. Nelson Mandela reconheceu aliás a grande contribuição de Cuba para a independência da Namíbia e o fim do apartheid na Africa do Sul.

Quando Fidel adoeceu, escrevi em Agosto de 2006 um artigo em que o defini como o Aquiles Comunista por identificar nele a coragem do herói aqueu no desafio ao impossível.

Recordei então que Fidel, ao discursar em Havana em 1960 num Congresso dos Trabalhadores Cubanos, sublinhara ser perigoso que um homem dispusesse de tanta autoridade como a concentrada na sua pessoa. Não podia então imaginar que, por circunstâncias da história independentes da sua vontade, tal situação iria manter-se durante décadas.

Ele exerceu porém um imenso poder como comunista desambicioso que partia do nacional para o universal num combate em que a defesa da pequena Cuba se inseriu numa batalha maior pela transformação revolucionária da humanidade.

Na segunda metade do século XX não houve talvez outro dirigente do Terceiro Mundo que pela palavra e pela acção tenha desempenhado um papel tão importante no rumo de acontecimentos que assinalaram o processo de descolonização e as lutas contra o imperialismo de povos por este oprimidos e agredidos.

Residi em Cuba durante quase oito anos, precisamente após o fim da União Soviética. Formei ali a convicção de que foi nessa época que Fidel, num processo de ascese, superou como estratego e estadista tudo o que até então realizara na defesa da Revolução. A sobrevivência da Ilha socialista, bloqueada e atingida por uma guerra não declarada, num mundo em que de Washington a Paris se festejava (prematuramente) o fim do socialismo, trouxe-me então à memória as epopeias dos antigos gregos, cantadas por Homero e Xenofonte.

Sem petróleo, sem acesso ao crédito internacional, Cuba, cujo comércio externo dependia em mais de 85 % da URSS e dos países do Leste Europeu, foi forçada a integrar-se gradualmente num mercado capitalista cujos dirigentes não escondiam o desejo de destruir o seu regime.

Por haver tido a oportunidade de viver no dia a dia o chamado Período Especial e as semanas da crise dos balseros sei que a sobrevivência da Revolução foi amassada em sofrimento, coragem e privações que dificilmente outro povo teria suportado sem capitular. Mas Cuba sobreviveu.

Fidel, lúcido, advertiu insistentemente o seu povo de que essa sobrevivência era inseparável da introdução de mecanismos do capitalismo que iriam contaminar franjas do tecido social. E isso aconteceu. Ameaçada pelo inimigo externo, a Revolução teve de encontrar forças e imaginação para se defender do perigo interno. Este não resultava de uma oposição caricatural, mas da própria dinâmica da mudança social num contexto em que o Estado e o Partido demonstraram dificuldade em encontrar respostas adequadas para novos desafios.

A DOENÇA DO HERÓI

Era inevitável que a doença de Fidel provocasse uma sensação que ia da angústia ao alarme não apenas no seu povo mas em milhões de revolucionários de todo o mundo, solidários com a Revolução Cubana.

Os heróis são mortais, como todos os humanos, mas aqueles que em Cuba – a maioria do povo – se habituaram durante muitos anos a esperar de Fidel as decisões que permitiam ao barco da Revolução navegar com segurança em aguas tempestuosas, sentiram algo semelhante a uma orfandade anunciada quando se aperceberam de que ele não poderia retomar o leme.

Raúl assumiu com lucidez e firmeza a Presidência do Conselho de Estado, ou seja a governação dos país. Isso ocorreu num momento em que, na fidelidade à opção socialista, o próprio Fidel, antes de adoecer, afirmara a necessidade de medidas de combate à burocratização e de ruptura com a tendência para o imobilismo.

Não cabe neste artigo apreciar o que Raúl e a equipa dirigente fizeram e não fizeram desde o afastamento, primeiro temporário e depois definitivo, do irmão. Intelectuais amigos de Cuba têm, sob perspectivas diferentes, escrito muito sobre a nova situação existente na Ilha, tal como a vêem, no campo da economia, da cultura, das relações sociais.

Revisitei Cuba em Novembro de 2007. Decidi não escrever sobre o que vi e ouvi em conversas com camaradas.

Abro hoje uma excepção. A admiração e o respeito que Fidel me inspira como revolucionário e personagem histórico impõem-me o dever de escrever, como comunista, este texto motivado pelos os últimos acontecimentos de Cuba. Não para comentar a Nota Oficial do Conselho de Estado que desencadeou uma chuva de especulações, mas apenas para abordar uma questão, que me parece fulcral, mas ignorada pelos exegetas do processo cubano.

Refiro-me às consequências da situação de ambiguidade resultante de Fidel, tendo renunciado, por incapacidade física, à chefia do Estado, permanecer como primeiro secretário do Comité Central do Partido Comunista de Cuba. Essa função confere-lhe toda a legitimidade para se pronunciar sobre qualquer tema que se lhe afigure merecedor da sua atenção, como máximo responsável de um Partido que se situa acima do governo como responsável pelo rumo da Revolução.

E Fidel tem exercido esse direito na coluna de “Reflexões” que “Granma”, o órgão central do Partido tem publicado com alguma regularidade e esses textos são reproduzidos em dezenas de media estrangeiros, alguns adversários da Revolução.

Mais de uma vez, “reflexões” de Fidel sobre questões internas e internacionais suscitaram polémica e sobretudo especulações mal intencionadas.

Os seus comentários à Nota Oficial do Conselho de Estado publicada pelo “Granma”, no dia 3 de Março, chamaram de modo especial a atenção de camaradas e inimigos, tornando-se tema de manchetes, por iluminarem a ambiguidade acima referida.

Na Nota as informações sobre o afastamento de Carlos Lage e de Felipe Perez Roque dos Ministérios que chefiavam não eram acompanhadas de qualquer crítica. O primeiro mantinha a sua posição no Conselho de Estado como vice-presidente e o segundo permanecia como membro do Comité Central.

Fidel na coluna que dedicou ao assunto não se limitou a elogiar as decisões tomadas, Dirigiu duras criticas a ambos, sem os nomear explicitamente, qualificando-os de indignos.

A boataria assumiu grande amplitude. Uma vaga de especulações varreu Cuba e o mundo.

A reacção de Lage e Perez Roque foi imediata. Em cartas publicadas pelo “Granma”, muito parecidas, reconheciam e lamentavam erros cometidos, informaram que renunciavam a todos as funções que desempenhavam no Estado e à condição de membros do Comité Central e expressavam a sua admiração por Fidel e Raúl.

Fidel desautorizou o Conselho de Estado, embora não fosse essa a sua intenção.

Abstenho-me de criticar o seu gesto. Mas a ambiguidade da situação criada pela sua permanência no cargo de primeiro secretário do PCC que, pela sua condição física, não pode exercer plenamente, cria constrangimentos no Estado e no Partido e está a ser utilizada pelos inimigos de Cuba para denegrir a imagem do revolucionário comunista que marcou a História do século XX.

Nestes dias, recordando a trajectória luminosa de Fidel, penso em Álvaro Cunhal, Volodia Teitelboim e Harilaos Florakis, eles também grandes revolucionários que, ao afastarem-se das responsabilidades que tinham como dirigentes dos seus partidos, não foram confrontados pela história com problemas como aquele que volta a colocar Cuba no centro da atenção mundial.

Fidel repetiu insistentemente ao longo da vida que o dever do revolucionário é fazer a revolução. Ele a sentiu e vê como infinito absoluto. Ninguém contribuiu tão positivamente como ele para romper na América Latina a submissão ao imperialismo encarada como fatalidade, ninguém conseguiu com tanto êxito contrariar a lógica aparente da História. E talvez também nenhum outro revolucionário tenha na sua intervenção como estadista revelado uma consciência tão permanente de que, por mais sábio que seja, dirigente algum pode sobrepor-se ao colectivo como sujeito transformador da História.

Interrogo-me se o Partido não terá nos últimos meses contribuído pela sua omissão para o avolumar da ambiguidade da posição actual de Fidel que não favorece o prestígio da Revolução Cubana.

Acredito que no seu quarto de doente, Fidel medita sobre o tema.

Vila Nova de Gaia, 13 de Março de 2009

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