A recuperação do Imperio e a desaparição dos trabalhadores

James Petras    30.May.18    Editores

Um dos aspectos da decadência dos EUA é o da sua classe dominante fazer sobreviver e consolidar o seu poder sobre uma crescente desigualdade interna e uma profunda degradação das condições de vida dos trabalhadores e do povo do seu próprio país. Derrubado o mito da “american way of life”, a violência militar e a exploração que exporta têm uma frágil rectaguarda.

Introdução

Os impérios entram em decadência ou expandem-se em função, basicamente, das relações entre governantes e governados. Há vários factores determinantes, entre os quais se incluem: 1) o rendimento, a terra e a habitação; 2) a evolução do nível de vida; 3) o aumento ou descida da taxa de mortalidade; e 4) a diminuição ou o aumento das famílias.
Ao longo da história, os impérios em expansão incorporaram a população no império, distribuindo às massas uma parte dos recursos espoliados, proporcionando-lhes terras, arrendamentos reduzidos e habitações. Os grandes latifundiários que tinham que fazer frente aos jovens veteranos regressados das guerras evitavam uma excessiva concentração da terra para evitar distúrbios nos seus feudos.
Os impérios em expansão melhoravam as condições de vida, pois empregados assalariados, artesãos, mercadores e escriturários encontravam emprego quando a oligarquia dava rédea solta ao seu consumo de ostentação e crescia a burocracia que administrava o império.
Um império próspero é causa e consequência do aumento das famílias e do número de plebeus sãos e educados que servem os governantes e são mantidos por eles.
Um império em decadência, pelo contrário, saqueia a economia interna e concentra a riqueza à custa da mão-de-obra, ignorando o decréscimo da sua saúde e da sua esperança de vida. Como consequência, os impérios em decadência vêm crescer a taxa de mortalidade; a propriedade de terras e habitações concentra-se numa elite de rentistas que vivem graças a uma riqueza adquirida imerecidamente por herança, fruto da especulação ou das rendas, que degrada o trabalho produtivo baseado na perícia e nos conhecimentos.
Os impérios em decadência são causa e consequência da deterioração das famílias, compostas frequentemente de trabalhadores dependentes dos opiáceos que sofrem o aumento da desigualdade entre eles e os seus governantes.
A história do Imperio Americano ao longo do último século encarna na perfeição a trajectória da expansão e queda dos impérios. O último quarto de século é um bom exemplo das relações entre governantes e governados em plena decadência do império.
As condições de vida dos estado-unidenses deterioraram-se a toda a velocidade. As empresas deixaram descontar para as pensões e reduziram ou eliminaram a cobertura sanitária dos seus trabalhadores, e viram reduzidos os seus impostos de finalidade social, o que redunda numa quebra da qualidade da educação pública.
Nos últimos vinte anos, os salários que a maior parte dos lares recebem estagnaram ou foram reduzidos; os gastos em saúde e educação arruinaram muitos, e converteram os graduados universitários em escravos das suas dívidas a longo prazo.
Nos EUA, o acesso à propriedade da habitação para menores de 45 anos diminuiu de 24% em 2006 para 14% em 2017. Ao mesmo tempo, os arrendamentos dispararam, especialmente nas grandes cidades de todo o país, e na maioria dos casos absorvem entre um terço e metade do rendimento mensal.
As elites empresariais e os seus peritos imobiliários desviam a atenção para as desigualdades “intergeracionais” entre pensionistas e jovens empregados assalariados, em lugar de reconhecer o aumento da desigualdade entre os altos executivos e os trabalhadores e pensionistas, cujos rendimentos passaram de 100 a 1 para 400 a 1 nas três últimas décadas.
Aumentaram também as diferenças entre a taxa de mortalidade da elite empresarial e dos trabalhadores, pois os ricos cada vez vivem mais anos sem perder a saúde enquanto os trabalhadores sofrem um decréscimo na esperança de vida ¡pela primeira vez na história dos EUA! Graças aos rendimentos procedentes de lucros, dividendos, aumento da taxa de juro, etc., os ricos podem pagar o elevado custo da medicina privada e prolongar a sua vida, enquanto a milhões de trabalhadores se receitam opioides para “reduzir a dor” e os conduzir a uma morte prematura.
Os nascimentos decresceram como consequência da carestia da saúde e da carência de creches e de baixas remuneradas por maternidade ou paternidade. Os últimos estudos revelaram que 2017 teve o menor número de nascimentos em 30 anos. A suposta “recuperação da economia” posterior ao colapso financeiro de 2008-2009 teve um desvio de classe: as elites empresariais e imobiliárias receberam um resgate superior aos 2 milhares de milhões de dólares enquanto mais de 3 milhões de lares da classe trabalhadora eram despejados e desalojados das suas habitações pelos financeiros que tinham adquirido as suas hipotecas. Resultado: um aumento acelerado de gente sem lar, especialmente nas cidades com maiores índices de recuperação da crise.
Provavelmente, os factores que produziram esta descida da maternidade e aumento da mortalidade são a falta de habitação e os desorbitados preços dos arrendamentos de apartamentos saturados, juntamente com os salários mínimos.

O imperialismo expande-se, o nível de vida desce

Nas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial, a expansão no estrangeiro foi acompanhada no âmbito interno pelo embaratecimento da educação superior, hipotecas a preços razoáveis que facilitavam a propriedade de uma habitação, e melhorias nas pensões e cobertura sanitária por conta dos patrões. Entretanto, nas duas últimas décadas a expansão imperial baseou-se na redução forçada do nível de vida.
O Imperio expandiu-se e as condições de vida pioraram porque a classe capitalista evadiu milhares de milhões de dólares de impostos através de paraísos fiscais, preços de transferência e isenções fiscais. E como se isso ainda fosse pouco, os capitalistas receberam imensas subvenções públicas para infra-estruturas e transferências gratuitas de inovação tecnológica financiada pelo Estado.
Nos nossos dias, a expansão imperial baseia-se na deslocalização das multinacionais manufactureiras com o fim de baixar os custos de mão-de-obra, aumentando assim a percentagem de trabalhadores de serviços mal pagos nos EUA.
O declínio das condições de vida da maioria é consequência da reestruturação do Imperio, da instauração de um sistema tributário regressivo e da redistribuição das transferências de gasto público com fins sociais do Estado de bem-estar para subvenções e resgates ao sector imobiliário e financeiro.

Conclusão

Nas suas origens, o imperialismo incluía um contrato social explícito com a força de trabalho: a expansão estrangeira compartilhava lucros, impostos e rendimentos com a força de trabalho em troca do apoio político dos trabalhadores à exploração económica imperial no exterior, o saque de recursos e a prestação de serviço nas forças armadas do império.
O contrato social era condicionado pelo equilíbrio relativo de poder: a maioria dos operários fabris, do sector público e os trabalhadores especializados estavam sindicalizados. Mas este equilíbrio de poder nas relações de classe baseava-se na capacidade da força laboral em participar activamente na luta de classes e, assim, pressionar o Estado. Ou seja, o imperialismo e a estrutura do bem-estar baseavam-se numa serie específica de condições intrínsecas do pacto social.
Com o tempo, a expansão imperial teve que enfrentar constrangimentos no exterior em resultado da emergente oposição de grupos nacionalistas ou socialistas, que forçavam as empresas à deslocalização do seu capital no estrangeiro. Os rivais do império na Europa e na Asia começaram a competir pelos mercados exteriores, obrigando os EUA a aumentar a sua produtividade, reduzir custos laborais, deslocalizar no estrangeiro ou reduzir lucros. Os EUA escolheram reduzir os padrões de vida domésticos e relocalizar a sua produção no estrangeiro.
Os dirigentes sindicais separaram-se de outros movimentos mais amplos de base e, ao carecerem de um movimento político independente, estarem assolados pela corrupção interna e comprometidos com um agrupamento social em vias de desaparição, reduziram-se em número e em capacidade de formular uma nova estratégia combativa pós-pacto social. A classe capitalista adquiriu controlo total sobre as relações de classe e, por conseguinte, começou a decidir unilateralmente os termos da política fiscal, do emprego, das condições de vida e, o mais importante, a despesa pública.
As despesas militares e económicas do império cresceram na proporção directa da redução das despesas sociais. Os grupos rivais de poder disputavam entre si conseguir a sua parte dos orçamentos capitalistas e decidir as prioridades político-militares. Os imperialistas económicos competiam ou uniam-se aos imperialistas militares; os neoliberais do livre mercado competiam com os militaristas pelos mercados exteriores em busca da ocupação de mais territórios, novas conquistas, mercados fechados e clientes submissos. As estruturas de poder rivais competiam para ditar as prioridades imperiais – as poderosas redes sionistas urdiam guerras regionais favoráveis a Israel enquanto as multinacionais tentavam impulsionar a sua expansão político-militar na Asia (China, India e os mercados do sueste asiático).
Facções rivais das elites monopolizavam orçamentos, impostos e gastos comprimindo as condições de vida da força laboral. As classes imperialistas pactuaram entre elas, a qualidade e quantidade de trabalhadores diminuiu. Mas os descendentes dessas elites frequentavam as melhores escolas e garantiam os melhores postos no governo e na economia.
Os privilégios e o poder não produziram triunfos imperiais. A China soube integrar os seus programas educativos e trabalhadores qualificados no trabalho produtivo. Os privilegiados graduados universitários estado-unidenses, pelo contrário, trabalham em postos financeiros parasitários e lucrativos, não em sectores da ciência, da engenharia e da assistência social. Os graduados nas academias militares associaram-se a redes de “comandantes” que são coniventes com abusos sexuais, treinaram e promoveram oficiais que lançam misseis sobre centros populacionais e treinam a capitães da armada especializados em fazer colidir os seus próprios navios.
Os graduados pela Ivy League conseguiram assumir altos cargos no governo e conduziram os EUA a guerras intermináveis no Médio Oriente, multiplicando adversários, antagonizando aliados e gastando milhares de milhões de dólares em guerras que favorecem Israel, em vez de os gastar em apoios sociais e salários mais elevados para os trabalhadores norte-americanos. Pois, a economia está a recuperar… mas as pessoas estão a passar pior.
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Artigo original: https://petras.lahaine.org/imperial-recovery-and-disappearing-workers/

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