A Resistência ao fascismo dentro dos quarteis do regime

Armando Myre Dores    31.May.21    Outros autores

Faleceu há poucos dias Armando Myre Dores. Odiario.info, homenageando essa figura de inabalável resistente e de comunista, publica um estudo seu sobre a resistência ao fascismo e contra a guerra colonial dentro dos próprios quartéis do regime. Uma resistência que deu um significativo contributo para o 25 de Abril de 1974, e ao desencadeamento de um processo – até aos dias de hoje - em que Myre Dores foi exemplar participante.

A luta contra o fascismo e nomeadamente a resistência contra a guerra colonial foi uma constante dentro das forças armadas portuguesas. Contrariamente à tese de alguns historiadores de que a luta contra a guerra colonial só teria começado nos anos 70 do século passado, a resistência à guerra começou com grande força desde os primeiros embarques para as colónias depois da eclosão da guerra em Angola em Fevereiro-Março de 1961. Assim, os soldados recusavam-se a partir para as colónias, tendo havido grandes manifestações de descontentamento em Évora, Beja e Setúbal nos embarques para Angola.(1 )

Em muitos quarteis regista-se a resistência dos soldados ao embarque, mas não é por acaso que estas manifestações de oposição à guerra são mais visíveis nas zonas de maior influência das forças progressistas e onde as classes trabalhadoras tinham maior tradição de luta. Segundo números oficiais divulgados em Maio de 1974, teria havido entre 110 mil e 170 mil jovens faltosos ao serviço militar, refractários e desertores. Este dado, só por si, já demonstra a resistência dos jovens a participar na guerra colonial e o protesto contra a política colonialista do regime. Mas a forma mais avançada de luta contra a guerra deu-se no próprio seio das forças armadas. Para isso não bastava um ambiente de desagrado com a guerra, a falta de entusiasmo em partir para as colónias, era preciso um trabalho organizado. No seu livro sobre o Canto de Intervenção, diz Eduardo Raposo: “Entretanto nos quarteis, quer seja na metrópole(…) assim como nas colónias, os milicianos incorporados compulsivamente devido à sua participação nas lutas académicas fazem um importante trabalho de “subversão” e desagregação do regime que terá como consequência o ambiente propício à constituição do Movimento das Forças Armadas” (2 )

O mesmo reconhecia Marcelo Caetano depois do 25 de Abril: “ O que sucedia, porém, era a inundação das unidades, todos os anos, por jovens que tinham terminado os seus cursos superiores ou o frequentavam(…) Através dessa constante injecção de universitários, as forças armadas recebiam a influência das ideias que agitavam as gerações e circulavam nos corredores das escolas. E essas ideias, como já notei, eram de contestação da ordem social existente e da legitimidade da manutenção do Ultramar português” (3 ). O canto de intervenção também teve influência no meio militar. Na mesma obra de Eduardo Raposo, conta-se: “Tendo havido um sarau de instruendos da Escola Prática de Cavalaria, ocorrido no Teatro Rosa Damasceno, em Santarém em 31 de Março de 1971(…) em que são cantadas canções subversivas(…) estas causam alguma inquietação nos comandantes(…) (Os cantores cantaram) para 700 ou 800 pessoas, capitães, tenentes, soldados e familiares”(4 )

Claro que esta luta não era só organizada por estudantes. Muitos trabalhadores, com a sua experiência da luta reivindicativa nas suas empresas e na luta política geral, tiveram também um grande papel na luta dos soldados e marinheiros. Mas esta acção, como é natural, intensificou-se mais nos anos 70, nos tempos mais próximos do 25 de Abril. Álvaro Cunhal, no seu livro “A Revolução Portuguesa, o passado e o futuro”, diz: “ Um balanço feito na época, na base de informações directas das organizações militares do PCP, acusou nos anos de 1972-73 a realização de acções em mais de 50 quarteis e outras unidades militares”.( 5)

A luta contra a guerra dentro dos quarteis teve um caracter massivo, envolvendo largos milhares de militares, numa grande variedade geográfica, em unidades militares de Norte a Sul do país e no próprio teatro de guerra, baseando-se em diversos motivos de descontentamento, adquirindo várias formas de protesto, enfrentando muitas vezes a resistência de oficiais fascistas e militaristas. Estas formas de luta eram, por vezes, espontâneas, mas evoluíram cada vez mais para formas organizadas à medida que foram crescendo os grupos de soldados e milicianos progressistas organizados dentro dos quarteis. Vejamos alguns exemplos mais significativos: -No curso de oficiais milicianos em Mafra em Fevereiro de 1970, durante o juramento de bandeira, 700 milicianos cantaram canções de protesto. No copo de água que se seguiu gritaram estribilhos contra a guerra colonial. (6 ). -Em Fevereiro de 1970 houve a deserção de um pelotão completa em Évora. Desorganizou a partida do batalhão que foi adiada um mês. ( 7). -Realizaram-se inscrições antifascistas no quartel de Vendas Novas com caracter político muito forte. Houve intimidações feitas pelos oficiais fascistas (8 ). –Nas aulas de “psicologia e guerra subversiva” em vários quarteis, em debates sobre as guerras coloniais foi feita a defesa da independência das colónias pelos instruendo provocando dúvidas nos instrutores ( 9). -Em Outubro de 1970, na Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, houve uma insurreição de 100 sargentos milicianos contra o esforço exigido na instrução. Recusaram-se a obedecer às ordens dos oficiais para formarem às 2h da manhã. Chamaram nazis e fascistas aos oficiais. Barricaram-se na caserna. Os oficiais fizeram três tentativas para entrar na caserna, mas não conseguiram ( 10) –Na Escola Prática de Engenharia em Tancos, numa aula para os cursos de C.O.M. e C.S.M. chamada “Ultramar”, os instruendos respondem aos instrutores com objecções à guerra colonial e à exploração colonialista. O oficial disse que não estava preparado para discutir ( 11) - Em 4 de Junho de 1971, em Mafra, morreram por afogamento 4 cadetes do 1º ciclo do C.O.M. no decurso de duríssimos exercícios. Ao almoço, 800 cadetes fizeram um levantamento de rancho. À intervenção do 1º comandante, gritaram: “Assassinos! Assassinos!” e aos gritos de “Fascistas! Fascistas” abandonaram o refeitório. Reúnem-se numa sala ocupada pela força, condenam a violência dos exercícios, a falta de condições de segurança, o militarismo fascista, a guerra colonial. Os oficiais que tentam interromper a reunião são recebidos com vaias e gritos. Os oficiais recuam ( 12). No Alfeite, em Novembro de 1971, 2000 marinheiros fazem um levantamento de rancho com gritos de “Ladrões”, “Fascistas” (13 ) -Em 10 de Dezembro de 1971, em Mafra, apareceram 100 tarjetas coladas “Milicianos não querem a guerra”, “Abaixo a guerra colonial”. A 13 de Dezembro houve ameaças dos comandantes de companhia às respectivas companhias. Nessa noite surgiram mais tarjetas coladas em sítios bem visíveis, apelando para não se fazer o juramento de bandeira. A 14 de Dezembro, o quartel entrou de prevenção. No dia do juramento de bandeira do C.O.M. havia numerosos pides presentes (14 ) O Ministro da Defesa fala do “bom acolhimento que a propaganda inimiga e as acções subversivas têm encontrada na Metrópole e no Ultramar” (15 ). Cascais (CIAC) Em Janeiro e Fevereiro 1972- Todos os soldados reagiram com firmeza à agressão de um soldado pelo 2º comandante, que deixou o soldado muito ferido. Houve uma reunião geral dos soldados. No dia seguinte deu-se a formatura de todos os soldados junto ao gabinete do comandante. Durante a concentração houve greve nos serviços da guarnição(cozinha, casernas, deposito de armamento, secretaria).O capitão da formação prometeu falar ao comandante. Desfizeram a concentração mas mantiveram a greve aos serviços até o capitão cumprir a promessa. A acção saldou-se por uma vitória completa e acabaram os maus tratos (16 ) Leiria-R.I. 7- Na recruta do 4º turno de 1972- Os soldados de uma companhia deixados à chuva e ao frio, gritaram: “Abaixo o fascismo”, “Temos fome”, “Abaixo o militarismo”; “Abaixo a guerra”. Na semana de campo fizeram uma reunião à volta de fogueiras cantando “Canta camarada, canta” e gritando contra a guerra e o fascismo. (17) Campolide - No Hospital militar(ortopedia), em Abril de 1973, tendo o comandante feito um corte massivo de dispensas, foram feitas “procissões de doentes” que ameaçaram rebentar os portões se os impedissem de sair. Apareceu em toda a parte um documento assinado “Doentes anticolonialistas” fazendo a denuncia da guerra colonial e protestando contra as condições hospitalares (18 ). Em inúmeros quarteis de várias regiões militares foram distribuídos milhares de documentos, nomeadamente o “Avante” e o boletim unitário “IRFA”(19 ) Na mesma altura apareceram Inscrições em quarteis contra o colonialismo e o militarismo, provocando o furor dos oficiais fascistas e o entusiasmo entre os soldados e marinheiros.(idem) Realizam-se reuniões em que se condena a guerra colonial (idem) Este incremento da agitação nos quarteis estava integrado na grande campanha de agitação que se seguiu às eleições legislativas.

Conclusão

Neste trabalho quisemos evidenciar a importância que teve a luta dentro das forças armadas durante todo o período da guerra colonial para a eclosão do 25 de Abril. Note-se que este relato(muito resumido) refere-se apenas a um período de apenas cinco anos dos anos 70. Mas durante a década de 60 houve também numerosas lutas contra a guerra e o fascismo dentro dos quarteis. Quisemos concentrar-nos apenas nas lutas dentro das forças armadas mas é evidente que neste período houve inúmeras acções contra a guerra entre a população civil. Parece ficar bem demonstrado que muitos anos antes da tomada de consciência de muitos oficiais do quadro da injustiça da guerra e da necessidade de lhe pôr fim e ao regime fascista que a sustentava já havia uma poderosa corrente de opinião que compreendia a injustiça da guerra e se opunha ela. Em várias situações retratadas neste trabalho se verifica a influência que teve a acção das forças progressistas dentro das forças armadas para esclarecer os militares do quadro. Isto demonstra quão acertada foi a opinião daqueles que diziam que a forma mais eficaz e corajosa de lutar contra a guerra era levar essa luta para dentro do aparelho militar. Queremos assim prestar justa homenagem não só aos heroicos capitães de Abril como a todos quantos ao longo dos anos do Fascismo se opuseram com coragem e determinação a essa guerra injusta contra os povos das colónias portuguesas.

Notas:
1 Avante! 300 e 301
2 Eduardo Raposo - Canto de Intervenção 1960-1974_Biblioteca Museu da República e Resistência-2000-pag. 126-1278
3 Marcelo Caetano – “Depoimento“. Distribuidora Record-Rio de Janeiro. São Paulo,1974- pág. 176
4 Eduardo Raposo- idem-pág. 119
5 Álvaro Cunhal- A Revolução Portuguesa, o passado e o futuro. Edições Avante,1976, pag.52
6 Avante! 412-Fev. 1970
7 Avante! 416-Maio 1970
8 Avante! 416-Maio 1970
9 Avante! 416-Maio 1970
10 Avante! 422-Nov. 1970
11 Avante 422-Nov.1970
12 Avante! 431-Julho 1971
13 Avante! 437-Janeiro 1972
14 Avante! 437-Janeiro 1972
15 Avante! 437-Janeiro 1972
16 Avante! 443-Julho 1972
17 Avante! 451-Março 1973
18 Avante! 454-Junho 1973
19 Avante! 459-Novembro de 1973)

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