A resistência hondurenha declara e intensifica a luta pelo socialismo

Teresa Gutierrez    07.Sep.12    Outros autores

Teresa Gutierrez Em Honduras, há três anos, o popular presidente Manuel Zelaya, democraticamente eleito, foi ilegalmente deposto num golpe de estado apoiado e instigado pelos EUA. O golpe de estado marcou o começo de um reinado de terror. Mas também fez surgir um amplo movimento de resistência, cuja base social se alarga, e que começa a formular objectivos políticos avançados.

Algo de maravilhoso e histórico está a acontecer no pequeno país das Honduras na América Central. Apesar do terror imposto pelas classes governantes dos Estados Unidos e das Honduras, apesar dos espancamentos e dos assassinatos, apesar da pobreza de séculos e da miséria, as massas e as suas organizações estão a organizar-se, mobilizando e respondendo aos ataques.

De facto, os acontecimentos nas Honduras trazem hoje brilhantemente à vida o velho dito “A repressão gera resistência”.
Há três anos, em Junho de 2009, o popular presidente Manuel Zelaya democraticamente eleito foi ilegalmente deposto num golpe de estado apoiado pelos EUA. O golpe de estado marcou o começo de um reinado de terror. Mas, também deu luz à resistência.

O golpe foi sintomático da desesperada vontade do imperialismo norte-americano e seus compinchas corruptos de fazerem retroceder a maré revolucionária que varre a América Latina e as Caraíbas.

Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador e outros países são parte de um movimento de esquerda que está a romper com o imperialismo norte-americano e tratando de construir sociedades que ponham as necessidades do povo à frente dos lucros da Wall Street.

As Honduras não foram uma excepção. Zelaya tentou levar a cabo mudanças que permitiam aliviar a miséria das massas hondurenhas, como aumentar o salário mínimo e tomar controlo dos recursos naturais das Honduras.

Devido à sua ação, foi levado a cabo um golpe de direita com pleno conhecimento e cumplicidade de Washington. De facto, o plano para o golpe de estado foi urdido na base aérea americana de Palmerola que Zelaya tinha tentado converter num aeroporto civil internacional.
Foi imposto um governo bem pró-capitalista, contra os pobres, anti-laboral e a favor da elite quando, apesar da resistência popular, o presidente fraudulento Pepe Lobo assumiu ilegitimamente o governo.

Contudo, como disse Karl Marx, a classe capitalista cria os seus próprios coveiros. É o que está a acontecer hoje nas Honduras.

Nova etapa na luta de resistência

O golpe de Estado abriu um novo capítulo na luta revolucionária nas Honduras. As massas despertaram e estão a tomar o assunto em suas próprias mãos. Activistas e militantes de há muito tempo uniram-se aos jovens, trabalhadores, estudantes, mulheres, camponeses, comunidade lésbica/gay/bissexual/transgénero, organizações garifunas (grupo étnico da costa do Belize e Honduras – N.T.) e indígenas e formaram organizações populares e frentes unidas.

Isto inclui a Frente Nacional de Resistência Popular (FNRP), formação com 3 anos que se está fortalecendo todos os dias.
A 1 de Julho, a resistência anunciou ao mundo uma nova fase da luta. Este anúncio extraordinário resume-se com o lema da FNRP: “Vamos da Resistência para o Socialismo!”.

Este anúncio de um apelo à construção do socialismo nas Honduras é um sinal tanto para os aliados das Honduras, como para os seus inimigos de que o movimento está preparado para assumir a luta tanto quanto for possível.

O histórico anúncio tem importância para a luta de classes em todo o mundo. Deve ser ouvido em cada bairro, centro comunitário, sindicato ou praça do mundo. Cada jovem e trabalhador que fez ocupação no Wisconsin, no parque Zuccotti, na praça Tahrir ou no Zócalo deve conhecer o que está a acontecer nas Honduras.

Campanha eleitoral revolucionária

A FNRP decidiu há uns meses, através de assembleias, reuniões e debates fecundos, que a resistência participaria nas eleições presidenciais de 2013. O movimento formou um novo partido, o Partido Liberdade e Refundação (Partido Libre), que organizaria os passos necessários para entrar na disputa eleitoral.

Os revolucionários e marxistas de todo o mundo sabem que as eleições não provocam mudanças fundamentais. São as massas os agentes reais da mudança, não as eleições. Pôr fim às relações capitalistas e expropriar os meios de produção dos patrões dos trabalhadores, é isso que é necessário para o fim da exploração. Cuba, por exemplo, teve a sua revolução completa – os cubanos expulsaram a Wall Street e Washington do seu país para sempre e começaram a organizar a sociedade em benefício de todos os trabalhadores.

Os revolucionários sabem também que há muitos passos e processos complicados no caminho para a libertação.

As eleições de 2013 nas Honduras podem ser o marco que estabelece um ponto de inflexão nesse caminho para a libertação.

No dia 1 de Julho, na província de Galeras em Santa Bárbara, o Partido Libre lançou formalmente as candidaturas de Xiomara Castro de Zelaya, nomeada para presidente, e Juan Barahona, presidente da Confederação Sindical (FUTH), nomeado para vice-presidente. As massas viajaram pelos seus próprios meios mais de 130 km em terrenos difíceis desde a principal cidade Tegucigalpa e de todo o país para se reunirem em Santa Bárbara, onde Castro nasceu e se criou.

Ambos os candidatos são bem conhecidos, não só nas Honduras, como também fora do país. Castro, chamada carinhosamente pelo seu primeiro nome Xiomara, foi a “primeira-dama” no mandato de Zelaya, ao passo que Barahona é um dirigente sindicalista de há muitos anos. Ambos são membros e dirigentes da resistência.

Os trabalhadores que vêm de fora de Tegucigalpa sabem que devem dirigir-se ao salão do sindicato STIBYS para obterem não apenas informação sobre onde se realizará a ação seguinte, mas também alimentos, abrigo e água. Grande parte do movimento junta-se no salão do sindicato.

A esperança na mudança atrai as massas

O povo das Honduras é um dos mais pobres do mundo. É o segundo país mais pobre do hemisfério a seguir ao Haiti. Segundo o Banco Mundial, 65 por cento da população vive abaixo do nível de pobreza. Mais de 30 por cento da população, num país de 8 milhões, vive em extrema pobreza.

Desta maneira, não é pouca coisa para um trabalhador viajar de uma cidade para outra por sua vontade própria para participar num evento de campanha por uma eleição a mais de um ano de distância. No entanto, vieram milhares e milhares de pessoas! O que as impeliu?
Tive o privilégio de viajar para as Honduras não muito depois do golpe de estado e tive também o privilégio de ver o vídeo do lançamento da campanha de 1 de julho com alguns dos dirigentes da resistência nos Estados Unidos.

É evidente pelas entrevistas com hondurenhos obtidas pelo Workers World Party (Partido do Mundo Operário) e pelas palavras dos candidatos de 1 de Julho que o que levou as massas a Santa Bárbara foi a esperança. Esperança que a vida nas Honduras não vá continuar a mesma. Esperança que a sociedade esteja mudando para algo melhor, que as centenas de camponeses, jornalistas, sindicalistas e pessoas LGBT que foram assassinadas desde 2009 não tenham morrido em vão.

O que motivou as massas foi a perspectiva de que muitos sectores da sociedade finalmente se estão a unir sob uma unidade revolucionária sem precedentes para mudar nos seus fundamentos a sociedade hondurenha.

Esta unidade surge no contexto dos últimos três anos quando o movimento não se deteve apesar da repressão e da brutalidade. O ponto principal da unidade entre todos os sectores sociais promulgado pela FNRP e pelo Partido Libre parece ser a não-aceitação do golpe. Não se trata de pouca coisa frente à repressão e aos soldados americanos e aos agentes da Agência Antidrogas dos EUA que estão sempre presentes.
Sejam estudantes ou camponeses, mulheres ou desempregados, homossexuais ou heterossexuais, intelectuais ou operários, o povo das Honduras está a construir heroicamente uma ampla frente unida não apenas contra o golpe, mas também para dar um passo em frente revolucionário e radical.

Ao ler as palavras da candidata à presidência no dia da sua nomeação, torna-se claro que um novo dia desponta nas Honduras.

“Construamos uma sociedade socialista”

Xiomara Castro de Zelaya disse sob o sol brilhante da manhã na plataforma rodeada por camponeses e camponesas e membros de sindicatos, com seu filho, filha e esposo (o ex-presidente Zelaya) “Vem, gente das Honduras, construamos uma sociedade socialista e democrática. Vamos derrotar o estado burguês e construir um estado socialista.”

Xiomara evocou a luta global enquanto rendeu homenagem à resistência no Médio Oriente, ao movimento Ocupar Wall Street e aos “indignados” em Espanha.

A intervenção, um apelo às armas, pareceu-se mais com um discurso nalguma assembleia da Cuba socialista do que a intervenção de uma candidata a presidente. Foi um exemplo de como a luta das massas hondurenhas e a unidade do movimento impulsionou uma consciência revolucionária.

Um grupo de dirigentes nas Honduras decidiu condenar-se ao suicídio classista, romper com a elite e unir-se às massas na sua luta pela libertação. Para ajudar a garantir que os dirigentes se mantenham com as massas torna-se mais importante que nunca fazer o trabalho necessário para erguer a luta, tarefa muito difícil e arriscada, mas que a resistência está claramente empreendendo e ganhando.
O apelo das Honduras despertará a ira da classe governante dos EUA para sempre. Para Xiomara, Barahona, Mel Zelaya, e a Frente e o Partido Libre, declarar que a luta das massas hondurenhas seja pelo socialismo é equivalente a declarar guerra contra Washington, uma guerra que os hondurenhos devem ganhar.

A gente progressista e revolucionária quer ser parte deste momento histórico e não ficar de fora. As massas foram despertadas pelo golpe, mas foram-no igualmente outros setores da sociedade.

Por esta razão, agora é a hora para entrar nas fileiras do movimento revolucionário nas Honduras. Construir a luta pela solidariedade e unidade com as Honduras, especialmente aqui no ventre da besta imperialista americana, ajudará a garantir que o movimento possa dar passos em frente para transformar as Honduras num país que defende os interesses dos trabalhadores e não as elites capitalistas.
Viva a FNRP e o Partido Libre! Viva a resistência e viva o povo em luta nas Honduras!

22 de Agosto de 2012

Para ler a versão completa das intervenções de Xiomara Castro e Juan Barahona, visite resistenciahonduras.net.

Tradução: Jorge Vasconcelos

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos