A resposta de D. Januário

Correia da Fonseca*    12.Ene.08    Colaboradores

«… será forçoso reconhecer que os comportamentos cristãos não são propriamente dominantes neste Portugal onde, por exemplo, o governo encerra lugares onde se cuida de doentes em situação de extrema angústia, pois trata-se de serviços de urgência»

1. O tema proposto para uma rápida avaliação, pois tratava-se de uma sumária «revista da imprensa», era o dos diversos encerramentos de serviços de saúde por esse País fora. A resposta do entrevistado dificilmente podia ser mais breve e mais clara: «– As reformas não podem atropelar os mais pobres!», disse ele. E ele, o entrevistado, não era nenhum dirigente de um partido da Esquer¬da autêntica, nem nenhum membro de alguma comissão de utentes de serviços de Saúde, nem sequer nenhum dirigente sindical: era D. Januário Torgal Ferreira, bispo da Igreja Católica. Poucos mi¬nutos depois, a jornalista de serviço observou que a «frontalidade» de D. Januário é conhecida, sugerindo que isso corresponderia tal¬vez a um certo estatuto de excepcionalidade dada a sua condição hierárquica e sem dúvida no contexto da escassa frontalidade em uso em muitas áreas sociais. Será talvez porque muitos esquecem as palavras do Evangelho de S. Mateus: «Seja a tua palavra sim, sim, não, não; tudo o que vier a mais é malícia». Cito de cor e em «segunda mão» de acordo com a tradução de Arthur Koesler na anteprimeira página da um dos seus livros.

2. Sejamos francos, mesmo correndo o risco de melindrar algumas almas muito piedosas: há sacerdotes, bispos ou não, cujas palavras têm a infeliz capacidade de ressuscitar em nós remotos ecos de um jacobinismo dito «mata-frades» e obviamente malsão. Mas ouvir um bispo ou um simples sacerdote «de base», se é que esta expressão cabe na circunstância, proferir palavras de empenhada solidarie¬dade com as vítimas de uma sociedade brutalmente desigual, é coisa que profundamente me encanta. A questão é que neste nosso País de esmagadora maioria católica segundo as estatísticas e a opinião generalizada é, naturalmente, muito fácil encontrar cidadãos ca¬tólicos que católicos se definem por afirmação própria e pelo re¬conhecimento social, mas é bastante mais difícil encontrar cristãos pelas palavras e pela prática. Na verdade, como bem se sabe, o Cristianismo recomenda a fraternidade, a partilha, a rejeição do farisaísmo, a frontalidade reclamada pelas palavras de Mateus.

E, perante isso, será forçoso reconhecer que os comportamentos cristãos não são propriamente dominantes neste Portugal onde, por exemplo, o governo encerra lugares onde se cuida de doentes em situação de extrema angústia, pois trata-se de serviços de urgência.

3. Intrigas seculares e de vária ordem têm conseguido inculcar a convicção de que um fosso profundo, intransponível, separa os que professam o Cristianismo (na sua forma localmente implantada, que é a da Igreja Católica) dos que optam por uma cidadania que leva o sentido da fraternidade e o dever da solidariedade tão a sério que decidem combater os que negam na prática uma e outra, embora eventualmente abarrotem com eles o seu arsenal de retórica. Esses, mesmo que muitas vezes estejam distantes dos rituais que outros praticam e frequentam assiduamente, são, contudo, os que «têm fome e sede de Justiça» de que nos fala o Sermão da Montanha, e escusado será lembrar aqui qual o destino final para eles previsto no mesmo Sermão. Pois bem: o caso é que muito mal estarão as coisas para os fariseus da nossa terra quando, um dia, a profunda convergên¬cia entre os cristãos integrados na sua Igreja e os que, fora de¬la, cumprem de facto preceitos fundamentais do Cristianismo ao serem na verdade fraternos e ao proporem diversas formas de partilha, for generalizadamente descoberta e reconhecida. Décadas atrás, perante uma situação muito concreta que era a França ocupada pelos nazis, o poeta Louis Aragon recorreu a uma metáfora inspirada em velhos cancioneiros (a censura e a repressão espreitavam) para fixar esse encontro que aliás ocorria então na acção prática: «Celui qui croyait au ciel/celui n’y croyait pas/touts les deux aimaiente la belle/prisionnière des soldats (…)». «La belle» era então a França. Num outro lugar e num outro tempo, bem pode ser o tempo de uma sociedade justa e fraterna.

4. A resposta peremptória de D. Januário veio defini-lo claramen¬te não apenas como um bispo, mas também e sobretudo como um bis¬po cristão. Quanto a D. Januário, não foi uma surpresa para quem minimamente já o conhecia de outras intervenções públicas, fala¬das ou escritas, mas a desgraça (ou, se se preferir palavra mais branda, a tristeza) é que ainda surpreenda que um bispo português revele a sua solidariedade com as vítimas de uma maneira que a jornalista caracterizou como «frontal». É certo que não é fácil encontrarmos por aí muitos Januários de qualquer grau eclesiástico, mas também não será absurdo pensarmos que a atenção dos media não favorece os que haja. Contudo, são eles que conduzem para o futuro o melhor do que foi preferido há mais de dois mil anos. E reafirmado, embora de outro modo, há menos de dois séculos.

* Correia da Fonseca é amigo e colaborador de odiario.info

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