A Rússia estreia os seus misseis de cruzeiro na Síria

Pepe Escobar    21.Oct.15    Outros autores

A intervenção russa na Síria suscitou desorientação e objecções no Pentágono e na NATO. Por um lado, foram utilizados mísseis de longo alcance e de grande precisão cujas capacidades desconheciam. Por outro lado, foram em alguns dias atingidos mais alvos do Estado Islâmico do que a “coligação ocidental” atingira em mais de um ano.

O Novo Grande Jogo na Eurásia avançou a passos agigantados na semana passada depois de a Rússia ter lançado a partir do Mar Cáspio 26 misseis cruzeiro contra 11 objectivos do Estado Islâmico na Síria, destruindo-os a todos. Esses ataques navais foram a primeira utilização operacional de ultramodernos misseis de cruzeiro SSN-30A Kalibr.

O Pentágono apenas teve que rever o itinerário de voo desses misseis Kalibr – capazes de atacar objectivos a 1.500 quilómetros de distância. Trata-se de uma precisa, clara, sucinta mensagem de Moscovo ao Pentágono e à NATO. ¿Queres meter-te comigo, rapazola? ¿Talvez com os teus imensos, volumosos porta-aviões?

Além disso, passando por cima da criação do que é de facto uma zona de não-sobrevoo sobre a Síria e o sul da Turquia, o cruzeiro Moskva da Armada Russa, com 64 misseis navio-ar S-300, está agora atracado em Latakia.

Às proverbiais fontes anónimas estado-unidenses não restou outra alternativa senão entrar em parafuso, inventando que quatro misseis russos descontrolados caíram no Irão. O Alto Comando Russo ridicularizou-os; todos os misseis caíram a uns 2 metros dos seus objectivos.

O Pentágono nem sequer sabia que os Kalibr podiam ser lançados a partir de navios pequenos – os Tomahawk estado-unidenses necessitam de navios muito maiores.

O melhor que ocorreu ao Pentágono, para além de sofrer uma apoplexia generalizada, foi o que o comandante do NORAD, o almirante William Gortney disse ao Conselho do Atlântico: que a aviação e os misseis de cruzeiro de longo alcance russos representam uma nova “ameaça” para a defesa estratégica dos EUA.

A ameaça dos misseis de cruzeiro russos é um “desafio particular para o NORAD e o Comando Norte”. Oh, não me diga.

Trata-se de um eufemismo característico do Novo Grande Jogo. Pode argumentar-se que o desenvolvimento militar da Rússia nos últimos anos colocou Moscovo gerações à frente dos EUA. Em caso de uma Guerra Mundial Quente 3.0 – e ninguém salvo o costumeiro Dr. Strangelove possivelmente a desejaria – misseis e submarinos seriam as armas cruciais, não os monstruosos porta-aviões ao estilo estado-unidense.

O Pentágono está apopléctico porque a demostração de tecnologia russa revelou o fim do monopólio estado-unidense sobre misseis de cruzeiro de longo alcance. Os analistas do Pentágono trabalhavam ainda segundo a premissa de que o seu alcance era de uns 300 quilómetros.

Para além disso, a NATO foi advertida: a Rússia pode esmagá-los num instante – como me foi dito na semana passada numa conversa na Alemanha. A fogosa retórica do “¡estais violando o meu espaço aéreo!” tão pouco o modificará.

Uma vez mais, assumindo o cenário de Dr. Strangelove, a única reacção possível dos EUA no caso de a coisa ficar feia seria lançar ICBM nucleares; mas então o espaço aéreo da Rússia será selado por misseis antimísseis S-500, transportando dez misseis interceptores cada um, que não deixam passar qualquer ICBM estado-unidense.

Estúpido e moderadamente estúpido

Entretanto, depois do choque inicial, o Pentágono regressou à… inanidade, complementando o humor alegre dos títulos estúpidos e mais estúpidos de certa imprensa.

O chefe supremo do Pentágono, Ash Carter, jurou que Washington não cooperará com Moscovo na Síria porque a estratégia do Kremlin é “tragicamente defeituosa”. Devemos interpretar “defeituosa” como significando que a Rússia mata em poucos dias mais fanáticos salafistas-jihadistas de todo o tipo do que a Coligação de Duvidosos Oportunistas (CDO) em mais de um ano. ¿Há quem recorde que a CDO é oficialmente chamada Operação Resolução Inerente?

E depois existe um problema adicional com a assim chamada “estratégia” do “não quero brincar no mesmo jardim que tu” do Pentágono; o Ministério da Defesa Russo explicou que foi em primeiro lugar o Pentágono quem na realidade solicitou que fossem coordenadas as acções na Síria.

Para juntar irrelevância à inanidade, o Pentágono anunciou que metia na gaveta o seu último espectacular fracasso: o programa de 500 milhões de dólares para “treinar e equipar” rebeldes sírios “moderados”, que produziu uns impressionantes “quatro ou cinco” durões dispostos a combater contra o Estado Islâmico.

Portanto não haverá mais “treinamento”; será mais a formação de “facilitadores” – código para serviços de informação local – com a missão de identificar falsos objectivos do “Califado” para ataques da CDO. Serão “aconselhados” “à distância” pelo Pentágono sobre como interactuar .

É demasiado bom para ser inventado.

O “equipamento”, por seu lado, será consideravelmente reduzido; o que resta será um montão de espingardas de assalto que serão entregues a uns 5.000 rebeldes “moderados”, e que serão, como é evidente, capturadas de imediato pelo Jabhat al-Nusra, conhecido como al-Qaida na Síria, ou terroristas do “Califado”.

Ash Carter estava muito contente com a sua nova estratégia magistralmente concebida, que deve ajudar a “aumentar o poder de combate” desses elusivos rebeldes “moderados”. Jura que Washington “se mantém comprometido” com o treino desses rebeldes “moderados”, agora no formato “de diferentes formas para alcançar basicamente o mesmo tipo de objectivo estratégico”.

Coube ao surpreendentemente medíocre Ben Rhodes, conselheiro adjunto de segurança nacional dos EUA para a comunicação estratégica, expandir sobre o novo foco da “estratégia” magistralmente concebida: “desenvolver relações com dirigentes e unidades [entre grupos armados sírios], e poder entregar-lhes reabastecimentos e equipamento”. ¿Por que não desenvolver essas “relações” através de uma página no Facebook? É barato e muito más eficaz.

“Desconflitua-me”, querido

Embora o “desconflituamento” entre Washington continue a ser tão “conflitivo “como sempre, há pelo menos um tema no qual podem convergir; trabalhar com os curdos no nordeste da Síria, como admitem membros do PYD (Partido União Democrática). O co-presidente do PYD, Salih Muslim, insiste em que “lutaremos junto de quem quer que lute contra o Daesh (EI)”.

Contudo, a análise do PYD continua sendo anátema para o Pentágono e a Casa Branca. E o PYD sabe um par de coisas sobre a luta no terreno contra rebeldes jihadistas/”moderados”. O PYD considera que o EI, Jabhat al-Nusra ou Ahrar a-Sham “não são diferentes” uns dos outros. Tradução: os rebeldes “moderados” não existem. O PYD também aceita que Bashar al-Assad permaneça no poder por algum tempo, mas apenas durante um período “de transição”.

O PYD compreendeu perfeitamente o significado da ofensiva da Rússia na Síria. Opõem-se intensamente a uma zona de não-sobrevoo controlada pela Turquia e agora estão seguros de que nunca haverá uma. Também sabem perfeitamente que uma brigada “Sultão” de turcomanos, treinados por Ancara – rebeldes “moderados” ao estilo turco – desertou massivamente para o EI/Daesh.

Entretanto, em Sochi, o Presidente russo Vladimir Putin encontrou-se – de novo– com o Ministro da Defesa da Arabia Saudita Príncipe Mohammed bin Salman, o príncipe guerreiro que está matando civis no Iémen. O Ministro de Assuntos Exteriores Sergey Lavrov e o Ministro da Energia Alexander Novak estavam também presentes.

Em termos diplomáticos, tudo isso teve a ver com o acordo entre Moscovo e Riad de que não pode permitir-se que o EI/Daesh se apodere da Síria. Os detalhes continuam a ser uma incógnita. Falou-se muito de uma “solução política”. Putin deixou de novo bem claro: a actual ofensiva tem o propósito de “estabilizar as autoridades legítimas e criar condições para encontrar um compromisso político”. A Casa de Saud entendeu perfeitamente; é o caminho russo ou a auto-estrada.

Embora continuem a namorar com a auto-estrada – como quando os proverbiais “funcionários sauditas” anónimos confirmaram que os que trabalham para o Príncipe Salman, amistoso em relação a Putin, entregaram 500 misseis antitanque TOW aos rebeldes “moderados” do antigo Exército Livre Sírio (ELS). Pode apostar-se que esses TOW serão rapidamente capturados por todo o género de salafistas/jihadistas.

Toda esta acção frenética tinha lugar em paralelo com o recentemente operacional centro de coordenação de informação Rússia-Irão-Iraque-Síria-Hezbollah em Bagdad, o que mostra que levam a sério o que estão a fazer. Assim se trabalha em informação no terreno. Um ataque pode não ter atingido o “Califa” Ibrahim mas enviou para o paraíso alguns outros notáveis do “Califado”. O balanço final: o Pentágono não foi convidado e soube do ataque iraquiano ao ver a CNN. No fim de contas, os antecedentes mostram que no Iraque o Pentágono não se distingue pela sua inteligencia no terreno.

Fontes shiítas en Bagdad confirmaram-me uma vez mais que na cidade se fala de que o Pentágono e o governo de Obama não só não estão interessados em combater realmente contra o EI/Daesh como, na melhor das hipóteses, arrastam os pés numa espécie de modo de “apoio renitente”. E isto, porque a “estratégia” do governo de Obama – perguntem ao lamentável Ben Rhodes – continuam presa ao “Assad deve partir”, sejam quais forem as variações semânticas sobre o tema.

¿E quanto à Turquia? A resposta curta é esta. O Sultão Erdogan simplesmente não pode entender-se com os curdos – nem na Síria nem na Turquia. Não pode entender-se com a Síria. E tão pouco pode entender-se com Moscovo. Corre uma piada comum na Síria, Iraque e Irão de que não é necessário atacar a Turquia; basta deixar que se desmorone por si só. O Sultão Erdogan está a garantir que assim seja.

E a miríade de impasses do Sultão explica porquê o Primeiro-ministro turco Ahmet Davutoglu –o da antiga doutrina do “zero problemas com os nossos vizinhos”– agora diz que Ancara está disposta a falar com Moscovo e Teerão sobre a Síria, desde que isto não signifique “legitimar” Assad. Davutoglu também desenvolve a lógica retorcida de que os ataques aéreos russos aumentam o fluxo de refugiados sírios para a Turquia. Portanto há que esperar que Ancara lance em direcção à Fortaleza Europa outra vaga de refugiados mantidos em “campos de retenção”. E depois culpará Putin. E os misseis de Putin.

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Pepe Escobar é correspondente itinerante de Asia Times/Hong Kong, e analista para RT e TomDispatch.

Fonte: http://atimes.com/2015/10/say-hello-to-my-cruise-missiles-escobar/

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