A salvífica reabilitação do diabo*

António Santos    09.Feb.21    Outros autores

Cada componente do partido bicéfalo que ocupa o poder nos EUA não podia ser mais parecido com o outro. Os dois caricatos processos de «impeachment» apresentados pelo PD contra Trump não passaram e nem passam da encenação de uma divergência. Se no primeiro o verdadeiro alvo era «a Rússia», no que está em curso haveria a grave acusação de «incitação à insurreição». Mas tudo acabará varrido para debaixo do tapete comum. O problema dos EUA é que não serão tais entendimentos que irão suster a acelerada corrosão do seu sistema político.

Quem tivesse escutado o dirigente do Partido Democrata (PD) Chuck Schumer comparar a «diabólica alta traição», a «incitação à insurreição» e a «sedição» de Trump, crimes puníveis com a morte, ao bombardeio de Pearl Harbor de 1941 não poderia crer na ligeireza como, apenas três semanas depois, os democratas considerariam o julgamento do mefistofélico organizador do falhado putsch «uma perda de tempo» ao ponto do autor destas palavras, o dirigente do PD Tim Kaine assumir que os democratas não planeiam sequer arrolar testemunhas: «Fazer um julgamento sabendo que só tens 55 votos, no máximo, não me parece ser a melhor a gestão do nosso tempo», justificou. A verdade é que a reabilitação de Trump constitui uma condição indispensável para manter o já precário equilíbrio da classe dominante: quem embarcou com o Diabo tem de navegar com ele.

Esta semana, Trump recebeu no seu resort de Mar-a-Lago o líder do Partido Republicano (PR) na Câmara dos Representantes, Kevin McCarthy, para prepararem as eleições de 2022 entre loas aos «históricos resultados do presidente Trump para todos os americanos». Mas o beija-mão da estrutura republicana a Trump foi para a fotografia. Já no dia 26 de Janeiro, 45 senadores do PR haviam votado favoravelmente uma declaração de inconstitucionalidade do processo impeachment alavancado pelo PD, tornando virtualmente impossível que o ex-presidente venha a ser removido postumamente e, por essa via, impedido de se recandidatar. Como disse então o republicano Rand Paul, «este voto indica que acabou. O julgamento acabou».

Trump podia facilmente ter sido preso por conspirar o golpe de dia 6 de Janeiro, mas os democratas optaram por um processo político que o magnata facilmente pôde apresentar como uma manobra anti-democrática para roubar ao povo estado-unidense a possibilidade de escolher o próximo presidente livremente. Tal como aquando do patético impeachment de 2020, Trump pôde virar este processo ao contrário, vitimizando-se e galvanizando as suas bases desmoralizadas desde a ópera bufa do capitólio. Não se trata de incompetência: o PD procura uma ampla aliança de classe que arrefeça a fervura entre as elites do grande capital e facilite o tão afamado «regresso à normalidade» que reponha a legitimidade e o prestígio da classe dominante estado-unidense após o caótico mandato de Trump.

Por outro lado, o PR cedo descobriu que não se podia dar ao luxo de abandonar Trump. O ex-presidente ameaçou criar o Partido Patriota que viria despedaçar irreparavelmente o PR pela direita. Uma sondagem recente da Morning Consult revelou que 35 por cento dos republicanos passariam de malas e bagagens para a organização trumpista e apenas 31 por cento declararam não ter dúvidas que se manteriam fiéis ao PR. A mesma sondagem revelou que 72 por cento dos republicanos concorda com a tese de que as eleições foram fraudulentas.

A reabilitação de Trump é, contudo, o único consenso que se adivinha entre democratas e republicanos: o PR liderado por um Trump reencarnado terá mais interesse em aprofundar o clima de guerra civil, boicotando e sabotando a governação democrata. Não se navega com o diabo esperando a bonança.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2462, 4.02.2021

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