A situação do jornalismo e as necessidades do negócio*

Fernando Correia    11.Ene.18    Outros autores

«Não se trata de esquecer que a produção da informação tem de ser economicamente viável, como qualquer outra actividade produtiva, mas sim de verificar até que ponto se aprofunda a contradição – inerente ao capitalismo – entre o crescente poder social dos media e a sua apropriação privada para fins lucrativos, especulativos, de conquista de poder ou de influência no poder.»

As notícias sobre os responsáveis e as suas competências, as estratégias, a natureza, os objectivos e a terminologia dos grupos económicos que dominam o panorama mediático nacional são uma espécie de introdução, sintética mas esclarecedora, à compreensão do funcionamento da máquina mediática, aquilo que a alimenta, motiva e faz andar – e, pormenor importante, sobre o perfil de quem paga e manda. Alguns exemplos resultantes da análise a um curto período de tempo são significativos (destaques a negro nossos).

Necessidades – A Macau KNJ Investment Limited, liderada por Kevin King Lun Ho, estava para assinar em Março do ano passado o contrato de compra de 30% do Global Media Group (Diário de Notícias, Jornal de Notícias, Record, TSF, etc.) e cujo maior accionista era o angolano António Mosquito [ligado em Angola aos sectores do automóvel, construção civil e petróleos], mas isso só veio a acontecer em Agosto. Segundo o Jornal de Negócios (18.8.17), aquele administrador explicou: «Houve outra transacção na qual tivemos de trabalhar, por isso o processo abrandou um pouco. Nada de especial». Entretanto advertiu que «qualquer aumento ou redução dos empregos vai depender das necessidades do negócio e planos futuros». «Neste momento, não posso garantir nada, mas não vejo necessidade de qualquer redução». Ainda segundo o J. Neg., o grupo foi fundada em 2012, dedicando-se ao investimento imobiliário, médico e de saúde, bem como à restauração. Kevin Ho é sobrinho de Edmundo Ho, antigo chefe do governo de Macau.

Performance – «O futuro de duas centenas de colaboradores da Impresa ficou suspenso depois de o grupo ter anunciado que vai “reduzir a exposição ao segmento de revistas”. A Impresa, dona do Expresso e da S1C, decidiu vender as 13 revistas do grupo, incluindo a Visão.» Segundo o Diário de Notícias, «o objectivo do grupo é agora abandonar todo o investimento que se prende com revistas e papel, excepto o jornal Expresso, um cenário que não se colocava há cerca de um mês atrás. Terá sido, alegadamente, a pressão dos bancos credores da Impresa que forçou esta mudança de estratégia.»

«A Visão é o título mais apetecível por eventuais compradores. A revista foi alvo de elogios por parte do presidente executivo da Impresa, e filho do fundador do grupo, Francisco Pinto Balsemão. Na última apresentação de resultados, a Visão foi elogiada pela melhoria da sua performance financeira e de vendas.» (D.Not. 24.8).

Marketing e inovação – O novo CEO da Sport TV, apontado pelo J. Neg. (8.9) como «experiente nas áreas do marketing e inovação», foi «head of innovation na Compal, director de inovação de Central de Cervejas e director-geral das Pousadas de Portugal, integrando ultimamente a comissão executiva do Pestana Hotel Group», que participa na empresa de cervejas da Madeira e na Sociedade de Desenvolvimento da Madeira, gestora do Centro Internacional de Negócios da Madeira. Ao todo são nove as áreas de negócio: hotelaria, golfe, casinos, imobiliário turístico, aviação, distribuição turística, timesharing, indústria e serviços.

Reestruturação – Segundo o J. Neg. (9.9) a Cofina «vai juntar as redacções das suas diferentes publicações num mesmo espaço. O director-geral editorial da empresa, Octávio Ribeiro, afirma que o objectivo é “permitir maiores sinergias operacionais” e diminuir “custos na logística”. Assegura que os jornalistas “de cada título continuarão a trabalhar para a sua marca”. A partilhar o mesmo espaço comum vão estar as redacções do Correio da Manhã, Record, Jornal de Negócios, Destak, Sábado, Flash, Máxima e TV Guia e do canal de televisão CMTV. A Cofina iniciou um processo de reestruturação em Abril, que implicou a dispensa de 65 trabalhadores, com o objectivo de conseguir poupanças superiores a 2,1 milhões de euros por ano.»

Em tudo isto, o jornalismo e os jornalistas são coisa pouca. As chamadas necessidades do negócio, os perfis dos administradores, os critérios para avaliação das publicações ou para as famosas reestruturações, fazem ressaltar até que ponto vai o entusiasmo por uma informação mercantilizada e o distanciamento de um jornalismo preocupado com o apoio à educação, à cultura, ao desenvolvimento, à promoção da cidadania, ao aprofundamento da democracia, à aproximação entre os povos.

Não se trata aqui de esquecer que a produção da informação tem de ser economicamente viável, como qualquer outra actividade produtiva, mas sim de verificar até que ponto se aprofunda a contradição – inerente ao capitalismo – entre o crescente poder social dos media e a sua apropriação privada para fins lucrativos, especulativos, de conquista de poder ou de influência no poder.

A concentração da propriedade em poderosos grupos multimédia tem vindo a agravar esta situação. A eventual aquisição da Media Capital pela Altice, já detentora, nomeadamente, da PT e da MEO, seria desastrosa, alargando a presença da multinacional francesa – já estabelecida em vários países, desde os EUA a Israel – à TVI, rádios (R. Comercial e outras), televisão digital terrestre, Internet, produção e distribuição de conteúdos. A concretização do negócio viria a transformar em péssima uma situação que já é má.

Pressões e constrangimentos

Sobre a maioria dos jornalistas o céu está longe de ser azul e acumulam-se nuvens negras. Destaquemos alguns tópicos.
– Despedimentos, precariedade, diminuição dos salários reais, imposição da polivalência funcional, com diminuição da qualidade e introdução de um clima de insegurança; restrições e condicionamentos às acções das estruturas representativas dos trabalhadores, criando um clima de intimidação; subalternização do jornalismo e dos jornalistas em favor de outros sectores da empresa, nomeadamente a publicidade e o marketing.

– Imposição na produção da informação, da velocidade, do efémero e do superficial, com pouco ou nenhum tempo para confirmar, pensar e contextualizar; dependência de fontes organizadas cada vez mais poderosas, nomeadamente empresas de comunicação e de assessoria, cuja importância cresce à custa da fragilização dos jornalistas; subordinação a agendas e critérios que valorizam a comercialização da informação, recorrendo ao emocional e ao sensacional, à mistura do entretenimento e da publicidade com a notícia, à superficialidade das abordagens, tudo isto na perspectiva do aumento das audiências e do lucro económico, político e ideológico da classe dominante e dos que a servem.

– Limitações ao pluralismo político e ideológico, através de mecanismos internos de controlo como a escolha de responsáveis editorais, o funcionamento da agenda, a contratação de jornalistas ou, mais subtilmente, o estabelecimento nas salas de redacção de um consenso implícito sobre o que e como deve ser passado ao público; crescente participação de analistas, colunistas e comentadores, apresentados muitas vezes como especialistas independentes, mas na grande maioria enfeudados a determinados sectores políticos, sociais e ideológicos da direita, neoliberal ou nem tanto – enfim, à volta disso.

Esta realidade permite entender melhor não só o jornalismo que temos mas também os jornalistas que o fazem, como e porquê. (Ver «Tolhidos e mal pagos»). Como bem dizia José António Cerejo num debate sobre jornalismo de investigação, em Janeiro passado: «É como se houvesse uma espécie de máquina de adormecimento para os jornalistas serem mansos.» Felizmente são cada vez mais os que não se resignam.

Jornalistas: tolhidos e mal pagos

A 9 de janeiro de 2017 existiam 6114 jornalistas com carteira profissional ou equiparados. Idade – Média de 39,9 anos. 38% entre 35-44 anos, 25% entre 25-34, 21% entre 45-54, 9,1% com 55 anos ou mais. [São muito poucos os que tinham mais de 18 anos de idade em 25 de Abril de 1974]. Sexo –51,8% homens, 48,2% mulheres. Filhos – 47,8% não tem uma relação conjugal, mais de 50% não tem filhos. Tempo de profissão – Há menos de 5 anos são 17,9% ; há mais de 15 anos são 52,1%, dos quais 24,4% entre 21 e 30 anos.
Região – 64,2 % trabalham na área metropolitana de Lisboa, 16,6% no Norte, 8,4% no Centro, 11,2% nas outras regiões do continente, regiões autónomas e estrangeiro.

Formação – 79,6% possuem licenciatura ou bacharelato (uma escolaridade quase cinco vezes superior à média nacional), a grande maioria em Ciências da Comunicação, Comunicação Social ou Jornalismo.
Vencimento – 69% entre 501 e 1500 euros líquidos mensais, dos quais 23,3% entre 1001 e 1500 euros; 21,8% menos de 700 e 23,9% entre 701-1000 euros.
– 57,3% menos de 1000 euros, 19,4% mais de 1500 euros, 10,8% ganha até
2000 euros, 3,6% até 2500 euros e 5% um valor superior.
– 11,6% menos de 500 euros por mês, e 7% destes menos de 300 euros.
Ocupação e desemprego – 87,5% a trabalhar e 7,9% no desemprego. 2,2% reformados e 2% em estágio profissional ou curricular.
Contratação – 33,4% sem contrato fixo, a trabalhar em condições precárias. Este grupo integra colaboradores (16,4%), dos quais 8,8% em regime de avença e 7,6% à peça e 17% como freelance.
– 56,3% contrato sem termo e 10,5% a termo certo. 2% estagiários.
– 65% de contratos são até 40 horas semanais, mas a maioria trabalha mais. 60,7% trabalham mais de 40 horas, dos quais 13,8% tem uma semana laboral de 51 a 60 horas e 9% mais de 60 horas. Dos jornalistas a tempo integral, 29,6% trabalha as horas previstas no contrato.
– 3,9% são remunerados pelas horas extraordinárias. 10,2% são compensados em tempo de descanso pelo trabalho extra, 63,4% não tem qualquer compensação.
– 25,8% prestam serviço para mais de um órgão de c. social dentro do mesmo grupo. Desses, 66,8% não recebe remuneração extra por esse trabalho.

Tipo de trabalho

– 58,9% redactor/repórter, 7,7% fotojornalista, 6,8% repórter de imagem.
– 6,8% direcção, 4,2% chefia, 11,3%, edição (num total de 22,3%).
– 46,5% imprensa como actividade principal, 8,7% como actividade secundária.
– 23,1% jornalismo online (site) como actividade principal, 15,9% como actividade secundária, o que significa que 39% dos profissionais publica em sites.
– 20,3% televisão;
– 12,4% rádio.
– Secções ou especialidades a que os jornalistas mais se dedicam (não de forma exclusiva): Sociedade (30,5%), Desporto (27,8%).
– 26,4% dedica-se à informação local ou regional (seja em meios locais ou nacionais).
– 16,5% desenvolve outras actividades remuneradas em paralelo com o jornalismo, e destes 33,7% no ensino ou formação; 25,9% no comércio ou serviços; 13,5% na escrita, revisão ou tradução.
– 13,3% dos inquiridos interrompeu a profissão de forma voluntária para desenvolver outras actividades profissionais, sendo as principais Assessoria (16,7%), Comércio ou Serviços (10,9%) e Agências e Gabinetes de Comunicação (10,1%).
Empresas
– 57,8% fazem avaliações negativas às empresas, sendo que 19,9% são extremamente negativas.
– 5,4% dá nota positiva à actuação das empresas.
Sindicato dos Jornalistas
– 43,7% tem uma visão neutra sobre a sua actuação.
– 31,7% consideram a actuação positiva.
– 24,6% expressam uma opinião negativa, e destes, 7,1% extremamente negativa.

Participação sindical

– 25,2% diz ter participação sindical.
– 18,3% já foi sindicalizado mas deixou de ser.
– 56,5% nunca foi sindicalizado. Entre estes, 22,1% afirmam não ter interesse. 14,3% não aderiu por razões financeiras.
– 31,8% diz existir na sua empresa Comissão de Trabalhadores, em 36,4% dos casos há Delegado Sindical e em 49,5% Conselho de Redacção.

Carreira e salário

– 80% não tem progressão há mais de 4 anos; 28,4% há mais de uma década; 29,4% têm carreira congelada há pelo menos 7 anos.
– 63,6% estão insatisfeitos com os salários; 33,2% extremamente insatisfeitos; 25,3% satisfeitos e 2% extremamente satisfeitos.
Autonomia e trabalho
– 31,5% dizem ser pouco ou nada autónomos em relação às decisões das chefias; 41% em relação às decisões das administrações.
– 9,9% dizem-se totalmente autónomos em relação às chefias e 12,3% às administrações.
– 47,2% consideram a agenda o maior condicionalismo; 43,6% as condições de trabalho e 43,5% o salário.
– 29,2% consideram-se limitados pelas chefias.
– 40,2% invocam limitações à vida pessoal e familiar.
– 36,6 % referem o medo de perder o emprego.

Satisfação/insatisfação

– 77,9% dizem-se insatisfeitos com a profissão; destes, 48,8% extremamente insatisfeitos; 11% satisfeitos; 1,9% extremamente satisfeitos.
– 64,2% dos jornalistas já pensaram pelo menos uma vez abandonar a profissão.
Nota – Esta síntese de elementos, relativos a 2016, baseia-se nos resultados de um inquérito realizado no quadro de uma investigação promovida por uma equipa do CIES-IUL (ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa), dirigida por Gustavo Cardoso. A amostra foi de quase 1500 jornalistas (validados). Ver Miguel Crespo, «Profissão Jornalista: experientes e letrados, mas mal pagos e condicionados», Jornalismo & Jornalistas, n.º 64, Julho/Set 2017. Resultados semelhantes e complementares são revelados num outro inquérito realizado por João Miranda, no âmbito do seu doutoramento na Un. de Coimbra sobre Regulação e Auto-Regulação. Ver J&J, n.º 65, Out/Dez 2017.

De referir que algumas das perguntas são de respostas múltiplas, o que justifica o resultado das percentagens apuradas.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2301, 4.01.2018

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