A Social-democracia apunhalou
a revolução Alemã em 1918


Neste texto, Miguel Urbano lembra-nos como, em 1918, foi traída a revolução alemã, no cumprimento do ainda hoje mal conhecido papel histórico da social-democracia.
Na foto que ilustra o texto, vemos Friderich Erbert, no lado esquerdo da 3ª carteira do lado direito, na Escola do SPD; à esquerda, de pé, Rosa Luxemburgo com outros professores.

Em 1981, a oferta inesperada de um livro da biblioteca de um hotel do Vogtland, na RDA, estimulou o meu interesse por um período decisivo da História da Alemanha.

Era o primeiro tomo da Histoire de l ‘Allemagne Contemporaine, de Gilbert Badia.*

Desconhecia então que o autor era um talentoso historiador comunista que havia residido na Alemanha de 36 a 38, quando Hitler, firmemente instalado no poder, preparava, ante a passividade da França e da Inglaterra, a tragédia que foi a II Guerra Mundial.

O interesse despertado pelo livro de Badia foi tao grande que em diferentes passagens por Paris tentei sem êxito adquirir o II tomo.

Reli agora com enorme prazer e proveito o I tomo.

PRÓLOGO MAL CONHECIDO

Na primavera de 1917 a maioria do povo alemão acusava o desgaste da guerra. O sonho da vitória rápida e fácil findara no Marne. Em 1916 na batalha de Verdun, outra derrota alemã, o exército imperial perdera 250.000 homens.

O bloqueio inglês funcionava e as autoridades impunham um racionamento severo dos produtos alimentares. No último ano a colheita da batata fora péssima e as do trigo e do centeio medíocres.

A Revolução de Fevereiro na Rússia contribuiu para que o sentimento de resignação dos operários e camponeses evoluísse para um desejo cada vez mais generalizado de paz.

A entrada dos EUA na guerra, em 1917, reforçou a convicção de que a vitória alemã era impossível. A guerra submarina sem restrições não atingira também o objetivo.

A primeira manifestação expressiva do descontentamento popular ocorreu em abril desse ano quando 250.000 metalúrgicos entraram em greve em 300 empresas. A amplitude do movimento surpreendeu o governo. Os trabalhadores exigiam «pão, liberdade e paz».

Na Marinha de guerra, imobilizada em Kiel e noutras bases navais, o desejo de paz era transparente. No dia 6 de junho os marinheiros do Prinz Luitpold entraram em greve da fome e os do Friedrich der Grosse exigiram a melhora do rancho. A agitação estendeu-se a outros navios. 400 tripulantes do Prinz Regent promoveram em terra um comício.

A reação do almirantado foi brutal. Cinco marinheiros foram executados e dezenas condenados a pesadas penas de prisão. Mas a agitação na Marinha prosseguiu e acentuou-se após a vitória da Revolução de Outubro.

Em janeiro de 1918 explodiu uma vaga de greves em Berlim, Kiel, Hamburgo, Leipzig, Colónia, Breslau, Munique, Nuremberga e outras cidades.

O SPD, o Partido Social Democrata – que fora marxista e revolucionário na época de Marx¬ – já era então revisionista sob a direção de Kautsky, Bernstein e Hilferding – atuou como cúmplice dos militares, e os dirigentes sindicais esforçaram-se por desmobilizar os grevistas.

Hindemburgo e Ludendorff, apoiados pela burguesia industrial e pelo capital financeiro, exigiram uma repressão violenta. O Kaiser Guilherme II, por eles tutelado e totalmente desprestigiado, pouco mais era já do que uma figura decorativa.

O mal-estar aumentou quando foram divulgadas as cláusulas de Brest-Litowsk em março de 1918. Contrariando a aspiração a uma «paz sem anexações», a Alemanha anexava uma parte da Polónia e dos países bálticos e ocupava a Ucrânia.

A REVOLUÇÃO DE NOVEMBRO

Ludendorff acreditava que a transferência de tropas da Rússia para a frente ocidental garantiria a vitória da Alemanha. Mas as suas ofensivas da primavera e do verão fracassaram. Em Outubro a derrota militar da Alemanha era já uma certeza.

A MARINHA DESENCADEIA A REVOLUÇÃO

No dia 3 de Novembro generalizou-se a rebelião da Marinha.

No dia seguinte, Kiel estava nas mãos dos marinheiros amotinados. O exército recusou intervir. Nos navios de guerra e nas fábricas formaram-se Conselhos de Operários e militares, inspirados pelos sovietes russos, desfraldando a bandeira vermelha da revolução.

No dia 10 de Novembro em toda a Alemanha o poder real estava nas mãos dos Conselhos.

Mas – escreve Gilbert Badia – «esses revolucionários são pacíficos. Os 14 pontos que submetem ao governador da praça constituem um programa anódino: exigiram, a libertação dos presos, a liberdade de imprensa, a mesma alimentação dos oficiais e a anulação da ordem de saída da esquadra para o alto mar».

Gustav Noske, então um obscuro deputado social-democrata, viria a desempenhar um papel decisivo na contrarrevolução. Conseguiu ser eleito presidente do Conselho dos Operários e Marinheiros de Kiel, e nomeou-se a si mesmo governador da cidade. Mais tarde revelou que procedera assim para conter a rebelião.

Como explicar o afundamento súbito e total de um regime que meses antes parecia sólido e contar com o apoio da maioria da população?

Na realidade ninguém inicialmente se levantou para o defender.

Badia sublinha, porém, a fragilidade dos Conselhos Populares. Quase tudo era espontâneo. Não havia uma organização, um partido a dirigir a revolução. Os Espartaquistas, liderados por Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, tinham uma influência reduzida fora das grandes cidades. Constituíam aliás uma pequena minoria na USPD, o partido nascido de uma cisão do SPD.

A propaganda anti-bolchevique desempenhou um papel fundamental na derrota da revolução. O medo do comunismo alarmou um povo profundamente conservador. Foi uma arma poderosa que contribuiu para despertar a burguesia alemã, humilhada pela derrota militar.

A MUDANÇA NA CORRELAÇÃO DE FORÇAS

Nos últimos meses da guerra a correlação de forças alterara-se bruscamente.
Enquanto o prestígio da monarquia caía para um nível muito baixo e o discurso dos militares perdia toda a credibilidade, o Partido Social Democrata adquiria de repente um protagonismo enorme, preenchendo o vácuo político posterior ao Armistício assinado em Compiègne a 11 Novembro.

O SPD ao longo da guerra nunca criara problemas ao governo imperial.

Quando assumiu o governo, após a abdicação e fuga do Kaiser Guilherme II, era o único partido que mantinha uma grande e sólida organização. Dispunha de quadros experientes e controlava os sindicatos.

«Num país – escreve Badia – em que os sentimentos de ordem e disciplina assentam numa antiga tradição recebeu a adesão da maioria dos funcionários, porque estava no poder, e de uma parte das classes médias que não são necessariamente conservadoras, mas que não eram insensíveis à propaganda da burguesia que tendia há muito a identificar o socialismo com desordens sangrentas».

Quando irrompeu a Revolução, o SPD foi para a grande burguesia o partido indicado para formar o governo de transição.

O presidente do partido, Friedrich Ebert, foi naturalmente designado para chefiar o poder executivo.

O SPD ainda tinha a confiança de grande parte do proletariado alemão e a maioria dos Comissários do Povo eram membros do partido. Mas eles funcionaram como quinta coluna no âmbito do movimento revolucionário. Ebert não afastou generais, ministros, altos funcionários.

Em Janeiro de 1919, nas primeiras eleições gerais, o SPD recebeu 11 milhões de votos, mais de um terço dos sufrágios emitidos. Os Independentes da esquerda revolucionária somente obtiveram 2.300.000 votos (menos de 10%).

Ebert era um monárquico arrependido que odiava a revolução e o socialismo. Embora durante breves semanas o poder real pertencesse aos Conselhos de Operários e Soldados, ele tratou de o exercer no quadro das instituições existentes que tinham subsistido quase integralmente.

Ebert aliou-se às forças reacionárias, nomeadamente ao corpo de oficiais prussianos, núcleo do exército permitido pelo Tratado de Versailles.

Como afirma Badia, «a tragédia alemã é a história dessa escolha da social-democracia, da sua aliança com as forças mais reacionárias do antigo regime».
Em 1924, Ebert confessou que se entendera com o marechal Hindemburgo «para formar com a sua ajuda um governo capaz de restabelecer a ordem».

O choque decisivo começou em Berlim no início de janeiro de 1919. Nos cinco meses seguintes os revolucionários alemães lutaram com coragem mas foram esmagados gradualmente nos diferentes estados do país. A República de Weimar foi fundada num banho de sangue.

Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht foram presos e assassinados em janeiro de 1919.

A República dos Conselhos da Baviera – o rei fugira – foi o último bastião revolucionário a cair, em maio.

Na Alemanha os historiadores sérios reconheceram após o fim do III Reich que cabe ao SPD grande parte da responsabilidade pela criação das condições que permitiram o acesso de Hitler ao Poder absoluto em 1933.

***

Ebert faleceu em 1924 na Presidência da República de Weimar.

A classe dominante alemã glorificou-o. O traidor da social-democracia foi guindado a herói nacional.

Uma Fundação perpetua o seu nome. É útil recordar que essa Fundação financiou generosamente o Partido Socialista Português (criado aliás na Alemanha) por intermedio de Mário Soares, que múltiplas vezes elogiou Friedrich Ebert como «eminente democrata».

*Gilbert Badia, L’Histoire de l‘Allemagne Contemporaine,1917-1933,tome premier,335 pg, Éditions Sociales, Paris 1964.

Serpa, Maio de 2016

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