A vantagem de ser discreta

Correia da Fonseca*    01.May.10    Colaboradores

É uma velha receita dos media do sistema: quando a mensagem do político começa a ficar gasta ou cola mal, vai-se fazendo passar subliminarmente a ideia, com o propósito de a tornar evidente num futuro próximo. É o caso de muitas frases curtas que as televisões passam em rodapé durante os noticiários. E mesmo que juridicamente não possam ser consideradas “mensagens subliminares”, que isso é proibido por lei e eticamente reprovável, é isso mesmo que estas mensagens são.
A classe burguesa e o sistema que a sustenta são muito criativos na defesa dos interesses da classe no poder. E depois de passarem subliminarmente a ideia, até parece que têm razão.

Na TVI ou na sua irmã mais reservada, a TVI24, tal como aliás em qualquer dos canais portugueses que nos entram em casa e com quem quotidianamente partilhamos a vida, a informação é fornecida por grosso, digamos assim, nos grandes blocos informativos com imagem e som a condizer, mas também a retalho miúdo. Neste caso, consiste em pequeninas frases que surgem em rodapé, ou fixas durante uns segundos ou deslizando, conforme a opção do momento. Às vezes quase não damos por elas. Mas estão lá.

E, ao contrário do que possa parecer, pela sua discrição não perdem eficácia. Não chegam a integrar o universo das mensagens subliminares, cujo poder de convencimento e penetração há muito que está estudado e reconhecido, mas não andam muito longe disso. Pelo que, como bem se compreende, vale a pena estar-lhes atento. Para os devidos efeitos, com em tempos se dizia e talvez ainda se diga na linguagem peculiar do funcionalismo público.

Por exemplo que aliás não é um exemplo qualquer: no serão do passado sábado, uma dessas discretas legendas informava os telespectadores, por sinal em desconexão com o que naquele momento o resto do ecrã mostrava, que «rende mais ficar em casa do que ir trabalhar». A didáctica sentença aludia, é claro, às supostas vantagens proporcionadas aos trabalhadores desempregados que recebem subsídio de desemprego.

E bem sabemos que se limitava a retomar um dos estribilhos mais frequentemente usados pelo dr. Paulo Portas, paladino do combate ao desperdício que no seu entendimento se consubstancia pela entrega a gente carenciada do que ele designa por «dinheiro dos contribuintes» quando talvez pudesse ser, no seu critério, muito melhor aplicado.

Porventura, quem sabe?, na compra de mais um submarino a adquirir por contrato que ele próprio se disporia a assinar, se tanto lhe fosse acessível, com a aparente lepidez de que oportunamente já deu sinais.

Acontece, porém, que apesar dos seus evidentes talentos para a utilização dos chamados «soundbytes» e seus equiparados, o dr. Portas não dispõe de um poder de convencimento tão eficaz quanto uma frasezinha discreta modestamente grafada, com letra brancas sobre fundo negro, na parte inferior dos ecrãs. O caso é que estamos todos, ou pelo menos quase todos, um poucochinho cansados do tom altissonante, do ar de mestre sempre a revelar verdades supremas, da superveemência que lembra os métodos toscos dos vendedores ao ar livre.

Para mais, neste caso são muitos, e serão decerto cada vez mais numerosos, os que compreendem que o argumento das supostas vantagens do desemprego subsidiado é uma arma a favor do pior patronato: daquele que quer aproveitar-se da situação dos desempregados para os obrigar a aceitar salários aviltados, abaixo dos subsídios sempre mais ou menos magros (porque sempre abaixo das remunerações perdidas) que estejam a receber.

É, como aliás os livros há muito ensinam, a utilização do desemprego como forma de aumentar o grau de exploração dos trabalhadores. E é a essa manobra clássica, verdadeiramente infame, que aquela legendazinha em rodapé, com o poder de penetração que lhe é conferido pela discrição aparentemente despretensiosa, dá o seu contributo técnico. Digamos que indolor. Mas perigosamente tóxico.

* Correia da Fonseca é amigo e colaborador de odiario.info

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