A Via de Desenvolvimento de Orientação Socialista (II)

Samir Amin*    20.Ene.08    Colaboradores

Neste artigo, que, pela sua extensão, publicamos em dois dias, Samir Amin reflecte sobre grandes problemas do nosso tempo.Distanciando-se do discurso sobre «o socialismo do século XXI», defende com ênfase especial a necessidade de um internacionalismo actuante na luta que opõe os povos ao imperialismo, hoje em guerra contra a humanidade.

5. A contra-ofensiva do capital em declínio

O contraste centros/periferias não é sinónimo de países industrializados/países não industrializados. A polarização centros/periferias que dá à expansão do capitalismo mundial o seu carácter imperialista prossegue e aprofunda-se até, por meio dos «cinco monopólios novos» de que beneficiam os centros imperialistas (evocados antes). Nestas condições a procura dos projectos de desenvolvimento acelera periferias emergentes, iniciadas com um êxito imediato indiscutível (na China em especial, mas também noutros países do Sul) não abole o domínio imperialista. Esse desenvolvimento participa do início do novo contraste centros/periferias, não da sua ultrapassagem.

O imperialismo não se conjuga no plural como nas fases anteriores do seu desenvolvimento; ele é cada vez mais um «imperialismo colectivo» da tríade (Estados Unidos, Europa, Japão). Nesse sentido os interesses comuns que partilham os oligopolos que têm a sua base de origem na tríade arrastam-no sobre os conflitos de interesses (mercantilistas) que podem opor-se-lhes. Este carácter colectivo do imperialismo expressa-se através da gestão do sistema mundial pelos instrumentos comuns da tríade; no plano económico OMC (Ministério das colónias da tríade), o FMI (Agência Monetária colonial colectiva), o Banco mundial (Ministério da Propaganda), a OCDE e a União Europeia (constituída para impedir a Europa de sair do liberalismo); no plano político o G7/G8, as forças armadas dos Estados Unidos e o seu instrumento subalterno que representa a OTAN (a marginalização/domesticação da ONU completa o quadro). O desenvolvimento do projecto hegemonista dos Estados Unidos iniciado através de um programa de controle militar do planeta (implicando entre outros a abrogação do direito internacional e o direito que Washington se outorgou de efectuar «guerras preventivas» a seu critério, articula-se sobre o imperialismo colectivo e dá ao chefe americano o meio de sobrecompensar as suas deficiências económicas.

Os objectivos e os meios de uma estratégia de construção da convergência na diversidade

Os povos de três continentes (Ásia, África, América latina) confrontam-se hoje com o projecto de expansão do sistema imperialista dito neo-liberal globalizado que é apenas a construção do apartheid à escala mundial. A nova ordem imperialista actual será posta em questão. Por quem? E o que advirá daí?

Sem dúvida a imagem da realidade dominante não permite imaginar uma solução imediata deste tipo. As classes dirigentes dos países do Sul, derrotadas, aceiraram no geral colocar-se no seu lugar de compradores subalternos; os povos desamparados, engajados na luta para a sobrevivência quotidiana pareciam frequentemente aceitar a sua sorte ou até pior alimentar novas ilusões de que as mesmas classes dirigentes os saciam (o Islão e o hinduísmo políticos são o exemplo disso mais dramáticos). Mas por outro lado o aumento dos movimentos de resistência e de lutas contra o capitalismo e o imperialismo, os êxitos alcançados — até aos seus termos eleitorais — pelas novas esquerdas na América latina (sejam quais forem os limites que estas vitórias tragam), a radicalização progressiva de muitos destes movimentos, o início de posições críticas tomadas pelos governos do Sul no seio da OMC, constituem o penhor de um «outro mundo» melhor, torna-se efectivamente possível. A estratégia ofensiva necessária de reconstituição da frente dos povos do Sul exige a radicalização das resistências sociais face à ofensiva do capital imperialista.

As classes dirigentes de alguns países do Sul optaram visivelmente por uma estratégia que não é nem a da submissão passiva às forças dominantes no sistema mundial, nem a da oposição declarada estas: uma estratégia de intervenções activas sobre as quais elas fundamentam as suas esperanças de acelerar o desenvolvimento do seu país. A China, pela solidez da construção nacional que a sua revolução e o maoísmo produziram, pela sua escolha de conservar o controle da sua moeda e dos fluxos de capitais, pela sua recusa de recolocar em questão a propriedade colectiva do solo (principal aquisição revolucionária dos camponeses), estava melhor equipada que outras para fazer esta escolha e daí tirar resultados incontestavelmente brilhantes. A experiência poderá ser prosseguida? E quais são os seus limites possíveis? A análise das contradições trazidas por esta opção levou-me à conclusão que o projecto de um capitalismo racional capaz de se impor à igualdade com a de potências maiores do sistema mundial alimentava-se largamente de ilusões. As condições objectivas herdadas da história não permitem o funcionamento de um compromisso social histórico capital/trabalho/campesinato garantindo a estabilidade do sistema, que assim, no final só pode virar à direita (e ser então confrontado com os movimentos sociais crescentes das classes populares) ou evoluir para a esquerda construindo o socialismo de mercado» como uma etapa da longa transição para o socialismo. Os problemas do Vietname são da mesma natureza. As opções aparentemente análogas feitas pelas classes dirigentes doutros países ditos «emergentes» são ainda mais frágeis. Nem o Brasil, nem a Índia — porque não fizeram uma revolução radical como a China — não são capazes de resistir com tanta força às pressões conjugadas do imperialismo e das classes locais reaccionárias.

Mas as sociedades do Sul — pelo menos algumas — estão hoje equipadas de meios que lhes permitem reduzir a nada os «monopólios» dos centros imperialistas. Estas sociedades são capazes de se desenvolver por elas mesmas, sem cair na dependência. Elas dispõem de um potencial de domínio tecnológico que lhes permitirá utilizá-lo elas mesmas. Elas podem forçar o Norte, recuperando o uso dos seus recursos naturais, a ajustar-se a um modo de consumo menos nefasto. Elas podem sair da globalização financeira. Elas colocam já em questão o monopólio de armas de destruição massiva que os Estados Unidos queriam reservar para si. Elas podem desenvolver trocas Sul-Sul — de mercadorias, de serviços, de capitais, de tecnologias — que seriam inimagináveis em 1955, quando todos os países estavam desprovidos de indústrias e de domínio tecnológico. Cada vez mais a desconexão está na ordem das possibilidades.

Será isso feito por essas sociedades? E quem o fará? As classes dirigentes burguesas actuais? As classes populares chegadas ao poder? Provavelmente num primeiro tempo regimes de transição de natureza nacional popular.

6. Os avanços socialistas do século XX: sovietismo e maoismo

O marxismo da II Internacional, operária e eurocentrista, partilhava com a ideologia dominante da época uma visão linear da história segundo a qual todas as sociedades deviam passar primeiro por uma etapa de desenvolvimento capitalista (donde, a colonização — assim historicamente positiva — lançava os germes. Antes de poderem aspirar ao socialismo. A ideia que o «desenvolvimento» de uns (os centros dominantes) e o «subdesenvolvimento» dos outros (as periferias dominadas) eram indissociáveis como os dois lados de uma mesma peça, produtos imanentes um do outro da expansão mundial do capitalismo sendo-lhe perfeitamente estranhos.

Numa primeira etapa Lénine manteve-se algo distante da teoria dominante da II Internacional e concluiu com êxito a revolução no «elo fraco» (a Rússia), mas sempre com a convicção que seria seguida por uma vaga de revoluções socialistas na Europa. Esperança falhada: Lénine inicia uma visão que dá mais importância à transformação de rebeliões do Oriente em revoluções. Mas é o PCC e Mao que vão sistematizar esta nova perspectiva.

A revolução russa tinha sido conduzida por um Partido bem implantado na sociedade proletária e na inteligência radical. A sua aliança com o campesinato (que o Partido Socialista Revolucionário representava) — em uniforme de soldados — impôs-se naturalmente. A reforma agrária radical que daí resultou dava enfim satisfação ao velho sonho dos camponeses russos: tornarem-se proprietários. Mas esse compromisso histórico trazia em si mesmo os germes dos seus limites: o «mercado» devia produzir por si próprio, como sempre, uma diferenciação crescente no seio do campesinato (o fenómeno bem conhecido da «qulaquisação»)

A revolução chinesa desenvolveu-se desde o início (ou pelo menos a partir dos anos 30) sobre outras bases garantindo uma aliança sólida com o campesinato pobre e médio. De resto a dimensão nacional — a guerra de resistência à agressão japonesa — permitiu também à frente dirigida pelos comunistas recrutar largamente nas classes burguesas desencantadas com as fraquezas e as traições do Kuo Min Tang. A revolução chinesa, por isso, produziu uma situação nova diferente da da Rússia pós revolucionária. A revolução camponesa radical suprimiu a própria ideia de propriedade privada do solo agrário, e substituiu-lhe a garantia para todos os camponeses de um acesso igual a esse. Até hoje esta vantagem decisiva, que nenhum outro país partilha fora do Vietname, constitui o obstáculo maior a uma expansão devastadora do capitalismo agrário. Os debates actuais na China incidem principalmente neste assunto. Lembro ao leitor (S. Amin, Para um mundo multipolar, capítulo China, Paris 2005; S. Amin, Teoria e Prática do projecto chinês de socialismo de mercado, Alternativas Sul, vol. III, n.o 1, 2001).

Mas de resto, o alistamento de numerosos burgueses nacionalistas no Partido Comunista deveria pela força das coisas exercer uma influência ideológica propícia a manter daqueles que Mao qualificou de partidários da via capitalista (capitalist-roaders)

O regime pós revolucionário na China não tem apenas no seu activo muitas realizações políticas, culturais, materiais e económicas mais que apreciáveis (a industrialização do país, a radicalização da sua cultura política moderna, etc. A China maoista resolveu o problema camponês no coração do drama do declínio do Império do Meio durante dois séculos decisivos (1750-1950). Recordo aqui a minha obra O Futuro do Maoismo (1981, p. 57) Para além disso a China maoista chegou a estes resultados evitando as derivas mais dramáticas da União Soviética: a colectivização não se impõe pela violência mortífera como foi o caso do estalinismo, as oposições no seio do Partido não deram lugar à instauração do terror (Deng foi afastado, voltou…) O objectivo de uma igualdade relativa sem igual, dizia respeito tanto à repartição dos lucros entre os camponeses e os operários como no seio dessas classes e entre elas e as camadas dirigentes, prosseguiu-se — com altos e baixos claro — com tenacidade, formalizou-se por opções de estratégia de desenvolvimento que fazem contraste com as da URSS (essas opções foram formuladas nos «dez grandes relatórios» no início dos anos 60). São estes êxitos que justificam destes últimos, do desenvolvimento da China pós maoísta a partir de 1980. O contraste com a Índia que, precisamente, não fez revolução, toma aqui o seu significado, não apenas para justificar percursos diversos durante os decénios de 50 a 80, mas ainda perspectivas de futuro prováveis (e/ou possíveis) diversos. São esses êxitos que explicam que a China pós maoista, afirmando o seu desenvolvimento na nova globalização capitalista (pela «abertura») não sofresse choques destrutivos análogos aos que se seguiram ao afundamento da URSS.

O sucesso do maoismo não tinha por essa razão ordenado «definitivamente» (de maneira «irreversível») a questão da perspectiva a mais longo prazo em benefício do socialismo. Primeiro porque a estratégia do desenvolvimento dos anos 1950-1980 tinha esgotado o seu potencial e que, entre outras coisas, uma abertura (ainda que controlada) se impunha (O futuro do maoismo, pp. 59-60), que comportava, como o futuro demonstrou, o risco de reforçar as tendências de uma evolução em direcção ao capitalismo. Mas ainda porque simultaneamente o sistema da China maoista combinava as tendências contraditórias com o reforço das opções socialistas e o seu enfraquecimento. Mao, consciente dessa contradição, tentou dobrar o compasso a favor do socialismo por meio de uma «Revolução Cultural» (de 1966 a 1974). «Fogo sobre o quartel general» (o Comité Central do Partido), sede das aspirações burguesas da classe política nos postos de comando. Mao julgou que, para realizar esta correcção de curso, podia apoiar-se na «juventude» (o que, entre outras coisas, muito inspirou o 1968 europeu — veja-se o filme de Godard (A Chinesa). O decurso dos acontecimentos mostrou o erro desta ideia. Virada a página da Revolução Cultural, os partidários da via capitalista viam-se fortes para passar à ofensiva.

O combate entre a via socialista, longa e difícil, e a opção capitalista já pronta, ainda não está definitivamente ultrapassado. Como de resto no mundo o conflito que opõe o prosseguir do desenvolvimento capitalista na perspectiva socialista constitui o verdadeiro conflito de civilização da nossa época. Mas neste combate o povo chinês dispõe de alguns trunfos importantes, que são herança da Revolução e do maoismo. Estes trunfos operam em vários domínios da via social: manifestam-se com força entre outros pela defesa pelo campesinato da propriedade de Estado do solo agrário e da garantia do acesso de todos a este. O maoismo contribuiu de maneira decisiva para medir com exactidão os jogos e o desafio que representa a expansão capitalista/imperialista globalizada. Permitiu-nos colocar no centro da análise deste desafio o contraste centros/periferias imanentes à expansão do capitalismo «realmente existente», imperialista e polarizante por natureza, e daí tirar todas as lições que implica para o combate socialista, tanto nos centros dominantes como nas periferias dominadas. Estas conclusões foram resumidas numa bela fórmula à «chinesa»; que os Estados querem a independência, as nações a libertação, os povos a revolução. Os Estados, quer dizer, as classes dirigentes de todos os países do mundo, quando são algo mais que lacaios, correias de transmissão de forças exteriores — empregam-se a alargar o espaço de movimento que lhes permite manobrar no sistema mundial (capitalista) e de elevar a sua posição de actores «passivos» (condenados a sofrer o ajustamento unilateral das exigências do capitalismo dominante à de actores «activos» (que participam na feitura da ordem mundial). As Nações — isto é os blocos históricos de classes potencialmente progressistas — querem a libertação, ou seja o «desenvolvimento» e a «modernização». Os povos — isto é as classes dominadas e exploradas — aspiram ao socialismo. A fórmula permite compreender o mundo real em toda a sua complexidade e, assim, formular estratégias de acção eficaz. Ela situa-se numa perspectiva de longa — muito longa transição do capitalismo para o socialismo mundial, e por isso, rompe com a concepção da «transição curta» da III Internacional.

7. Para uma renovação socialista no Século XX: o conflito capitalismo/socialismo e o conflito Norte/Sul são indissociáveis.

O conflito Norte/Sul (centros/periferias) é um dado primeiro em toda a história do desenvolvimento capitalista. Por isso a luta dos povos do Sul pela sua libertação — de resto vitoriosa na tendência geral — articula-se à recolocação da questão do capitalismo. Esta conjunção é inevitável. Os conflitos capitalismo/socialismo e Norte/Sul são indissociáveis. Não há socialismo concebível fora do universalismo, que implica a igualdade dos povos. Nos países do Sul a maioria é vítima do sistema, nas do Norte é beneficiária. Umas e outras sabem-no bem e muitas vezes se resignam (no Sul) ou se felicitam (no Norte). Não é por acaso que a transformação radical do sistema está na ordem do dia no Norte, enquanto que no Sul constitui sempre «a zona de tempestades» de revoltas repetidas, potencialmente revolucionárias. Assim as iniciativas dos povos do Sul foram decisivas na transformação do mundo como toda a história do Século XX o demonstra. Constatar esse facto permite situar nesse quadro as lutas de classes no Norte: o de lutas económicas reivindicativas que em geral não colocam em questão nem a propriedade do capital nem a ordem mundial imperialista. Isso é particularmente visível nos Estados Unidos no quadro de uma cultura política do consenso. A situação é mais complexa na Europa visto a sua cultura política do conflito que opõe a DIREITA E A ESQUERDA das Luzes e a revolução francesa, depois de seguida com a formação de um movimento trabalhista socialista e a revolução russa (S. Amin, O virus liberal, 2003). Mas a americanização das sociedades europeias, em curso desde 1950, atenua grandemente este contraste. Assim igualmente as modificações da competitividade comparada das economias do capitalismo central, associadas aos desenvolvimentos desiguais das lutas sociais, não merecem estar colocadas no centro das transformações do sistema mundial, nem no coração das diferentes variantes possíveis das relações entre os Estados Unidos e a Europa, como o pensam muitos dos partidários do projecto europeu. Por seu lado as revoltas do Sul, quando se radicalizam, embatem nos desafios do subdesenvolvimento. Os seus «socialismos» são assim sempre portadores de contradições entre as intenções de partida e as realidades do possível. A conjunção, possível mas difícil, entre as lutas dos povos do Sul e as do Norte constituem o único meio de ultrapassar os limites de uns e de outros. Esta conjunção define a minha leitura de marxismo. Uma leitura que parte de Marx, recusa para nele, ou Lénine, ou Mao. Um marxismo concebido como método de análise e de acção (a dialéctica materialista) e não como o conjunto de propostas tiradas do uso deste e assim um marxismo que não receia recusar certas conclusões, sejam elas de Marx, um marxismo sem margens, sempre inacabado.

O capitalismo sendo um sistema mundial e não a simples justaposição de sistemas capitalistas nacionais, as lutas políticas e sociais, para serem eficazes deviam ser simultaneamente conduzidas no solo nacional (que fica decisivo porque os conflitos, as alianças e os compromissos sociais e políticos se ligam neste solo) e no plano mundial. Esse ponto de vista — em minha opinião banal — parece-me ser o de Marx e dos marxismos históricos (Proletários de todos os países uni-vos) ou na versão maoista enriquecida (Proletários de todos os países, povos oprimidos, uni-vos».

É impossível desenhar a trajectória que seguirá estes avanços desiguais produzidos pelas lutas do Sul e do Norte. A minha ideia é que o Sul atravessa actualmente um momento de crise, mas que é uma crise de crescimento, no sentido que a procura dos objectivos de libertação dos seus povos é irreversível. Será melhor que os do Norte estejam atentos, é melhor que mantenham a perspectiva e a associem à construção do socialismo. Um momento de solidariedade desta natureza existiu na época de Bandoung. Na época os Europeus jovens ostentavam «o seu terceiro-mundismo», sem dúvida ingénuo, mas muito mais simpático que o seu enconchamento actual!

Sem voltar às análises do capitalismo mundial realmente existente que já apresentei, vou lembrar apenas as suas conclusões: na minha opinião a humanidade só poderá unir-se seriamente na construção de uma alternativa socialista ao capitalismo se as coisas mudarem também no Ocidente desenvolvido. Isso não significa que os países da periferia devam esperar essa mudança e, até que ela se produza, se contentem em «ajustar-se» às possibilidades que a globalização capitalista oferece. Pelo contrário está mais provavelmente na medida em que as coisas começarem a mudar nas periferias que as sociedades do Ocidente, disso receosas, poderão ser levadas por seu turno no sentido desejado pelo progresso da humanidade inteira. Para evitar o pior, a barbárie e o suicídio da civilização humana, resta o mais provável. Situo, bem entendido, as mudanças desejadas e possíveis nos centros e nas periferias do sistema global no quadro do que chamei «a longa transição».

Nas periferias do Capitalismo globalizado — por definição «a zona das tempestades» no sistema imperialista — uma forma da revolução fica bem na ordem do dia. Mas o seu objectivo é por natureza ambíguo e vago: libertação nacional do imperialismo (e manutenção de muito ou mesmo do essencial, ligações sociais próprias da modernidade capitalista) ou mais? Que se trate de revoluções radicais da China, do Vitename e de Cuba ou das que não conseguiram noutros lados na Ásia, na África e na América latina, o desafio permanece: «apanhar e/ou fazer outra coisa? Este desafio articulava-se por sua vez numa outra tarefa considerada igualmente prioritária: defender a União Soviética cercada. A União Soviética, mais tarde a China, acabaram confrontadas com estratégias de isolamento sistemáticas desenvolvidas pelo capitalismo dominante e as potências ocidentais. Compreende-se que, a revolução no imediato não estando na ordem do dia, a prioridade tenha sido em geral dada à salvaguarda dos Estados pos revolucionários. As estratégias políticas colocadas em acção — na União Soviética de Lénine depois de Stáline e dos seus sucessores, na China maoista depois pós maoista, as desenvolvidas pelos poderes de Estados nacionais populistas na Ásia e na África, as propostas pelas vanguardas comunistas (quer estejam situadas na lavra de Moscovo ou de Pequim, ou que sejam independentes) são todas definidas em ligação ao problema central da defesa dos Estados pós revolucionários

A União Soviética, a China, o Vietname e Cuba conheceram todas as vicissitudes das grandes revoluções e foram confrontadas com as consequências da expansão desigual do capitalismo mundial. Estes países sacrificaram progressivamente — em vários graus — os objectivos comunistas de origem às exigências imediatas do «apanhar» económico. Este escorregar, abandonando o objectivo da propriedade social pela qual se define o comunismo de Marx para lhe substituir a gestão estatista e seguida do declínio da democracia popular, preparava a aceleração da evolução para a restauração do capitalismo. Nas duas experiências a prioridade foi dada à defesa do Estado pos revolucionário e os meios internos desenvolvidos foram acompanhados de estratégias externas priorizando esta defesa. Os partidos comunistas foram convidados a alinhar nestas escolhas não apenas na sua direcção estratégica geral mas mesmo nos seus ajustes tácticos no dia a dia. Isso só podia produzir um cansaço rápido do pensamento crítico dos revolucionários de que o discurso se abstraia sobre a «revolução» (sempre iminente) se afastava da análise das contradições reais da sociedade, apoiada pelo manutenção das formas de organização quase militares contra ventos e marés.

As vanguardas que recusavam o alinhamento, e por vezes ousavam olhar no rosto a realidade das sociedades pós revolucionárias, não renunciaram no entanto à hipótese leninista de origem (a «revolução» iminente»), sem ter em conta que esta era cada vez mais visível desmentida nos factos. Surgiu assim o trotskismo e os partidos da IV Internacional. Foi assim com um bom número de organizações revolucionárias activistas, inspiradas por vezes pelo maoismo, ou pelo guevarismo. Há exemplos numerosos, das Filipinas à Índia (os naxalitas), do mundo árabe (com os Nacionalistas/comunistas árabes «os qawmlyin e seus émulos no Iémen do Sul) à América latina (Guevarismo).

Os grandes movimentos de libertação nacional na Ásia e na África, entrados em conflito aberto com a ordem imperialista, embatera, como os que concluíram as revoluções em nome do socialismo, às exigências conflictuais do «apanhar» (a «construção nacional») e a transformação de ligações sociais a favor das classes populares. Sobre esse segundo plano os regimes «pós revolucionários» (ou simplesmente pós independência reconquistada) foram certamente menos radicais que os poderes comunistas, razão pela qual qualifico os regimes em questão na Ásia e na África de «nacionais — populistas. Estes regimes são de resto por vezes inspirados em formas de organização (partido único, ditadura não democrática do poder, gestão estatista da economia) fundadas nas experiências do «socialismo realmente existente». Eles geralmente diluíram a eficácia pelas suas opções ideológicas vagas e os compromissos com o passado que aceitaram.

É nestas condições que os regimes actuais como as vanguardas críticas (o comunismo histórico nos países em questão) foram convidados por seu turno a apoiar a União Soviética (e mais raramente a China) e a beneficiar do seu apoio. A construção dessa frente comum contra a agressão imperialista dos Estados Unidos e dos seus sócios europeus e japoneses foi certamente beneficiada pelos povos de Ásia e África. Esta frente anti-imperialista abriu uma margem de autonomia simultaneamente para as iniciativas das classes dirigentes dos países respeitantes e para a acção das suas classes populares. A prova foi fornecida pelo que aconteceu a seguir, depois do afundamento soviético.

Retorno à questão agrária

A questão agrária, a do futuro dos camponeses dos três continentes (metade da humanidade) é central na conceptualização do problema nacional: associar e não dissociar modernização, democratização da sociedade, progresso social conseguido pela opção de uma via de desenvolvimento de orientação socialista, afirmação e não dissolução da independência das nações.

Um olhar para trás sobre a história das sociedades do mundo anterior à conquista europeia pode esclarecer aqui o nosso propósito e pode mesmo inspirar respostas socialistas eficazes ao desafio do nosso tempo. A China dos séculos que precedem a intervenção brutal dos Europeus a partir de 1840 efectuou um modelo de desenvolvimento agrário diferente do inaugurado pela via capitalista das «enclosures». A via chinesa — que não dispunha da possibilidade da emigração massiva do seu excesso de camponeses era fundada sobre a intensificação da produção (rendimentos ao hectare em progressão) pela associação duma dose crescente de trabalho, de conhecimentos melhorados da natureza, invenções técnicas apropriadas e o alargamento da esfera de trocas não capitalistas. Esta fórmula foi conseguida pela China maoista e mesmo pós maoista. Ela fizera no seu tempo, no século XVIII a admiração dos europeus (o livro de Etiemble, A Europa chinesa testemunha-o eloquentemente) e inspirou os fisiocratas franceses. Hoje está esquecido e devemos lembrar o interesse importante particular do livro de G. Arrighi. Deve no-lo recordar. É esta via que deu à Revolução francesa o seu carácter específico de revolução camponesa, associada e progressivamente dominada pela burguesia. Acho que devemos ter estas reflexões presentes na elaboração das políticas de desenvolvimento de orientação socialista.

Pois a via capitalista é mais eficaz? A ideologia dominante — a do capitalismo — confunde na sua resposta rentabilidade pelo capital e eficácia social. Se a via capitalista permite por exemplo multiplicar por dez a produção trabalhador rural num tempo definido, esta pode parecer a evidência de uma eficácia indiscutível. Mas se no mesmo tempo o número de empregos rurais for dividido por cinco, onde está a eficácia real desta via? A produção total terá sido multiplicada por dois, mas quatro rurais eliminados em cinco já não se podem alimentar por si, nem produzir um excedente modesto para o mercado. Se a via camponesa que estabiliza o número da população rural não multiplicar no mesmo tempo a produção por cabeça por dois, a produção total, ela própria dobrada, alimenta todos os rurais e produz um excedente comercializável que pode ser superior àquele oferecido pela via capitalista se deduzirem desta o auto-consumo dos camponeses que ela elimina. Uma comparação entre a «via francesa» e a «via inglesa» no século XIX ilustraria o nosso propósito. A segunda de resto só foi possível graças à emigração em massa e à exploração forçada das colónias. Os historiadores chineses tiveram por vezes a intuição forte da validade desta comparação entre as duas vias (Wen Tiejun lembra-nos num artigo brilhante, pouco compreendido). Giovanni Arrighi (ver Adam Smith em Beijing). André Gunder Frank igualmente (ver Re-Orient), como o historiador francês da China Jean Chesneaux.

* Samir Amin é amigo e colaborador de odiário.info

Tradução de Manuela Antunes

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