A volta da clandestinidade

Correia da Fonseca*    29.Mar.09    Colaboradores

Correia da Fonseca
“… A situação de impunidade do patronato que adopta a prática obviamente criptofascista de perseguição aos trabalhadores sindicalizados, aparentada com a antiga acusação de que trabalhador que queira defender os seus direitos é comunista ou para lá caminha, não parece escandalizar ninguém excepto, naturalmente, os próprios trabalhadores…”

Na sequência da recente manifestação de protesto contra a política do governo, o secretário-geral da CGTP, Carvalho da Silva, surgiu por várias vezes nos ecrãs dos televisores, não só em aparições mais ou menos fugazes mas também em programas extensos, designadamente na «Grande Entrevista» (RTP1) e no «Expresso da Meia-Noite» (SIC). Aliás, mesmo a um telespectador despreocupado em contar aparições na TV e em medir tempos de antena concedidos a uns e a outros, parece nítido que Carvalho da Silva vem sendo convidado mais frequentemente para os estúdios, o que permite pelo menos duas possíveis explicações.

Uma delas é que a sua maior assiduidade resulte de uma inconsciente vénia das estações de televisão perante o doutoramento do líder da Intersindical, hipótese que só surgirá absurda a quem se alheie da tradicional bacoquice nacional perante os títulos universitários. A outra é a eventualidade de Carvalho da Silva estar a ser alvo de um cortejamento por parte dos que têm expectativas de com inusuais atenções e avulsas lisonjas estimularem o seu afastamento do partido a que assumidamente pertence.

O método tem precedentes noutros casos e é duvidoso que nunca tenha sido bem sucedido.

Em qualquer dos programas acima referidos, mas talvez mais claramente no «Expresso da Meia-Noite», Carvalho da Silva falou do clima de discriminação e mesmo de perseguição que reina em grande número de empresas portuguesas e toma como alvo não só delegados sindicais mas até meros trabalhadores que se atreveram a sindicalizar-se. É uma espécie de epidemia que, como muitas outras epidemias de carácter diferente, se expande em contextos fétidos e sem mínima higiene (neste caso, cívica) e são favorecidas pela inexistência de medidas que as combatam.

Trata-se, é claro, de um comportamento claramente anticonstitucional, e portanto de facto proibido, mas bem se sabe que a mais visível parte do grande patronato luso é desde sempre hostil à Constituição da República: para ele, a Constituição está aí para ser transgredida enquanto não pode ser pura e simplesmente suprimida pelo menos no que tenha de mais democrático. A coisa remonta às diatribes contra ela lançadas na TV, ainda na década de 80, por Pedro Ferraz Costa e, mais longe ainda, no voto contrário expresso já na Assembleia Constituinte pelo CDS, único partido que rompeu a unanimidade da aprovação.

E a situação de impunidade do patronato que adopta a prática obviamente criptofascista de perseguição aos trabalhadores sindicalizados, aparentada com a antiga acusação de que trabalhador que queira defender os seus direitos é comunista ou para lá caminha, não parece escandalizar ninguém excepto, naturalmente, os próprios trabalhadores, quer os que afrontam o risco de se tornarem alvos de repressão por exercerem um direito cívico fundamental quer até muitos dos que, deixando-se intimidar, sentem que estão a ser objecto de violência e admiram os camaradas que lhe resistem.

A situação chegou ao ponto de muitos trabalhadores sindicalizados o serem em segredo, numa espécie de clandestinidade que parece ser o regresso de antigas situações de péssima memória. Foi a esta realidade indignante que aludiu Carvalho da Silva tanto quanto lhe foi permitido, e não foi muito.

É claro que a questão não é coisa pequena, mero pormenor no quadro de uma sociedade que se quer democrática. Por isso, excelente iniciativa seria a de uma estação de TV, a operadora pública por inerência dos seus específicos deveres mas também, porventura, qualquer das estações privadas, se decidisse fazer uma reportagem, ou de preferência uma série delas, acerca dessa tenebrosa modalidade quase cinegética que é a caça ao trabalhador sindicalizado. Em verdade, um trabalho desses até seria capaz de mobilizar audiências significativas, pois trabalhadores por conta alheia é o que há mais por esse País fora, e casos autenticamente dramáticos seriam decerto encontrados pelos jornalistas que quisessem averiguar qual o preço cobrado a muitos trabalhadores pela obstinada coragem de serem fiéis ao seu sindicato. A reportagem encontraria um minimundo de infâmias e heroísmos que está aí, à espera de quem o revele, e que até agora a TV tem ignorado, ela que tanto gosta de nos falar de dramas e de desgraças. Se me permitem, até sugiro um título: «Os Novos Clandestinos». ~

E não levo nada por isso, bastar-me-ia o gosto de ver a televisão portuguesa cumprir o que, afinal, é um dever seu: informar.

* Correia da Fonseca é amigo e colaborador de odiário.info

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