Abençoado*

Anabela Fino    30.Jun.12    Outros autores

Anabela FinoNa UGT já está tratada a sucessão de João Proença. Na central amarela, depois de figuras do calibre de Torres Couto e Proença, só poderia ocupar o lugar um “sindicalista” igualmente invertebrado. A eleição está antecipadamente garantida, e não se trata apenas do habitual arranjo partidário nos bastidores da “independente” central. O grande capital, pela voz de um dos seus mais destacados representantes, já deu o seu patrocínio.

A UGT já encontrou o sucessor de João Proença, apesar da passagem do testemunho só ocorrer formalmente para o ano. Trata-se do típico caso da pescada, que antes de ser já o era!

O escolhido reúne bastos requisitos para o cargo: preside ao Sindicato dos Bancários do Centro desde 2007; é líder da UGT/Coimbra; pertence ao Secretariado Nacional da central; é membro da Comissão Nacional do PS; assume-se como «um candidato de continuidade» e um «homem de consensos».

Dir-se-ia que tais predicados bastariam, mas a coisa não se fica por aqui. Carlos Silva, o escolhido, já mostrou ser melhor do que a encomenda. Apesar da tendência social-democrata da UGT só analisar as propostas de candidatura à liderança depois do congresso aprazado para Julho, Silva já tem garantido o apoio não só de Proença como também do presidente da UGT, o social-democrata João de Deus, ambos signatários da sua lista. Entretanto, assegurou o voto de 33 organizações da UGT, o que representa 70 por cento dos votos, bem como o apoio da tendência democrata-cristã.

Dir-se-ia, repete-se, que tudo isto bastaria para a sucessão, mas o facto é que tudo isto não é tudo e sobretudo não é o essencial.

O essencial, o que torna Carlos Silva o sucessor ideal de Proença está para além de cargos, funções e apoios, que não sendo despiciendos poderiam não valer um cêntimo se as características intrínsecas do Silva não fossem aquilo que são.

E quais são elas? Em entrevista ao Expresso, há cerca de um mês, o bancário revelou as suas humanas fragilidades ao reconhecer que o assusta a «exposição mediática» do cargo e a «dificuldade gigantesca» que o mesmo representa, designadamente no respeitante ao «reboliço» das negociações políticas e sindicais ao mais alto nível. Nada no entanto que o demova da escolha feita, pois como afirma está «habituado aos gabinetes aveludados da banca», já participou numa reunião com o primeiro-ministro e a partir de Setembro vai integrar a delegação da UGT na Concertação Social e demais reuniões políticas que ocorram, onde, para além de seguir a pisadas de Proença, se propõe mostrar que é um «basista», uma «pessoa reivindicativa», «como João Proença mas mais musculado».

O retrato que Carlos Silva faz de si próprio não ficaria no entanto completo sem a informação que prestou em entrevista concedida, também há cerca de um mês, ao Diário As Beiras, e que se transcreve:

«Como sabe, eu sou bancário, do BES, que é quem paga o meu salário – o único que tenho e que faço questão de manter. Por isso, antes de formalizar a candidatura, fiz questão de ter uma reunião com o doutor Ricardo Salgado, a quem transmiti, de forma transparente, a minha intenção. Naturalmente que ele, enquanto presidente da comissão executiva do BES, desejou-me sorte e disse que era também um factor de prestígio para o BES ter um dos seus colaboradores como secretário-geral da UGT».

Ou seja, temos um abençoado a caminho da liderança da UGT, capaz de «dar um murro na mesa se for necessário» e de «abandonar a sala a meio de uma reunião»… e de continuar a assinar tudo como Deus manda, perdão, como o patronato gosta, nos aveludados gabinetes da banca. Está tudo dito.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2013, 28.06.2012

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