África – a pilhagem dos recursos naturais

Luís Vicente*    08.Dic.07    Outros autores

A divulgação dos preparativos da Cimeira União Europeia-África está prenhe de manobras de diversão.
Procura esconder-se que os verdadeiros problemas e os principais responsáveis pela violação dos direitos humanos e ambientais em África: os imperialismos norte-americano e europeu. “O continente africano reflecte claramente os efeitos da exploração capitalista (…) que absorve toda a riqueza natural do continente, deixando milhões de pessoas à mercê de uma morte lenta e agonizante, mostrando que o capital, através dos seus agentes imperialistas, é o responsável pelos mais hediondos crimes contra a humanidade”

A África integra 17% do coberto florestal do Mundo. Nos últimos doze anos 52,6 milhões de hectares de floresta foram convertidos em deserto a um ritmo mais rápido do que em qualquer outro ponto do Planeta.

A desertificação, que afecta 46% do continente e 485 milhões de seus habitantes, leva à desestabilização das bacias hidrográficas e do clima, e às consequentes secas e inundações.

É de notar que as florestas desempenham um importante papel como sorvedouros de dióxido de carbono, e portanto a sua destruição leva ao aumento do efeito de estufa.

E o capital, ávido de lucros rápidos, promove a desertificação à custa da exploração desenfreada dos recursos naturais de África, com consequências catastróficas para a imensa biodiversidade.

A biodiversidade, a qual sustenta a estabilidade da vida na Terra, é também fonte de produção de medicamentos, alimentos e outros produtos – são recursos biológicos.

Consequentemente, na sua insustentável relação com a Natureza, o capital promove os maiores dramas humanitários do Planeta, porque a exploração das Natureza é também a exploração das pessoas.

Vejam-se apenas dois exemplos paradigmáticos. Um do passado recente no Ruanda, e um bem presente, o dos Maasai no Quénia.

Há bem poucos anos, em 1994 o genocídio no Ruanda estava na ordem do dia. Os media ocidentais, alimentados pelos centros de diversão ideológica do imperialismo, avançavam explicações atabalhoadas que interpretavam os acontecimentos de então como mais uma rivalidade étnica levada às suas últimas consequências, reflectindo instintos tribais, de base genética, associados a uma outra causa “enraizada no ambiente e na demografia”. Tentava-se explicar que o crescimento demográfico ultrapassara a capacidade produtiva da terra e então, “os soldados adolescentes Hutus e Tutsis ter-se-iam dedicado a resolver o problema populacional da maneira mais directa possível”.

Significativamente, ignoravam-se dados fundamentais. Ignorava-se que Hutus e Tutsis sempre se casaram entre si, não havendo qualquer distinção biológica entre eles. Que os colonialistas europeus arbitrariamente tinham criado uma distinção étnica, e usado a minoria Tutsi para, indirectamente, impor o seu domínio sobre os Hutus. Ninguém estava interessado em referir que o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial impunham reformas agrícolas e financeiras que alteravam o uso secular da terra, no sentido de transformar uma agricultura tradicional de subsistência numa agricultura subjugada às regras de mercado capitalistas, com sobrevalorização da produção de café para exportação. Enfim, ignorava-se o que está mais que demonstrado, ou seja que a fome e a guerra em África resultam do imperialismo e não da sobrepopulação. Estados Unidos e França, em conformidade com os seus interesses, armaram e apoiaram as diferentes facções do Ruanda.

Atribuíam-se à natureza humana e à sobrepopulação as culpas do genocídio, absolvendo o capitalismo.

O segundo exemplo tem a ver com a situação presente dos Maasai no Quénia.

O governo queniano, aconselhado pelos seus amigos imperialistas, monta uma gigantesca fraude onde se mistura num cozinhado complicado o imperativo de redução da dívida externa com a urgência em conservar a Natureza.

No Parque Nacional de Amboseli, o qual integra os principais recursos aquíferos dos nómadas Maasai em época de seca, expulsa os povos que tradicionalmente dependem desses recursos sob a tola desculpa da incompatibilidade entre a conservação da Natureza e o uso milenar que dela fazem os povos indígenas. Marginaliza os Maasai para as regiões mais desérticas e oferece o espaço agora “livre” a essa nova oportunidade de negócio que é o turismo de Natureza.

Esses marginalizados, tradicionalmente nómadas e dependentes da transumância, são então divididos em dois grupos. A um é proposta a sedentarização, sendo aliciado com títulos de propriedade e novas riquezas, para que se dedique à agricultura intensiva de acordo com os interesses de acumulação capitalista. Aos outros oferece o deserto, a escassez e a fome, gerando assim a conflitualidade com os primeiros… nada de muito diferente daquilo que o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial impuseram no Ruanda… ver-se-ão os resultados.

Estes, são exemplos iguais a tantos outros, do que se vai passando em África sob o jugo imperial do capitalismo internacional. Normalmente é a avidez do saque dos recursos naturais, outras vezes a simples necessidade de afirmação imperial.

Mas muitos outros dramas subsistem, como o gerado pelo domínio territorial de Marrocos sobre a República Árabe Saharaui Democrática, ou o que se agudiza cada vez mais no Darfur, com contornos gravíssimos de limpeza étnica… e, como pano de fundo destas histórias, temos sempre a pilhagem imperialista dos recursos naturais.

É significativo o facto de George W. Bush considerar Salan Abdallah Gosh um “aliado estreito” no Sudão. Não por ser um homem de paz, que não é, mas por dar informações sobre a Al Qaeda e, principalmente, por ter prometido conceder às empresas norte-americanas os seus campos petrolíferos.

Os E.U.A. “denunciam” os Janjaweed, milícia super-equipada ligada ao governo, como se fossem apenas “tribais descontrolados e selvagens”. Esta milícia “selvagem”, no entanto, possui equipamento de alta tecnologia, como helicópteros e aviões. Isso demonstra claramente que por detrás deste conflito estão os interesses da “democracia” imperialista.

Além dos EUA, a França e a China também têm demonstrado interesse no petróleo sudanês.

O Caso do Darfur é assim paradigmático. Torna-se necessário e urgente lançar um alerta para os riscos eminentes decorrentes de uma intervenção militar imperial da União Europeia, a qual de inocente nada tem.

Noventa e cinco por cento das armas usadas no continente africano têm origem norte-americana e europeia. A situação de guerra permanente faz com que milhões de pessoas sofram as consequências da ganância dos que enriquecem à custa da sua miséria.

Em 15 anos, pelo menos 23 conflitos foram suficientes para reduzir em15% o PIB africano, isto é, 18 mil milhões de dólares por ano.

Essa quantia poderia resolver a crise da SIDA, prevenir a tuberculose e a malária, fornecer água potável, saneamento e educação.

Mas não são apenas as armas que vêm dos países imperialistas. São também as guerras que são o resultado directo dos interesses imperialistas em controlar importantes recursos naturais.

Nesse sentido, o continente africano reflecte claramente os efeitos da exploração capitalista. Exploração capitalista que absorve toda a riqueza natural do continente, deixando milhões de pessoas à mercê de uma morte lenta e agonizante, mostrando que o capital, através dos seus agentes imperialistas, é o responsável pelos mais hediondos crimes contra a humanidade.

Assim, a solidariedade internacional com os povos de África é também uma batalha dos explorados contra o poder do capital.

Porque o capital, para melhor concentrar os seus lucros em níveis nunca antes atingidos, leva à guerra e à miséria a grande maioria da população mundial e revela, pelo abandono e massacre da infância, a face mais cruel e mais desumana do modelo de sociedade que impõe.

Os comunistas portuguesas, solidários com o sofrimento dos povos de África permanentemente espoliados dos seus bens e dos seus direitos, afirmam o seu empenhamento solidário com todos os povos de África, independentemente da etnia, religião ou cultura, como condição necessária e possível para a paz e melhores perspectivas de vida para a humanidade.

Em África, como aqui, é crucial o combate ao ilegítimo poder imperial que, com o fito no lucro, destrói as condições de sobrevivência do Planeta e promove os mais cruéis genocídios da história da humanidade.

* Luís Vicente Biólogo, Professor universitário

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos