África num espelho chinês

Higinio Polo*    23.May.18    Outros autores

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Uma ampla panorâmica da situação africana e do difícil processo de, no conjunto dos seus países, alcançar a paz, o desenvolvimento em todas as suas vertentes, a libertação do imperialismo e do neocolonialismo. As velhas potências coloniais e os EUA mantêm e aumentam a presença militar - braço armado das grandes multinacionais –, destroem Estados fomentam a divisão, as guerras civis, o terrorismo fundamentalista, as ditaduras dos seus homens de mão. Mas há outras forças em presença: antes de mais, persiste a vontade africana de emancipação e desenvolvimento independente. E a presença de potências económicas como a China, cuja influência cresce graça a uma construtiva e pacífica política de cooperação assente no interesse mútuo.

Segunda dados da ONU, dos quarenta e oito países mais pobres do mundo, trinta e seis são africanos. Nigéria, República Democrática do Congo, Mali, Burundi, República Centro-africana, Somália, Sudão do Sul e Líbia são países com guerras e conflitos declarados e, ademais, vivem-se situações muito críticas no Sudão, Eritreia e Moçambique. África: um continente de mil e duzentos milhões de habitantes, a maioria dos quais com menos de trinta anos (em quarenta países, quarenta por cento da população tem menos de vinte anos), quase metade da população na pobreza, com várias guerras em curso e uma sangria de jovens que, pondo a vida em risco, atravessam o Sahel e o deserto na tentativa de alcançar a Europa. E, no entanto, África move-se: dia 28 de Março de 2018, 44 dos 55 países que integram a União Africana reuniram-se em Kigali, Ruanda, para assinarem o Tratado de Livre Comércio Africano (AFCFTA, na sigla inglesa). A Nigéria, a maior economia africana, quer examinar cuidadosamente as consequências do acordo antes de aderir, tal como a África do Sul e o Uganda. Aquele Tratado é uma das iniciativas da Agenda 20163 da União Africana.

Os Estados Unidos, que assistem ao afastamento asiático e ao fortalecimento chinês, não querem perder o pé em África para Pequim. Em Agosto de 2014, Obama impulsionou uma cimeira EUA-África em Washington, a que assistiram quarenta e sete países africanos: foi uma clara mensagem de que os EUA não iam resignar-se às alterações que chegam de oriente e ia disputar com a China a sua presença no continente negro. Obama lançou também o plano Power África para levar a electricidade a algumas zonas do Sahel e visitou o Quénia e a Etiópia para fazer frente à crescente actividade chinesa: desde 2010, a China converteu-se no principal parceiro comercial de África, superando os Estados Unidos, ao ponto de alguns estudos considerarem que o intercâmbio comercial entre a China e África já duplica o estado-unidense-africano. A preocupação norte-americana já levou o Comité de Inteligência da Câmara de Representantes a aprovar, em Março de 2018, uma investigação sobre os planos da China para «reforçar o seu poder militar e económico em África».

Tudo isto quando a União Africana, que reúne todos os países africanos, definiu a Agenda 2063, um ambicioso programa de desenvolvimento a cinquenta anos, baseado em projectos prévios como o Plano de Acção de Lagos, o Programa de Integração Mínima, o Programa de Desenvolvimento de Infra-estruturas em África (PIDA), o Tratado de Abuja ou o Programa de Desenvolvimento Agrícola Integral de África (CAADP). Os desafios são ingentes, África enfrenta o problema do desenvolvimento e da corrupção, além das guerras e das fomes: a trigésima cimeira da União Africana em Adis Abeba, realizada em Janeiro de 2018, pôs o acento tónico na luta contra a corrupção e no impulso ao desenvolvimento, e a associação com a China é a aposta de futuro para muitos países, baseada no conceito de «benefício mútuo» com que Pequim fomenta a sua colaboração estratégica. A China está a construir infra-estruturas por todo o continente e é capaz de oferecer tecnologia, equipamentos sofisticados, uma logística eficaz, financiamento e peritos em todas as actividades económicas sem que, ao contrário dos Estados Unidos ou França, exija contrapartidas políticas, diplomáticas ou militares. A curto prazo, as prioridades para África são a segurança alimentar, a eliminação da fome e o controlo de doenças, bem como a pacificação do continente e a intensificação do desenvolvimento económico. Para todos estes objectivos, África pôs os olhos na China. A Nigéria, a Etiópia e o Egipto são os três gigantes demográficos africanos; pela sua economia são os mesmos com a Etiópia a ceder o seu lugar à África do Sul.

Historicamente, o continente africano foi uma fonte de recursos naturais para os países capitalistas, que não hesitaram em instigar guerras e confrontos para conseguir os seus propósitos. A concorrência entre a China e os Estados Unidos é acompanhada de acusações e propaganda: Washington (como se a sua trajectória no último século em todo o mundo tivesse sido presidida pela solidariedade e a colaboração, e não pelo mais desapiedado imperialismo) acusa hoje a China de levar a cabo em África uma política «extractiva», ao mesmo tempo que a imprensa conservadora e os intelectuais ao seu serviço acusam a China de «imperialista». É o reflexo do medo: o alarme face às alterações no continente africano levou Thomas Waldhauser (general dos marines e feroz veterano da guerra do Afeganistão e Iraque, nomeado chefe do USAFRICOM de Stuttgart em 2016) a advertir Ismail Omar Guelleh, presidente do Djibuti, sobre «o que a China não deve fazer no seu país». Não foi a primeira acusação norte-americana, nem pouco mais ou menos: desde há anos que a sua diplomacia semeia suspeitas, propaga acusações falsas com o objectivo de prejudicar a actividade chinesa, e o próprio Tillerson, na sua recente digressão pela América Latina apontava Pequim como responsável de «injustas práticas comerciais», e advertia os países latino-americanos para o perigo de uma «excessiva dependência» nas suas relações com a China. Como se a América Latina não tivesse sofrido o velho imperialismo de Washington e as suas sanguinárias imposições o secretário de Estado, apontando à China, afirmou: «Na América estende-se a ameaçante sombra da China e da Rússia» e «a América Latina não precisa de novos poderes imperiais que só vêem o seu interesse. Os Estados Unidos são diferentes: não procuramos acordos de curto prazo com lucros desiguais, procuramos parceiros». Em África os Estados Unidos mantêm as mesmas acusações: pela boca do seu secretário de Estado convertia-se, assim, num surpreendente, preocupado e solidário país que vela pela equidade e a justiça no mundo. É pena para o relato de Tillersson que a trajectória norte-americana não o ajudasse a tornar credível a sua preocupação: a manifesta ingerência estado-unidense através de invasões, guerras, golpes-de-estado, pressões e imposições a numerosos países (do Afeganistão à Venezuela, do Iraque às Honduras, da Síria ao Brasil, da Coreia à Líbia), já não só na América Latina e em África mas em todo o mundo, põe em dúvida as suas generosas palavras e a sua preocupação com os países latino-americanos e africanos. Talvez sem dar por isso, aquelas acusações norte-americanas à China eram a acta notarial do retrocesso ocidental em África e do aumento do prestígio da China.

A diplomacia norte-americana e os seus instrumentos de propaganda jogaram, além disso, com o equívoco, sugerindo que o centro logístico chinês que está em construção em Djibuti como ponto de apoio aos barcos que combatam a pirataria no corno de África é uma base militar, o que é totalmente falso; sem esquecer que os Estados Unidos e alguns dos seus aliados, como a França e o Japão, dispõem de bases militares em Djibuti. O enclave tem uma enorme importância estratégica. Pelo estreito de Bab el-Mandeb passa a rota marítima mais importante que liga África à Ásia: Pequim quer manter seguras as suas vias de transporte e, além disso, garantir a saída de petróleo que o Sudão e o Sudão do Sul exportam para a China, que sai pelo Mar Vermelho e pelo estrito de Bab el-Mandeb. Por Djibuti passa também uma das rotas de contrabandistas e imigrantes, sobretudo etíopes e somalis que, apesar da guerra, se dirigem para a Arábia através do Iémen.

A influência ocidental em África continua indubitável: a França mantém uma considerável presença nos países que constituíram a África Ocidental Francesa e a África Equatorial Francesa, a União Europeia incrementou a ajuda militar aos países do Sahel (Chade, Níger, Mali, Burkina Faso e Mauritânia) em mais de cem milhões de euros e conseguiu que a Arábia contribua com outros cem milhões. Desde 2014, com a «imigração ilegal» e a «segurança» no centro das suas preocupações, a União Europeia contribuirá, em seis anos, com quatro mil milhões de euros. A França, velha metrópole, tem unidades militares destacadas no Chade, Burkina Faso, Níger e Costa do Marfim, entre outros países da região, como nos anos da Françafrique, enquanto Hollande interveio militarmente no Mali em 2013, com a desculpa de que ia fazer frente ao terrorismo e ia «defender cidadãos franceses», ainda que por trás estivessem os interesses da multinacional francesa de energia nuclear Areva, agora denominada de Orano. Em 2018, Paris tem quatro mil militares deslocados no Mali.

Por seu lado, os Estados Unidos contam com avultados efectivos em todo o continente, devido ao desenvolvimento militar e influência diplomática e à actuação das suas multinacionais, enquanto os seus serviços de inteligência estão muito activos, embora não evitem clamorosos fracassos como o do Mali. Washington tem como prioridade em África manter abertas e debaixo de controlo as vias de navegação no Mar Vermelho, no canal do Suez e no corno de África (onde converge com a China na sua luta contra a pirataria), preservando a aliança com Marrocos e o Egipto e o controlo do Magreb, além da exploração dos recursos do continente, ao mesmo tempo que tenta dificultar a colaboração económica da China com os países africanos; num segundo plano pretende controlar a evolução do sul de áfrica (Moçambique, África do Sul e Zimbabwe), combate grupos jihadistas e procura uma favorável estabilização política do Sahel e do coração de África, para facilitar a actuação dos interesses dos grupos económicos norte-americanos.

Por seu lado, a China, que estabeleceu relações com África nos anos sessenta, até finais do século XX não dispôs da força necessária para estar presente em todo o continente. Desde então, enquanto aplica a sua cautelosa política de fortalecimento da sua economia estabelece acordos estratégicos de colaboração e desenvolve uma política externa de fomento da paz, oferece projectos de infra-estruturas ferroviárias, construção de estradas, portos, aeroportos e cidades, ao mesmo tempo que reforça os laços diplomáticos e compra de matérias-primas para a sua indústria. Apesar de a China impulsionar sobretudo a colaboração económica, não descuida a relação política: em Novembro de 2017, sessenta dirigentes de partidos políticos africanos de mais de vinte países reuniram-se em Pequim com dirigentes do Partido Comunista Chinês, para abordarem critérios de governo, mecanismos de aplicação de um desenvolvimento económico sustentável e iniciativas para a defesa da paz no mundo. A China quer a paz e a estabilidade: sabe que estas são imprescindíveis para o seu próprio desenvolvimento.

Por sua vez a Rússia, que perdeu a influência dos tempos soviéticos, iniciou uma discreta colaboração económica com empresas mineiras na Nigéria, Angola, Namíbia e África do Sul, além de projectos agrícolas na Namíbia. Também o novo presidente do Zimbabwe (Emmerson Mnangagwa, que substituiu no final de 2017 Robert Mugabe, forçado a demitir-se pelo exército) se mostrou próximo de Moscovo, com quem quer manter colaboração na segurança e na defesa, No Egipto, a Rússia já firmou a construção de uma central nuclear em Al Dabaa, no que foi o maior contrato da recente história russa, que irá ser a mais moderna e com maior capacidade de África. Ainda em 2017, conseguiu iniciar a cooperação com o Sudão no campo da energia nuclear de uso civil, e Cartum e Moscovo assinaram um acordo no final do ano passado para a construção de uma central nuclear; apesar de tudo isto o papel da Rússia em África ainda é secundário.

África enfrenta hoje uma sucessão de perigosos conflitos, que convivem com esperançosas mudanças noutros países. Em Dezembro de 2012, começou a guerra na República Centro-africana e, no ano seguinte, em Dezembro de 2013, a guerra no Sudão do Sul, que ainda continua. O embargo de armas decretado pelos Estados Unidos fez com que o Sudão chamasse para consultas o seu embaixador em Washington, ao mesmo tempo que apresentava um protesto formal pela intervenção de Nikki Halley [actual embaixadora dos EUA nas Nações Unidas] no Conselho de Segurança da ONU criticando o governo presidido por Salva Kiir. Os Estados Unidos pressionam o Sudão; intervêm na guerra civil do Sudão do Sul; querem controlar o Quénia que sofre fortes ofensivas do jihadismo muçulmano; observam uma Eritreia isolada, tal como Djibuti, onde a China abriu a sua base logística, e a Somália hoje transformada num Estado falhado, onde ‘drones’ e aviões norte-americanos fazem frequentes bombardeamentos. No outro lado do corno de África prossegue a guerra no Iémen com Washington a recorrer ao braço executor da Arábia para fazer frente ao Irão. Na verdade, nessa grande região africana e asiática, encavalitada no Mar Vermelho, coincidem três das quatro crises humanas mais graves que, segundo a ONU, atormentam o planeta: Iémen, Sudão do Sul, Somália e Nigéria. O norte de África vive anos de convulsão. O derrubamento de Khadafi em 2011, depois de uma sangrenta intervenção da NATO, com os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a França como protagonistas, instalou no país um caos que, sete anos depois, ainda não terminou. Obama saudou calorosamente a notícia do assassínio de Khadafi, mas os Estados Unidos comprovaram que o seu intervencionismo tem custos: em Setembro de 2012, a sua representação em Bengasi foi atacada e quatro diplomatas foram mortos. Por causa disso Hillary Clinton teve sérios problemas com o Congresso. Em Agosto de 2013 os Estados Unidos evacuaram dezanove embaixadas e representações diplomáticas no norte de África e no Médio-Oriente: o Pentágono temia uma vaga de atentados terroristas ao ponto de, em Maio de 2014, Washington ter de enviar barcos de guerra para a costa da Líbia.

O caos que se seguiu devido à queda de Khadafi levou a instabilidade a boa parte do Sahel: no Mali, na Mauritânia e no Níger, grupos de combatentes armados que lutaram na Líbia reconverteram-se e combatem na zona; além disso os tuaregues, que prescindem de fronteiras e de países, conseguiram mais armas e são uma força considerável que opera sobretudo na Mauritânia, no norte do Mali, no sul da Argélia e no Níger. De facto, o caos já provocou a queda do presidente do Mali, Amadou Toumani Touré, no golpe-de-estado de Março de 2012 dirigido por Amadou Haya Sanogo, um militar formado e treinado nos Estados Unidos, pois os seus serviços secretos não conseguiram prever a acção do seu educando e desbarataram o dinheiro do programa norte-americano, de acordo com o New York Times de Janeiro de 2013: Os estados Unidos estiveram a treinar soldados que depois se passaram para o inimigo. Esta situação levou os tuaregues, que mantinham boas relações com Khadafi, a proclamarem o Estado Islâmico de Azawad numa zona de quase um milhão de quilómetros quadrados. O Movimento Nacional para a Libertação de Azawad (MNLA) dos tuaregues foi a organização que impulsionou a proclamação. Os Estados Unidos viram-se obrigados a ceder o seu lugar à França, pesem as rivalidades entre estes dois países pelo prevalecimento da influência na região do Sahel: Hollande enviou tropas para o Mali em Janeiro de 2013. A crise culminou em Setembro de 2013 com a eleição de Ibrahim Boubacar Keïta, um veterano político que levou o seu partido a participar como observador na Internacional Socialista. A acção dos grupos jihadistas, ligados ao Daesh ou actuando autonomamente, só acrescentou complexidade e perigo ao continente africano. Na região actuam organizações que se dedicam ao transporte de drogas, ao contrabando de armas, e que chegaram já ao extremo de criarem mercados de escravos na Líbia: Segundo a Agência Nacional para a Proibição do Tráfico de Pessoas da Nigéria, mais de vinte e cinco mil nigerianos foram retidos em acampamentos de escravos na Líbia.

Os Estados Unidos contam com uma base militar em Ougadogou, em Burkina Faso, cujos aviões voam sobre grande parte do Sahara, do Mali e da Mauritânia. Mantêm, além disso, grupos de operações especiais na República do Congo, no Chade, na República Centro-africana e Quénia (Camp Simba). Têm também uma base de drones em Niamey, capital do Níger, outra em Entebbe, no Uganda, com várias centenas de militares estacionados. Em Djibuti, Washington tem Camp Lemonnier, a grande base da USAFRICOM, com mais de quatro mil militares e aviões de guerra, a partir da qual controlam pelo menos mais seis bases de drones de vigilância em África. Têm ainda destacamentos no Mali, na Nigéria, na República Democrática do Congo, no Sudão do Sul, na Etiópia e na Somália.

A Nigéria (que tinha sido o principal produtor de petróleo em África até ser superada por Angola) continua a ser um dos países mais pobres do mundo, e vive numa situação de permanente crise com a população afundada na miséria. A Nigéria já procurou a ajuda dos Estados Unidos e Rússia na sua luta contra Boko Haram, mas a pressão terrorista do jihadismo africano continua. As ofensivas frases de Trump sobre alguns países americanos e africanos qualificando-os de «buracos de merda», levaram Abuya a protestar formalmente. No sul da Nigéria, a China mantém excelentes relações com o Gabão e Angola, países que apoiam Pequim na sua posição sobre o Mar da China Meridional; Angola tem na China o seu maior parceiro comercial, o destino principal do seu petróleo e o mais importante financiador da sua economia, além de um estratégico aliado.

O coração africano esvai-se em sangue com a interminável crise da República Democrática do Congo onde, em 1996, os Estados Unidos apoiaram a invasão do país com forças de Ruanda e Uganda, e agora debate-se com os protestos de Kabila pelo atraso das eleições, confrontos armados e deslocamento forçado de milhões de pessoas. No Sudão, a guerra civil arrasta-se desde os anos 80 do século passado no meio de um mar de pobreza e corrupção, tendo o conflito causado já mais de dois milhões de mortos, e onde, desde 1996, os Estados Unidos forçaram a Eritreia e a Etiópia, que se tinham já afastado desta guerra, a reentrarem nela apoiados por aviões de combate norte-americanos.

Os Estados Unidos apoiaram governos islâmicos em Cartum e também os rebeldes do sul, pressionaram as partes para pacificarem o território com o objectivo de a Chevron poder explorar as novas jazidas descobertas. Depois dos acordos de paz de 2005 e da independência do sul sudanês em 2011, os Estados Unidos puseram os ovos em todas as cestas, facilitando tanto o armamento de Cartum como o de Yuba. Dois anos depois da independência do Sudão do Sul, o presidente Salva Kiir Mayardit destituiu o vice-presidente, Riek Machar, acusando-o de organizar um golpe-de-estado, confronto que deu lugar a uma nova guerra, onde se verificam confrontos étnicos e, sobretudo, a luta pelo poder e pelos recursos petrolíferos do país, questão que interessa sobremaneira a Washington: não foi em vão que o Sudão foi um dos principais exportadores para a China, e os Estados Unidos pretendem agora limitar o acesso chinês a essa fonte de abastecimento. A Etiópia medeia a guerra civil entre os bandos dirigidos por Kiir e Bachar: um dos problemas acrescidos é o recrutamento de milhares de crianças para os grupos armados, além das constantes violações de mulheres e raparigas.

O intervencionismo norte-americano já de há muito é frequentemente associado uma profunda ignorância do Pentágono (o que contrasta com a rigorosa investigação desenvolvida pelas suas universidades) associada a uma arrogância militar que, no seu afã de domínio global, provocou já graves danos na região, envenenando e criando conflitos. Os Estados Unidos tentaram ocupar o vazio deixado por Moscovo na Etiópia e no Sudão, que mantinham boas relações com a União Soviética. Mantendo a rivalidade com a França, a maior preocupação norte-americana passou a ser a China, Os Estados Unidos criaram bases de treino militar na Etiópia para grupos armados que actuam na Somália, fizeram um acordo com o governo etíope para abrirem bases operacionais para os seus aviões de guerra que operam no Iémen e na Somália, além de criarem bases de drones em Arba Minch, junto aos lagos Chamo e Abaya, no sul do país. Os serviços secretos norte-americanos operam também a partir da Etiópia, um dos gigantes de África, onde a demissão do presidente Hailemariam Desalegn (da Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope, FDRPE, que chegou ao poder em 2012 iniciou a longa etapa de Meles Zenawi, depois de derrubar Mengistu) ilustra as dificuldades e disputas no seio da coligação governante, num quadro de crescimento económico (o «milagre etíope»), mas também de distúrbios, onde a FDRPE, de origens marxistas, ainda que dominando o parlamento teve que enfrentar os protestos que em 2016 provocaram numerosas mortes. No plano internacional, Hailemariam mantem uma aliança com os Estados Unidos nas guerras da Somália e do Sudão do Sul, e no dispositivo militar norte-americano contra o terrorismo, pelo que, na prática, a diplomacia norte-americana protege o governo etíope com um seu instrumento para o controlo do corno de África, ainda que a presença chinesa se faça notar: a China é já o principal destino das exportações etíopes. O seu exército é um dos mais poderosos de África e, desde 2006, há tropas etíopes na Somália enviadas por pressão norte-americana. Os Estados Unidos intervieram na Somália a partir dos anos noventa, e tanto Bush como Clinton enviaram dezenas de milhares de soldados, após o que financiaram grupos armados somalis para fazerem frente à coligação muçulmana (apoiada pela Arábia), que se apoderou de Mogadíscio em 2006. O país encontra-se numa situação catastrófica: a ONU contabilizou nos últimos anos milhares de mortos civis, centenas de sequestros e milhares de detidos arbitrariamente pelas forças governamentais e por bandos armados, enquanto os Estados Unidos intervém regularmente bombardeando destacamentos do grupo jihadista Al Shabab (relacionado com a Al-Qaeda), apoia o actual governo somali e mantém grupos de operações especiais no país para treinamento das tropas governamentais e missões secretas, tanto na Somália como no corno de África.

A grande bacia do Nilo é também cenário de perigosas tensões devido à prevista construção de uma barragem naquele rio (na Etiópia, perto da fronteira com o Sudão, que passaria a ser a maior de África), que o Cairo teme venha a afectar o caudal que chega ao seu território. Essa barragem etíope será construída com financiamento chinês e do BAFD, Banco Africa para o Desenvolvimento, de que fazem parte cinquenta e três países africanos. O demitido presidente etíope Hailemariam Dessalegn, durante a sua visita ao Cairo em Janeiro de 2018, afirmou que a barragem e a central hidroeléctrica que o seu país constrói no Nilo não teriam consequências negativas para o Egipto, mas a desconfiança reina. Mais de sessenta por cento da construção está concluída e deve terminar em 2019. Apesar das tranquilizadoras palavras de Dessalegn, as divergências entre a Etiópia, o Sudão e o Egipto não terminaram e poderão desencadear um conflito militar pela partilha do Nilo. Países como Quénia, Tanzânia, Ruanda, Burundi Uganda, Sudão do Sul e Djibuti, que esperam vir a receber electricidade mais barata, apoiam a Etiópia frente ao Egipto. Com essa barragem a Etiópia passará a ser outro gigante africano de produção de energia eléctrica, juntamente com a África do Sul.

A esta situação junta-se a tensão entre o Sudão e o Egipto: o Cairo destacou unidades militares para a Eritreia, na fronteira com o Sudão. A política externa sudanesa foi frequentemente errática com a mudança de aliados: a Turquia mantém boas relações com o Sudão e a visita de Erdogan a Cartum, em Janeiro de 2018, foi vista com grande desconfiança pelo Cairo. Cartum retirou já o seu embaixador no Egipto e, como se não faltassem razões de incerteza nesta região, as disputas no Golfo desde 2016 configuraram dois lados entre os países muçulmanos da zona: um, composto pela Arábia, Egipto, Emiratos Árabes Unidos e Bahrein, e um outro de que fazem parte o Irão e a Turquia que se aliaram com Doha. O Egipto desconfia também do aluguer à Turquia da ilha sudanesa de Suakin (no litoral, a sul de Porto Sudão e a norte da costa Eritreia) por noventa e nove anos. Ancara e Cartum anunciaram que é para o desenvolvimento turístico do Mar Vermelho, mas Cairo desconfia que a Turquia tem prevista para aí uma base militar, como ponto de apoio para o controlo do trânsito no Mar Vermelho. Também a presença de barcos turcos é vista com desconfiança pelo Egipto e pela Arábia. Além disso, o Egipto e o Sudão disputam a soberania do rico em petróleo triângulo de Halayeb, situado na costa. Em Maio de 2017 o presidente sudanês, Omar Bashir, acusou o Egipto de intervir no conflito de Darfur, que se arrasta há anos e já foi utilizado pelos EUA como forma de pressão sobre a China. O general Sisi, presidente golpista do Egipto, negou a intervenção, ainda que o seu governo acuse o Sudão de cumplicidade com a Irmandade Muçulmana, do derrubado presidente Morsi, que também recebem o apoio da Turquia.

É neste complexo cenário que a China trabalha as infra-estruturas. A construção do caminho-de-ferro Adis Abeba-Djibuti, inaugurado em Outubro de 2016, e a mais recente construção pela China da linha de caminho-de-ferro Mombasa-Nairobi, o maior projecto da história do Quénia, ainda alarmou mais os Estados Unidos, que temem o aumento de influência de Pequim. Além disso, a China está disposta a prolongar esta via, investindo outros 4.000 milhões de euros para levar o caminho-de-ferro até à região dos Grandes Lagos e o interior do continente, até ao Sudão do Sul, Uganda, Ruanda e Burundi, países que dessa forma poderiam uma saída para o mar através do grande porto queniano de Mombasa.

No sul de África, para além da destituição de Mugabe no Zimbabwe, as alterações verificam-se também em Angola, onde João Lourenço substituiu José Eduardo dos Santos (que estava no poder desde 1992), e a África do Sul onde Cyril Ramaphosa sucedeu ao corrupto Jacob Zuma, numa transição cheia de perigos para o Congresso Nacional Africano. Os três países são governados pelos movimentos de libertação que conseguiram a independência dos respectivos países ou o fim do apartheid, e Pequim mantém boas relações com todos eles. A China, que apenas estabeleceu relações diplomáticas com a África do Sul há vinte anos, assinou em 2010 com Pretória a Declaração de Pequim, e ambos os países assinaram a Associação Estratégica Integral (AEI), que converteu a China em principal parceiro comercial da África do Sul. No vizinho Botswana, Pequim construiu a central eléctrica de Moruple que produz noventa por cento da electricidade do país.

A China prossegue a sua estratégica colaboração com países de todo o planeta, assegurando o benefício mútuo, afastando conflitos, trabalhando no desanuviamento, pois necessita de um ambiente pacífico para assegurar o seu desenvolvimento económico e consolidar o socialismo chinês, consciente que os Estados Unidos não querem renunciar às suas prerrogativas imperiais e continuam a recusar um tratamento entre iguais: enquanto a China quer evitar a extensão do incêndio do Médio Oriente pelo mundo, os Estados Unidos continuam a recorrer à guerra como instrumento de imposição do seu diktat. As velhas potencias coloniais europeias retrocederam no continente africano, e hoje a jovem África, ainda envolta num mar de pobreza mas também de projectos de futuro, quer deixar de ser o vizinho infeliz, condenado pelos poderes capitalistas do planeta a contemplar, extenuado, o espólio das suas riquezas; vê como a França resiste a abandonar o seu papel de patrão no território e como os Estados Unidos estendem os tentáculos do Pentágono e das suas multinacionais, criam novas bases militares e levam o medo e a guerra, ao mesmo tempo que a China se tornou numa esperança que passa pelo desenvolvimento. África olha-se ao espelho chinês.

* Publicista e historiador

Este texto foi originalmente publicado em:
http://www.elviejotopo.com/articulo/africa-en-un-espejo-chino/

Tradução de José Paulo Gascão

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