AKK vai à guerra*

Jorge Cadima    27.Nov.20    Outros autores

Para os patetas que achavam que o agravamento das tensões internacionais melhoraria com a saída de Trump, o recente discurso da ministra da defesa da Alemanha deveria ser elucidativo. O “ocidente” capitalista há muito que retomou o partido da guerra. Que este discurso provenha da Alemanha, que por duas vezes no século XX levou o país e a Humanidade à tragédia, é ainda mais esclarecedor.

A ministra alemã da Defesa, Annegret Kramp-Karrenbauer (AKK), fez um discurso a 23 de Outubro com o que chamou uma «oferta»: a Alemanha renova uma parceria subordinada aos EUA – a Westbindung – para combater a Rússia e a China. Diz AKK: «a Westbindung é e permanece uma clara rejeição da tentação histórica da equidistância […] amarra-nos firmemente à NATO e à UE e […] posiciona-nos contra uma fixação romântica com a Rússia». E para que não haja dúvidas: «o Ocidente como um sistema de valores está todo ele em risco. Tornou-se de novo essencial que a Alemanha confirme o seu compromisso com o Ocidente. […] Só a América e a Europa juntas podem manter o Ocidente forte, defendendo-o contra a inequívoca sede russa de poder e as ambições chinesas de supremacia global». Tradução: a inequívoca sede de poder e ambição de supremacia global euro-americana não deixa espaço a terceiros.

Para AKK, a Westbindung não é uma aliança entre iguais e assenta sobre a força militar. Diz que «temos de saber viver com um paradoxo: por um lado a Alemanha continua a depender da protecção estratégica da América. Por outro lado, deve ao mesmo tempo tornar-se um defensor activo da ordem Ocidental. Permanecendo um receptor em termos estratégicos, a Alemanha tem de simultaneamente tornar-se um dador estratégico muito mais assertivo. […] Ser um receptor é ser-se dependente, não ter total autonomia estratégica». Mas se para ir à guerra é preciso ser capataz, que assim seja: «A Westbindung e a emancipação alemã em termos de política de segurança estão intimamente associadas. Sermos parte do Ocidente mede-se também pela nossa disposição em defendê-lo. Não apenas por meios militares, mas também». AKK quer reforçar a presença militar da Alemanha «na região do Báltico, no Mar do Norte, nos Balcãs e no Mediterrâneo». Faz lembrar o Lebensraum (espaço vital) hitleriano, embora ainda não tenha chegado o tempo de falar no Volga. Não há COVID que os trave: «temos de provar que levamos a sério a nossa defesa […]. Demos um bom exemplo com o Orçamento para 2021: as despesas com a defesa não serão cortadas apesar da COVID-19. Pelo contrário, terão até um ligeiro aumento». Deixando a posse de armas nucleares para os EUA, AKK acha que «a Alemanha tem de se comprometer muito firmemente com a prossecução da partilha nuclear no seio da NATO e atribuir-lhe os recursos necessários». Mesmo que o povo alemão não queira: «às vezes nem pode ser verbalizado […] não é algo popular, mas tem de ser feito».

AKK discursou antes das eleições nos EUA. Fez questão de salientar que «fazemos esta oferta independentemente de quem ganhe». As quezílias com Trump são secundárias. AKK quer ir à guerra, nem que seja de mãos dadas com o KKK (Ku Klux Klan). Para recordar, quando nos falarem dos nossos parceiros e obrigações no seio da UE.

O discurso de AKK faz luz sobre a patranha do envenenamento de Navalny. A remilitarização da Alemanha, que por duas vezes no século XX levou o país e a Humanidade à tragédia, é inseparável das mentiras de guerra. Merkel e AKK como Bush e Colin Powell. São os valores ocidentais. Na Westbindung, os serial killers (assassinos em série) são invariavelmente serial liars (mentirosos em série).

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2452, 26.11.2020

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