Alguns aspectos da luta ideológica

Georges Labica *    18.Oct.06    Colaboradores

Que resposta é possivel dar a esse fenómeno de extrema pertubaçãoo que atinge certos intelectuais de esquerda e os leva à submissao ? A resposta encontra-se na situação actual.

Sem me enredar num extenso preambulo, proponho-me falar de nós, isto é, dos intelectuais. Ano dos intelectuais em geral, cuja definição seria muito incómoda, mas de nós, os intelectuais que invocamos o marxismo ou que nos assumimos como marxistas, portanto revolucionários, porque as duas palavras são em principio equivalentes. Não é culpa minha se as separaram. A questão de que partirei é a seguinte: será que, precisamente por essa equivalência, queremos ainda hoje transformar o mundo ou participar na sua transformação? O ponto prévio implica uma pergunta: que mundo devemos transformar? O que nos leva a interrogar as representações, ou seja a ideologia que Ernst Bloch, no seu Principio Esperança, definia como sendo «a harmonização prematura das contradições sociais».

Expresso já o meu sentir que assenta sobre a constatação de um duplo atraso, nosso, devendo esse «nosso» ser entendido colectivamente, nem vós nem eu sem duvida, como indivíduos citados. Trata-se de um atraso relativamente à ideologia dominante, o liberalismo, e de um atraso sobre o próprio real e a consciência ainda difusa que dele captam os trabalhadores. Numa palavra, não estamos à altura das tarefas que são as nossas ou que devemos assumir. Duas fórmulas traduzem o espaço dessa carência .A primeira é antiga, vem de Julien Benda, fustigando, noutra época, «La trahison des clercs». (1)

A segunda, mais próxima, evoca «o silêncio dos intelectuais». Permiti que me refira a dois períodos sucessivos, o de demasiada ideologia e o de ausência de ideologia. Durante os anos 60 e o início dos 70 enfrentamos uma verdadeira inflação que se traduzia pela multiplicação dos ismos: estalinismo, trotskismo, altusserismo, esquerdismo, maoismo, revisionismo, etc., e os choques dela resultantes tinham a peculiaridade de ocorrerem no mesmo campo ou na mesma família, de irmãos inimigos. Esqueçamos o debate sobre a natureza dos acontecimentos, revolucionários ou não, o que não interessa aqui. Registemos que essa «abundância» fazia a fortuna de editores de todas as obediências. Ela tocava aquele que lançasse mais rapidamente o seu Bukharine, o seu Preobrajenski, o seu Pannekoek, o seu Pasukanis, ou, claro, o seu Marcuse, abandonando os clássicos, Marx, Engels e Lenine nas suas editoras tradicionais (na França sobretudo as Editions Sociales).

Era chic opor qualquer «herege» à «ortodoxia comunista». Impunha-se a velha regra segundo a qual a simples publicação das obras contestatárias corresponde ao estado das lutas sociais.

Comparado com esse período o nosso é totalmente diferente. Caracterizo-o recorrendo à metáfora dos «três muros», do muro de Berlim ao muro do silêncio, que dissimula o muro do dinheiro. É aquilo a que chamaram «o fim das ideologias». A expressão, devida a um intelectual que não pertence à categoria que citei, e que é um intelectual a serviço do Pentágono, isto é do outro «campo», não é destituída de interesse. Ela regista literalmente um traço importante da nossa situação, o facto de que o fim dos grandes choques não é apenas consequência do afundamento dos países do socialismo dito real, e portanto do desaparecimento do principal concorrente do capitalismo, que valia o que valia, mas sim a constatação de um fim, pois somente permanece na pista a ideologia liberal.

Esse fim, acompanhado de tantos louvores sobre a assimilação de um mercado - democracia nada tem de uma declaração de princípio ou de uma decisão filosófica, como por vezes se admitiu. Corresponde exactamente à fase de desenvolvimento do modo de produção capitalista. Marx colocou a hipótese quando falava do «fetiche autómato», da equação «A –A’» na qual o dinheiro gerava dinheiro como a pereira dá pêras. O reino do capital financeiro, da especulação e da bolsa, dispensa qualquer referência teórica, mesmo imaginária. Não tem sequer necessidade de outra temporalidade: Fukuyama tem razão, é «o fim da história» que explica a morte de qualquer «narrativa», grande ou pequena. Os economistas, e sublinho que não tenho nada contra eles, ilustram bem esse fenómeno. Os seus diagnósticos da inflação da recessão, da estagflaçao, da variação das taxas, etc., demonstram a incapacidade prever antecipadamente o que resultará da «regulamentação pelo mercado», isto é da anarquia da bolsa. Nisso assemelham-se aos meteorologos, contra os quais também nada tenho, e que se sentem mais seguros ao falar do tempo que fez do que ao prever o que vai fazer.

O liberalismo é uma doutrina da instantaneidade. O projecto, ou melhor dizendo, a acção concertada dos indivíduos que obedecem a um plano não ocupa espaço nele. O winner (vencedor) de hoje é o looser (vencido) de amanhã. Como excelente conhecedor, o Sr. Soros ensina-nos sobre o assunto mais do que muitas sábias (e ôcas) análises. Acrescentarei que do financeiro ao político a consequência disso é positiva no tocante aos indivíduos submetidos a esses infortúnios, e também os métodos, porque nas nossas sociedades a gestão tomou o lugar da política.

A ausência ou o apagamento, generalizados, e ora festejados ora lamentados, de uma demarcação entre direita e esquerda nas práticas de governo não têm outra origem. As políticas liberais, sejam elas conservadoras e reaccionárias ou social-democratas, um pouco mais «sociais» aqui, ou que pretendam sê-lo, e um pouco menos ali, duras ou frouxas, avançam, por definição, para consensos de gestão, que se acomodam, para a galeria, com alguns bemóis, abusivamente apresentados como «alternativas». É por isso que o liberalismo é a ideologia do fim das ideologias. São conhecidas as adesões que suscitou. Não evoco de memória, porque seria muito fácil, esses «revolucionários» de Maio de 68 convertidos em altos funcionários, em grandes empresários, em patrões da imprensa ou em deputados verdes ou rosa, cujos itinerários são suficientes para semear a duvida sobre a natureza dos seus compromissos juvenis… Não menos desprezível do que esses «planos de carreira» é a atitude daqueles que permaneceram ligados ao desejo de mudança social no seio de formações comunistas ou socialistas, ou sem filiação partidária, mas que, esmagados por uma consciência de culpabilidade histórica, não conseguiram nem pôr fim ao seu luto nem, sobretudo, posicionar-se criticamente perante o triunfo do neoliberalismo. Tudo se passa como, transcorridos quinze anos, eles tentassem fazer esquecer o seu período qualificado de «sectário» pelos seus adversários e por vezes por eles próprios, não obstante o período em causa, pelas circunstancias, ter sido objecto, precisamente por intelectuais marxistas, dos exames mais rigorosos e menos condescendentes. A verdadeira censura não é essa. Ela denuncia no dogmatismo a pretensão do monopólio da verdade e nos dogmáticos a vontade de o fazer partilhar e mesmo de o impor a isso que convêm, uma vez por todas, renunciar, essa a pele que se deve jogar fora.

Marxismo e veritá, eis o pólo do nosso Colóquio. Infelizmente a lição que daí retiram os nossos intelectuais de «esquerda» leva a uma total inversão. Segundo eles, a verdade não existe ou «a cada um a sua verdade», como dizia Pirandello. Daí as virtudes atribuídas ao dialogo, ao debate, à confrontação de pontos de vista, ou, mais uma vez, ao consenso. Essa má consciência dilui-se na noite em que todos os gatos são pardos. Acrescentarei que, apesar das aparências, o seu conformismo ideológico leva à antiga atitude.

Tal como afirmava a personagem de uma vinheta humorística que apareceu na imprensa da RDA após o anuncio da dissolução do Partido: «Das Partei hat immer Recht!» («O Partido tem sempre razão».)

A adopção do vocabulário da ideologia dominante, do qual não posso falar muito, reflecte com docilidade esse deslizar, tanto pelas palavras apagadas – classe, por exemplo- como pelas promovidas, como cidadão, servida com todos os temperos. O exemplo dos países socialistas, correndo para a democracia dos supermercados sob os aplausos de conjunto do «mundo ocidental» caminha na mesma direcção.

Permiti-me que ilumine um pouco essa demissão do pensamento crítico. O enorme êxito de venda, primeiro nos EUA, que obteve a obra de Hardt e Negri, é bem revelador. Refiro só esse aspecto, porque na Itália o Ernesto fez o que era necessário para sublinhar que esse tijolo indigesto prestou o grande serviço de resolver a questão dos rótulos. O imperialismo assume o perfil de o Império, enquanto as classes desaparecem na multidão. Pronto, a consciência infeliz pode assim retomar forças e cores, a fim de introduzir um pouco de rosa no debate liberal, no momento preciso em que parece impensável qualificar como imperialismo a política internacional do capital e falar de classes para compreender as formas emergentes das lutas anti-sistémicas. A querela em torno do «anti-americanismo» que, em França, se mede já em quilos de papel impresso e em algazarra de injúrias é também esclarecedora.

A «esquerda» encontra-se literalmente encurralada na defensiva perante a acusação, trombeteada pelos médias que fundem numa amálgama anti-americanismo, anti-sionismo e anti-semitismo. Em nome da recusa de considerar imperialista a política dos EUA e colonialista a do Estado de Israel, essa «esquerda» deixa-se envolver na rede da ideologia dominante da qual se tornou vassala.

O diário Le Monde (11.04.03) transcreveu da Republica um artigo de Adriano Sofri, que permanece preso como esquerdista, no qual Sofri, justificando os objectivos de guerra estadunidenses no Iraque, e assumindo a defesa de Israel, se declara «pelo ocidente sem maiúscula». Como se verifica, as preocupações lexicais figuram no primeiro plano. Só falta elaborar a teoria pós-moderna do desaparecimento das fronteiras, estabelecida entre a esquerda e a direita cantar a Internacional votando por Chirac nas eleições presidenciais de 2002. Alguns Think Tanks, à francesa, podem também gabar-se de reagrupar patrões de empresas, banqueiros, políticos conservadores eleitos, e responsáveis comunistas e socialistas. O cúmulo foi atingido, na verdade toca-se no fundo, com a campanha, de uma rara violência, contra Cuba após o recente processo e as condenações à morte pronunciadas. Algumas das mais altas consciências morais progressistas e certos tenores políticos não hesitaram em juntar o seu protesto ao concerto da reacção internacional. Um Saramago e um Wallerstein ao misturarem o seu Basta! às ameaças do Pentágono contribuíram para que a confusão atingisse o auge. De Paris, Alain Krivine, dirigente da Liga Comunista revolucionária, não ficou atrás e o PCF destaca-se entre os seus homólogos pela recusa de manifestar qualquer forma de solidariedade. Em pleno clima de agressão imperialista mundializada que grande vitória para a ideologia dominante!

Porque é bem do imperialismo que se trata e da réplica anti-imperlialista a dar-lhe. Contrariamente ao que se procura atribuir à expressão anti-americanismo, o imperialismo não se limita apenas aos EUA, engloba a «troika» com a Europa e o Japão incluídos. Entretanto, impõe-se uma distinção entre o imperialismo dominante e os imperialismos subalternos.

A concorrência que continua a dividi-los não se assemelha em nada à de outrora, que podia levar aos conflitos armados; não ultrapassa a linha das declarações de intenção. Isso é transparente, como previsto, nos esforços desenvolvidos pelos «anti-guerra», os Chirac e outros Schroeder, para retomarem o seu lugar na santa aliança, após a «vitória» alcançada pelo padrinho da Casa Branca. E a Europa, que nada fez durante décadas para forçar Israel a respeitar o direito internacional, apressa-se a votar sanções contra Cuba.

Uma ultima observação. Ela incide sobre a resposta que é possível dar a esse fenómeno de extrema perturbação que atinge os intelectuais e os condena à submissão. A resposta encontra-se na situação actual. Que aconteceu após o famoso 11 de Setembro de 2001 qualificado de «bênção» (Hanouka) por um dirigente israelense? Os EUA optaram definitivamente pela guerra como política, ou, segundo a expressão do Sr. Bush», «a guerra infinita» que leva à teoria da «guerra preventiva». Convêm inverter a formula, tão desgastada, de Clausewitz: a política é a continuação da guerra por outros meios. Essa opção ajusta-se à história dos EUA. Não insistirei, excepto para sublinhar que está na linha de uma tradição que confere à liberdade um valor central como nos recordava recentemente Ugo Dorti. Que liberdade? A de tomar iniciativas que nem sequer são embelezadas, a que quer vencer para dominar, ainda anteontem os índios – talvez o único genocídio quase concretizado- ontem os negros, sempre alvo de discriminações ferozes, e nos nossos dias, os muçulmanos que sucederam aos vermelhos, ficando claro que é sempre indispensável a invenção de um inimigo. A linguagem de um maniqueísmo infantil pretende vestir de religião a defesa e a apologia da propriedade. A tradição da «velha Europa» parece um pouco diferente no sentido de que a categoria da igualdade – produto das lutas populares e não caída do céu – desempenha aí um papel privilegiado, mesmo no seio das direitas, forçadas a integrá-la no seu discurso. Sem dúvida, o Éden dos direitos do homem, em que reina apenas a troca mercantil, trata de apagar as diferenças, reservando a mesma sorte liberal à igualdade e à liberdade, mas uma certa resistência acaba por se manifestar.

Deixo com pena esta tipologia para voltar à actualidade. Intimamente ligados, o discurso da segurança e o discurso do terrorismo acham normal proibir qualquer outra forma de expressão e garantem o hegemonismo militar-económico da super potência. Nessa lógica, a militarização invade o domínio económico e as políticas liberais desmantelam o público, o nacional e o social, multiplicando as medidas repressivas. Ora é precisamente essa situação que confere vigor e eficácia aos conceitos marxistas. Dá-lhes visibilidade simultaneamente no plano da inteligência das contradições do trabalho no mundo – sobre as quais nenhuma outra teoria apresenta um quadro satisfatório e no plano das práticas em curso de altermundializaçao, por mais heterogéneas que sejam. Já lembrei que os responsáveis políticos do «campo da paz» se apressaram a juntar-se ao vencedor, mas não devemos subestimar a opinião popular que, numa maré sem precedentes, no mundo inteiro, os apoiou e muitas vezes antecipou de modo radical. Porventura essa atitude não traduz um poder de contestação que terá de ser levado em conta?

Para os intelectuais que dizem ser marxistas ou se identificam com uma esquerda digna desse nome chegou portanto a altura de se assumirem como tal. Que vão para o diabo as culpabilidades, prudências e covardias, a exigência de declarar a que campo se pertence volta a ser actual. É antiga e os seus títulos de nobreza enraízam-se numa tradição marcada por nomes como Voltaire, o caso Dreyfus, as guerras do Vietnam e da Argélia, Sartre, Genet e, mais perto de nós, Bourdieu. Podem invocar todos os pós que quiserem - modernismo, capitalismo, socialismo … - não conseguirão esconder que as relações sociais continuam a ser determinadas pela luta, pelo conflito, e não pelo «diálogo» e as suas manigâncias.

A relação de forças e a luta de classes que assumiram dimensão internacional com a globalização conservam o seu valor de critérios. Sim, existem inimigos, patifes, traidores. Portanto não é necessária nenhuma verdade revelada para romper os espelhos politico-mediáticos, basta permanecer do lado dos dominados e estar consciente daquilo para que serve o seu combate. Sem duvida a lucidez não é transparente tal como as grandes causas; mas os meios teóricos permitem captar, sob aparências enganadoras e mentiras, a positividade (de classe) contida, por exemplo, no anti-americanismo, na anti-globalizaçao ou nos choques sociais diários.

Se é evidente que «a verdade» chateia, como dizia o circunspecto Valéry, sejamos, com o Incorruptível (Robespierre), os seus incómodos guardiães.

1. A palavra clerc, clérigo em português, tem no livro de Benda o significado de intelectual.

Tradução de Miguel Urbano Rodrigues

* Georges Labica, professor na Universidade de Paris, autor do «Dicionário crítico do Marxismo» e de duas dezenas de livros sobre temas filosóficos e políticos, é um dos mais eminentes pensadores franceses contemporâneos. O ensaio que divulgamos foi publicado pela primeira vez na revista Marxismo Oggi, de Roma, em 2003. Não perdeu actualidade.

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