Allende, ontem e hoje

Carlos Fazio*    04.Sep.08    Outros autores

Carlos Fazio“O pensamento vivo de Allende não é o que Allende pensava, é o que pensam os chilenos de hoje», disse Pablo Gonzalez Casanova recentemente em Madrid. “E em parte, isso tem que ver com a distorção da memória. Com a inconsequência entre o discurso e os factos. Com as diferenças entre o país formal e o Chile real. Mas também com o «empobrecimento» de palavras como libertação, democracia e socialismo, desprovidas do seu sentido humanista, anticapitalista e anti-imperialista por políticos e parlamentares neo-liberais que se dizem socialistas”

Madrid. Há dias, no Escorial, um dos símbolos do nacional-catolicismo espanhol encarnado pela ditadura de Francisco Franco, teve lugar um seminário sobre O pensamento vivo de Allende. Partindo de visões diferentes, um grupo de académicos e jornalistas, convidados pela Universidade Complutense e La Jornada, analisámos a vida e coerência política do dirigente chileno Salvador Allende, principal construtor da via pacífica para o socialismo que culminou em 1973 com o golpe de Estado do general Augusto Pinochet.

Como disse com precisão Pablo Gonzalez Casanova, «o pensamento vivo de Allende não é o que Allende pensava, é o que pensam os chilenos de hoje». E em parte, isso tem que ver com a distorção da memória. Com a inconsequência entre o discurso e os factos. Com as diferenças entre o país formal e o Chile real. Mas também com o «empobrecimento» de palavras como libertação, democracia e socialismo, desprovidas do seu sentido humanista, anticapitalista e anti-imperialista por políticos e parlamentares neo-liberais que se dizem socialistas.

Allende entendia a democracia como participação. «A democracia vive-se, não se delega», dizia. E como político em campanha pugnou sempre «por consciências que votaram e não por votos sem consciência nem ideias, sem princípios nem doutrina». Impulsionou uma democracia plena para romper com o sub-desenvolvimento; uma mudança social democrática à chilena. A sua, repetia, era uma «revolução não exportável». Bem cedo, soube detectar o surgimento de uma burguesia rapace transnacional, e contra esse poder económico defendeu o projecto social de longo prazo da Unidade Popular (UP), dentro da legalidade burguesa que tinha herdado.

Na sua luta contra a «colonização do pensamento» utilizou o marxismo como método de análise, não como receita. E somou-lhe os valores universais da revolução francesa e a experiência acumulada pela esquerda chilena desde finais dos anos 30, quando o radical Pedro Aguirre Cerda liderou a Frente Popular. Segundo Joan Garcés, em 1939, perante a sangrenta imposição do franquismo em Espanha e a capitulação da terceira república em França, Aguirre Cerda conseguiu suster o golpe porque na Casa Branca estava Franklin D. Roosvelt. Mas em 1973 Allende e a UP não puderam deter o golpe de Pinochet, porque um «delinquente» governava os Estados Unidos: Richard Nixon.

Nixon disse que tinha que «fazer uivar de dor a economia chilena». E ordenou à Agência Central de Inteligência (CIA) a execução de um plano de desestabilização de acordo com os parâmetros da guerra psicológica contra-insurrecional. Para isso, Washington contou com a cumplicidade das multinacionais ITT, Anaconda e Keneth Copper, e a dos poderes reais chilenos. Particularmente com a velha oligarquia, afectada pelas nacionalizações dos sectores mineiro e bancário e pela reforma agrária de Allende. Também se aproveitou o mito da constitucionalidade das forças armadas; Recorreu-se ao terrorismo mediático do gruo Edwards e somou-se a legitimação ideológica da hierarquia católica conservadora que sacralizou o terrorismo de Estado, através do que Frank Hinkelammert chamou a «teologia do massacre».

Nesse contexto, o golpe de Pinochet não foi quartelada comum. Para além da sua qualificação de fascista ou bonapartista, a junta militar consumou a contra-revolução burguesa. Não uma ditadura qualquer: foi um modelo desenhado e implementado a partir dos centros hegemónicos de Washington com o objectivo de assegurara preservação do sistema de dominação capitalista. O Chile foi um laboratório que teve nas forças armadas a sua coluna vertebral e o último suporte da fortaleza de um novo Estado autoritário e classista, como instrumento dos clãs monopólico-financeiros.

A ferro e fogo, sob a tutela dos militares facciosos, chegava ao seu fim o modelo desenvolvimentista do capitalismo dependente na América Latina, e começava uma nova fase de acumulação sob a hegemonia das transnacionais. Com a Doutrina de Segurança Nacional na mão, o Chile converteu-se no projecto-piloto do neo-liberalismo. As profundas mudanças nas estruturas económicas, sociais e políticas foram acompanhados por esforços para destruir os padrões éticos, ideológicos e culturais da sociedade chilena, a fim impor outros baseados no consumismo, no individualismo e na competitividade interpessoal. Sob a retórica da livre empresa e a defesa do «deus mercado», pretendeu-se encobrir o desígnio de colocar todo o aparelho estatal ao serviço dos lucros do capital privado, doméstico e estrangeiro. Além disso, o «processo de purificação» dos golpistas teve, entre outras tarefas, a despolitização da cidadania, eliminar a sociedade política e apagar o pensamento democrático de Allende.

No seu discurso final, com La Moneda em chamas, Allende reiterou que queria ser recordado «como um homem digno que foi leal à sua pátria». A política também implica um exemplo moral. Não um qualquer que tem valor para morrer como morreu Allende. Até nisso disse o que pensava e fez o que disse. E apesar de parecer mal a alguns segmentos da «esquerda» que acabaram por assimilar a ideia de que a simples discussão sobre o itinerário pinochetista de transição constituía uma posição«sectária» - assim o escreveu Dário Salinas – o exemplo de Allende é uma herança. O seu pensamento e o seu projecto continuam vigentes, hoje que que a concertação governante deu por acabada a «transição» no Chile.

O allendismo é um modo de entender a história, de construir a história. A história constrói-se com valor pessoal, com coerência, com compromisso, não com calculismo político nem aprisionado a um pragmatismo intranscendente. Tudo isso também se faz sonhando. E Salvador Allende foi um grande sonhador.

* Jornalista mexicano

Tradução de José Paulo Gascão

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