América entra de novo na Somália

Najum Mushtaq*    29.Mar.07    Outros autores

Ataque aéreo“A intervenção militar directa dos Estados Unidos na Somália está mal programada e concebida. A postura agressiva dos EUA, tanto no mar como no ar, antagonizou o povo somali sem ter feito nada de significativo no que toca aos operacionais suspeitos da al-Qaeda e os seus aliados somali. Na sua perseguição a alguns indivíduos os Estados Unidos só ganharam a fúria das massas…”

Um dia antes dos aviões norte-americanos atacarem lugares suspeitos da al-Qaeda na Somália, a Secretária de Estado Adjunta norte-americana, Jendayi Frazer, expressou em Nairobi a forma como gostaria que funcionasse a liderança. “Algumas pessoas gostariam que os EUA liderassem nesta matéria”, disse ela. “Eu preferia que liderássemos na retaguarda, e o que quero dizer com isso é que, primeiro devemos pressionar o povo somali, depois a sub-região, e só então mobilizar os recursos da comunidade internacional”. Mas as palavras da Administração Bush nunca são o que parecem ser. Muitas das vezes, tal como o depoimento da Senhora Frazer, querem dizer precisamente o contrário. Em vez de ser o povo somali a liderar a mudança no futuro do seu próprio país – uma possibilidade para que Frazer aludiu no culminar da recente vitória da Etiópia sobre a União das Cortes Islâmicas (UCI) e o regresso do Governo Interino, apoiado pelos Estados Unidos, para Mogadishu na véspera do Ano Novo – mais uma vez os Estados Unidos correram para uma acção militar. Não foi a preocupação humanitária com o eterno sofrimento do povo somali que motivou o seu envolvimento. Em vez disso foi o zelo ideológico de Washington e a sua guerra mal concebida contra o terrorismo que o levou a esta mais recente investida noutro campo de batalha da Jihad.

Os ataques dos E.U.A

O primeiro ataque deu-se a 8 de Janeiro em Ras Kamboni, na ilha de Badmadow. Esta região de pastores e de escolas religiosas próxima da fronteira com o Quénia, é suspeita de ser uma base de treinos da milícia islâmica, bem como é mencionada como destino do núcleo principal de liderança da UCI e dos milicianos foragidos para Mogadishu e a seguir Kismayo. Os jornalistas sediados em Mogadishu dizem que em vez de matarem os seus alvos – suspeitos da al-Qaeda implicados no bombardeamento em 1998 às embaixadas americanas em Nairobi e Dar-es-Salaam – os ataques aéreos mataram muitos civis somalis que se acreditava terem dado abrigo aos suspeitos.

O ataque americano foi executado em conjunto com forças de reconhecimento etíopes e possivelmente quenianas. Desde a invasão etíope, o Quénia aumentou consideravelmente o seu número de tropas na fronteira, com o objectivo de impedir que as milícias da UCI, as suas famílias e simpatizantes passassem como refugiados.

Mais ataques se seguiram no que parece ser uma série de investidas numa perseguição fervorosa à al-Qaeda. Quatro civis, incluindo uma criança, morreram num segundo ataque a oeste de Afmadow, numa aldeia chamada Hayi. Com o porta-avião Dwight D.Eisenhower a juntar-se aos três outros navios de guerra que já estavam na região, esta nova campanha veio para durar. E quanto mais tempo se prolongar mais difícil será para os Estados Unidos afastarem-se, e mais argumentos darão à Jihad internacional para inflamar o sentimento dos muçulmanos.

A Ordem de Intervenção

Durante os seis meses de controlo sobre Mogadishu e grande parte da restante zona Centro-Sul da Somália, a UCI parou perto de Baidoa, a base do governo de transição apoiado pelos EUA. No meio desta tensão latente com o governo interino, especialmente sobre a presença de forças etíopes, uma resolução de Dezembro do Conselho das Nações Unidas levantou parcialmente o embargo de armas para proteger o governo interino e autorizar uma força de protecção para a Somália. A nova força será instalada pela União Africana e pela Autoridade Inter-governamental para o Desenvolvimento, incluindo tropas dos países vizinhos.

Esta resolução encurralou as cortes islâmicas. Antecipando um ataque da Etiópia, a UCI tornou-se mais agressiva na sua retórica. A frequência de choques entre os dois lados aumentou repentinamente e esteve na origem dos ataques aéreos etíopes sobre Mogadishu na véspera do Natal. A milícia islâmica abandonou a cidade sem apresentar resistência. Para além de estarem militarmente fracas para tomarem o poder do exército etíope apoiado pelos EUA em operações convencionais, por terra ou ar, as milícias da UCI tiveram que lidar com discórdias internas e dissidências. Agora dispersos e na clandestinidade, os seus líderes estão a preparar-se para operações militares não convencionais contra as poderosas forças invasoras etíopes de 8000 homens e outras forças de protecção que devem chegar para reforçar a resolução do Conselho de Segurança.

Por detrás do jargão diplomático de “garantes da paz” e de “forças de estabilização” esconde-se a realidade de os Estados Unidos e os seus aliados na região terem feito de novo uma intervenção unilateral sobre o pretexto de acabar com a al-Qaeda. Tal como outros dos seus aliados na guerra contra o terrorismo, em especial o Paquistão dos militares, o regime minoritário dos Tigrayan na Etiópia está também a explorar a ameaça terrorista com o intuito de ganhar a aceitação internacional para a sua ordem repressora, e desviar as atenções dos seus problemas internos.

Estão a ser feitos esforços neste momento para substituir os etíopes por uma força regional. Como quer que venha a ser constituída essa força – o Uganda já prometeu 1.500 homens e outros lhe seguirão o exemplo – a experiência passada de garantir a paz na Somália não augura nada de bom para a sua possibilidade de sucesso. Enquanto a região Centro-Sul reverte uma vez mais para o ingovernável reino dos senhores da guerra locais, clãs de milícias e ausência de leis em geral, o governo interino, artificialmente ressuscitado, está prestes a juntar os somalis e ganhar o seu apoio, como o regime de Maliki no Iraque ou o governo de Karzai ligado a Kabul, no Afeganistão.

A trajectória do conflito parece também similar. Um grupo de forças estrangeiras, criado à pressa, governa sobre um um violento caos local.

Com as cortes islâmicas cada vez mais isoladas e atacadas, é muito provável que um levantamento, tão difícil de controlar como dos Talibãs afegãos, possa vir a acontecer. Esta é pelo menos a vontade da al-Qaeda e das facções mais extremistas islâmicas.

A Jihad é impossível?

A derrota tão fácil das milícias da UCI levou os analistas e diplomatas a sublinharem a fragilidade organizativa e militar do movimento islâmico na Somália. “Eu não os vejo numa posição de se reagruparem militarmente, nem subscrevo a ideia do tipo bombistas-suicidas do Iraque ou do Afeganistão, essa não é simplesmente a forma de os somalis agirem”, afirma David Shinn, antigo enviado norte-americano para a Etiópia.

Tal como ele, outros analistas somalis defendem o argumento de que os muçulmanos somalis não são do tipo bombistas-suicidas, terroristas da al-Qaeda. Estas declarações perturbadoras partem do princípio de que entre os extremistas afegãos, paquistaneses, palestinianos e iraquianos há uma predisposição inata para estas tácticas de terror, enquanto que “não é simplesmente a forma de os somalis agirem.”

Esta linha de raciocínio sugere que lugares como a Palestina e o Iraque, entre outros, têm sido sempre um ninho de bombistas-suicidas e terroristas, e que há qualquer coisa de errada nas práticas islâmicas dessas regiões muçulmanas movidas pela violência. Shinn e outros perderam a noção de que nenhum grupo étnico ou sociedade é inerentemente propenso à violência. É sim o contexto em que vivem que os conduz a esses actos.

Esquecido também neste elogio à moderação do clero somali, está o sentimento público crescente anti Etiópia e anti Estados Unidos. Mesmo hoje as tropas etíopes estão a encarar uma dura resistência popular, alvo dos homens armados somalis em Mogadishu e noutros lugares. Mesmo derrotados militarmente, desapossados dos seus pontos de apoio, perseguidos em terra, no ar e no mar, os líderes da milícia islâmica continuam ser actores políticos legítimos. A sua visão sobre a invasão pelas forças estrangeiras tem correspondência no que pensa o comum dos somalis em relação à Etiópia e aos Estados Unidos.

Atiçar os Fogos

A intervenção militar directa dos Estados Unidos na Somália está mal programada e concebida. A postura agressiva dos EUA, tanto no mar como no ar, antagonizou o povo somali sem ter feito nada de significativo no que toca aos operacionais suspeitos da al-Qaeda e os seus aliados somali. Na sua perseguição a alguns indivíduos os Estados Unidos só ganharam a fúria das massas – numa assustadora resposta ao “Black Hawk Down”. [1] E mais importante, o envolvimento de Forças Americanas compromete seriamente as piedosas intenções de Washington de levar os somalis para a frente do processo de estabilização de um país dilacerado pela guerra. Uma vez mais a Administração Bush provou que os princípios da Lei Internacional e as normas das relações entre Estados podem ser contornados com uma arrogância desprezível sempre que quer entrar em modo de prevenção.

Para além disso, por identificar todas as Cortes Islâmicas com a al-Qaeda, a Administração Bush ostracizou uma importante facção política da Somália. Os simpatizantes e apoiantes da UCI – que estão longe de ser uma minoria – são alvo de perseguições pelos mesmos senhores da guerra de que se conseguiram libertar não há muito tempo atrás. Se o objectivo último das forças de paz é criar as condições para o início de um diálogo interno na Somália, levando a um processo de alguma maneira democrático, os movimentos islâmicos não podem ser postos de lado. A sua participação em qualquer plano futuro para a Somália, parece contudo improvável, dado o ambiente que se vive em Washington e Adis Abeba. A sua recusa em envolver os movimentos islâmicos vai significar mais violência e instabilidade na região. Ou talvez, uma vez mais, as palavras da Administração Bush sejam enganadoras, e essa instabilidade seja efectivamente o objectivo último da política americana de conter e dizimar o extremismo islâmico.

Nota do tradutor:
[1] Nome pelo qual ficou conhecida a batalha de Mogadishu, que aconteceu a 3 e 4 de Outubro de 1993, entre as tropas ocupantes, dos Estados Unidos e Nações Unidas, e as milícias somalis. Entre o povo somali a batalha ficou conhecida como “O Dia dos Rangers”. Na sequência da Resolução 794 das Nações Unidas (1992), os EUA assumiram o comando da Operação de Paz, transformando uma missão de ajuda alimentar (UNOSOM – Operação das Nações Unidas na Somália) numa imposição política de criação de uma Unidade Nacional e de um Estado Democrático. Terão morrido 18 soldados americanos e entre 500 a 2000 soldados milicianos somalis, naquilo que é considerado o raid mais intensivo desde o Vietname. Depois do filme “Black Hawk Down” (2001) de Ridley Scott, baseado no livro com o mesmo nome de Mark Bowden (1999), seguem-se uma panóplia de produtos de entretenimento, como vídeos e jogos de computador, que transformaram este acontecimento num espectáculo, à semelhança do que aconteceu em tantas outras guerras, para desviar as atenções do essencial. Para os somalis a vida não é um espectáculo e os efeitos da ocupação são bem reais.

* Najum Mushtag é jornalista em Nairobi.

Este artigo foi publicado por Foreign Policy In Focus (FPIF), um projecto conjunto do International Relations Center (IRC - www.irc-online.org) e o Institute for Policy Studies (IPS - www.ips-dc.org).

Tradução de Marta Casanova

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