Apresentação da obra “Os Terranautas extraviados” de Rui Namorado Rosa

Frederico Carvalho    15.Sep.12    Outros autores

Frederico CarvalhoA publicação deste texto impunha-se por duas ordens de razões: pela importância da obra apresentada, e pela qualidade da apresentação feita. Uma e outra abordam problemas centrais do nosso tempo, “as suas raízes mais fundas e os passos que podem ser dados para lhes dar resposta”, num livro de “leitura imprescindível”.

Festa do “Avante!”, 8 de Setembro de 2012
Quero agradecer ao meu amigo e camarada Francisco Melo o convite para a apresentar o livro que aqui está. O seu Autor ― Rui Namorado Rosa ― é alguém de qualidade e valor excepcionais, como cidadão e como profissional; alguém a quem me liga uma amizade de muitos anos.

Desde já gostaria de vos dizer que “Os Terranautas extraviados” é uma obra notável. Obra que pela sua natureza e âmbito julgo poder afirmar não ter precedentes entre nós. Não se trata de um livro de física ou de qualquer outra disciplina científica, nem é um livro técnico, ainda que a importância do conhecimento científico, o seu estado e evolução, mas também as tecnologias e os seus impactes sociais, estejam constantemente presentes, em pano de fundo ou, onde apropriado, explicitamente em primeiro plano, num texto, que é por regra límpido e acessível a não especialistas. Texto que se apresenta, da primeira à última página da obra, como um relato apaixonante, do que abreviadamente se descreve, em sub-título, como: “A Ciência e a Terra na produção material”.

“Terranautas extraviados” poderia levar a pensar tratar-se de uma obra que “pairaria” sobre a cabeça do cidadão comum. Não é assim! Aqui tratam-se problemas que a todos nos afectam como habitantes do planeta, mas também questões que nos tocam directa e localmente, como gente que vive neste país e nesta terra, fazendo-se a crítica das políticas seguidas e dos interesses que as norteiam. O aproveitamento de Alqueva, por exemplo.
A obra não é sobre Alqueva ou outro qualquer empreendimento em particular, mas traz-nos informação essencial que nos permite tornar inteligíveis os caminhos seguidos, porque foram uns e não outros, e formar uma opinião sobre quais deveriam ter sido e quais deverão ser os caminhos do futuro que queremos construir.

O mundo encontra-se numa encruzilhada em que confluem, se entrelaçam e por vezes mutuamente se realimentam ou reforçam, crises de diversa natureza, em que se destaca a crise de escassez de recursos energéticos de origem fóssil, mas também as dificuldades técnicas e económicas, associadas às fontes de energia alternativas, não convencionais; e se destaca também a crise (ou crises) alimentares com consequências sociais iminentes da maior gravidade, em especial nos países mais pobres. Nesta difícil encruzilhada, há razões, entretanto, que permitem alimentar a esperança de encontrar um caminho que possa conduzir a uma existência sustentável em condições de vida dignas: o caminho que devemos abrir às gerações que imediatamente nos sucederão — aos nossos filhos e netos.

Disto nos fala o livro que aqui trazemos, identificando e caracterizando as questões que se colocam nos nossos dias, as suas raízes mais fundas e os passos que podem ser dados para lhes dar resposta. Resposta que não se deve de todo esperar de uma qualquer reforma do sistema caduco e ao mesmo tempo crescentemente agressivo e violento, imposto pelo grande capital e pelos seus braços armados: as corporações tentaculares que trazem o planeta a saque e ditam as políticas imperiais dos governos que as representam.

É também destas corporações tentaculares, dos seus perigos e da sua estratégia, que nos fala o livro, com cristalina clareza, apoiado numa vasta soma de dados recolhidos em fontes internacionais ou autores cuja seriedade não oferece dúvidas.

Em meu entender este é um livro de leitura imprescindível para quem deseje compreender o mundo em que vivemos. E sobretudo imprescindível para quem, para lá de compreender o mundo, procure contribuir para o transformar. Transformação que, como é abundantemente demonstrado, se impõe com carácter de urgência e que passa obrigatoriamente por uma muito difícil mas indispensável definição e concretização de um novo paradigma civilizacional: é a própria sobrevivência da espécie que está em causa.

E dou voz ao Autor, humanista firmemente implantado no terreno fértil da ciência, citando-o, quando diz:
“O conhecimento humano realizou enormes avanços no curso do passado meio século, todavia a capacidade de errar parece ameaçar ultrapassá-lo”.
Acrescentando mais adiante:
“Será (…) que o homem tecnológico (ser social) nega e retrocede o homem da Renascença e das Luzes?”

Vêm-me à memória as palavras de Einstein, já em fase tardia da vida, lembrando a utilização militar da energia atómica, palavras que exprimem profunda preocupação com os caminhos que se abrem à utilização perversa dos novos conhecimentos científicos e técnicos seja na desvalorização da vida e do trabalho humano seja na destruição do meio físico.
Diz Einstein:
“Tornou-se assustadoramente óbvio que a nossa tecnologia ultrapassou a nossa humanidade”.

Importa dizer que este livro dá corpo de modo exemplar ao que deve entender-se como forma privilegiada do exercício da responsabilidade social do investigador, ou do trabalhador científico, que implicará o diálogo atento, mutuamente formativo e informativo, com os seus concidadãos. Há que dizer também que o cuidado, a moderação, o equilíbrio, com que são abordados temas e situações que se sabe serem objecto de polémica, por vezes acesa, vão no sentido de contribuir para desfazer uma relação perversa das pessoas com a Ciência, que é umas vezes considerada “como raiz de todos os males”, outras como “fonte de soluções para todos os problemas”.
Naturalmente, uma e outra posição são erradas e o que lhes poderá dar suporte, serão sempre os comportamentos humanos com os condicionamentos a que estão sujeitos como seres sociais.
Exemplos do que disse encontram-se, por exemplo, nas referências ao aproveitamento da energia nuclear para fins pacíficos, ou nas passagens em que se trata das alterações climáticas, sua génese e consequências.

No primeiro caso, apontando-se os sérios riscos associados à operação das centrais nucleares, agravados pela gestão capitalista monopolista dos sistemas electroprodutores, para de seguida sublinhar a importância do esforço de investigação e desenvolvimento em curso no âmbito de parcerias internacionais com vista a criar novos tipos de reactores que ofereçam melhores condições de segurança bem como a atenuar as dificuldades associadas ao destino a dar aos resíduos radioactivos produzidos.
Não se toma posição sobre a utilização da energia nuclear mas suscita-se a reflexão que se impõe relativamente a essa utilização, no quadro geral dos recursos energéticos disponíveis no curto e médio prazo.

No que respeita às alterações climáticas, o Autor aconselha prudência na consideração de causas e efeitos, prudência justificada pela extrema complexidade dos sistemas cuja evolução se pretende prever, afastando a posição simplista de atribuir os fenómenos observados ou previstos, no essencial, à variação do teor de dióxido de carbono de origem antropogénica, na atmosfera.
Neste contexto denuncia os interesses ocultos que movem e determinam as políticas ambientais conduzidas pelas grandes corporações.

A obra debruça-se, de entrada, sobre a origem e natureza do conhecimento humano e sobre a sua evolução no contexto social em que ao mesmo tempo ganha forma e se transforma, causa e efeito da própria transformação das sociedades em que é gerado.

A elaboração de conceitos à volta do termo “erro” e suas diversas acepções envolve uma breve incursão rica em ensinamentos, no domínio da história e filosofia da ciência que ilumina o espírito do leitor, encerrando com esta advertência, cito: “Posto o que fica dito, creio que devemos ser muito prudentes e modestos quando nos referimos à verdade e apontamos o erro.”
O Autor analisa com particular atenção a importância da educação, da aprendizagem, da investigação científica e tecnológica como actividades sociais com profundas incidências no nosso destino comum, não apenas em aspectos gerais mas detendo-se com pormenor na situação nacional, fazendo a análise e a crítica das situações que se vivem, das políticas seguidas, designadamente, no quadro da pertença do nosso país à União Europeia, com a sua carga de limitações, de imposições e de ilusões.

Os capítulos do livro em que o Autor se debruça sobre a terra e os seus recursos e sobre a produção material, naturalmente estreitamente dependente desses mesmos recursos, constituem porventura uma das passagens ― senão a passagem, mais fértil da obra, no sentido do seu conteúdo informativo e da capacidade de estímular a indispensável reflexão do leitor, de que todo o livro deve aliás ser objecto e que instantemente se recomenda.

Termino com uma referência à questão fulcral do crescimento económico que me permito ir buscar ao próprio texto da obra de que tratamos. Crescimento económico, não desenvolvimento que é conceito diferente.
Diz o Autor:
“ (…) o paradigma do crescimento económico permanente e universal está condenado; ele tem sido mantido para ideologicamente controlar a consciência das massas. Porque deliberadamente ilude o crescimento das assimetrias na distribuição de rendimentos entre países e entre classes sociais. E ilude também o facto insuperável que o crescimento material sem restrições, numa economia já globalizada, está limitado pelas capacidades do planeta Terra.”

E o Autor coloca-nos esta ideia-força de que “ o problema central do nosso tempo não é o crescimento económico permanente, mas sim a redução das assimetrias na distribuição de rendimentos num mundo profundamente desigual e injusto – e finito.”

Frederico Carvalho
Apresentação da obra de Rui Namorado Rosa “Os terranautas extraviados”
na Festa do “Avante!”
8 de Setembro de 2012

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