“Aquele que em vosso lugar se bateu contra o terrorismo não cederá às vossas ameaças”

Bachar al-Jaafari    12.Sep.18    Outros autores

Num Conselho de Segurança da ONU em que três dos seus membros permanentes participam activamente na agressão militar contra a Síria, a tarefa de a defender é árdua. Contudo, esta notável intervenção do delegado permanente da Síria junto da ONU desmascara inteiramente os agressores e a sua íntima colaboração e apoio ao terrorismo armado.

Obrigado, Senhora Presidente,

As afirmações de alguns relativamente às armas químicas na Síria são enganadoras e irresponsáveis porque já não existem armas químicas na Síria, tal como a Srª Sigrid Kaag declarou neste mesmo lugar, perante o Conselho, em 2014.

E na sua intervenção de hoje, a Srª Nakamitsu [Alta Representante para as questões do desarmamento da ONU] congratulou-se pela destruição da totalidade das 27 instalações sírias de fabricação de armas químicas e pela assinatura do documento tripartido autorizando o Gabinete de projectos especiais a prosseguir o seu trabalho na Síria.

Aparentemente, as suas palavras não foram ouvidas por certos colegas que, neste espaço, persistem a dar-se ao trabalho de esperar Godot, há décadas errando no teatro do absurdo de Samuel Beckett.

A linguagem das ameaças não é digna deste Conselho, Senhora Presidente. Não tem qualquer utilidade, sobretudo quando é praticada pela presidência. Nós somos diplomatas. A nossa missão consiste em impedir as guerras, interditar as ameaças e procurar soluções diplomáticas para as crises internacionais. É essa a nossa concepção de diplomatas e embaixadores. O Conselho de segurança não é uma arena de guerra. Já aconteceu ter cometido erros em diversas ocasiões, nomeadamente em relação ao Iraque e à Líbia. É tempo que aprendamos com os nossos erros.

Senhora Presidente,

Depois de a delegação do meu país, tal como algumas outras delegações, terem tomado conhecimento do programa dos trabalhos previstos para o corrente mês, as análises e as convicções partilhadas são que certos membros permanentes deste Conselho deixaram de reconhecer nele a sua missão de salvaguarda da paz e da segurança internacional e estão doravante dispostos a avançar até a limites extremos na exploração do Conselho de Segurança, das instituições da ONU e das instituições internacionais, a fim de granjear vantagens políticas para eles próprios à custa da sua própria missão.

Numa palavra, consideramos que os governos de certos Estados membros permanentes do Conselho de segurança abandonaram as suas responsabilidades e se tornaram política, moral e legalmente inaptos para defender a paz e a segurança internacionais.

E para ser mais preciso digo que quem protege e encobre os arsenal nuclear, biológico e químico de Israel, quem inventa pretextos falaciosos para conservar o seu próprio arsenal químico, quem destruiu o Iraque recorrendo à mentira sobre as Armas de Destruição Massiva, quem se retirou do acordo internacional com o Irão, quem suspendeu o financiamento da UNRWA, quem se retirou da UNESCO, quem continua a fazer pressão sobre a ONU pela via do seu financiamento, quem ameaça retirar-se da Organização Mundial do Comércio…digo que quem comete tudo isto não tem o direito de formular acusações falsas e fabricadas relativamente à utilização de armas químicas pelo meu país, a Síria, tanto mais que o seu próprio historial é rico em provas reais e não fabricadas de utilização de armas nucleares, químicas e biológicas em numerosas regiões deste mundo.

No que diz respeito às falsidades e falsificações, tenho sempre presente a desavergonhada e ridícula reportagem, preparada pela correspondente da CNN Arwa Damon, quando do seu encontro na Turquia com alegadas vítimas que teriam fugido do pretenso ataque químico de Douma em Abril de 2018. Pretenso ataque químico que serviu de pretexto aos governos dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e da França para o ataque tripartido à Síria no sábado 14 de Abril de 2018, no seguimento do qual pedimos a reunião deste Conselho.

Esta reportagem filmada mostra a jornalista, correspondente da CNN, mergulhar o nariz numa pasta de estudante, em pleno território turco, a centenas de quilómetros de Douma e uma semana depois do pretenso ataque. Ela aspira e o seu sentido do cheiro activa-se para a fazer dizer, nos écrans da CNN, apesar da distância de uma semana e a centenas de quilómetros do alegado ataque químico, sem sinais visíveis de uma qualquer indisposição, que sentiu o bizarro mau-cheiro de produtos químicos. A palavra inglesa que utilizou foi «stinky.»

Uma reportagem difundida no quadro da justificação da agressão militar contra a Síria. Constatem o nível de regressão política e mediática!

Senhoras e Senhores,

Todos sabeis que na verdade a Síria e os seus aliados travaram combates encarniçados e obtiveram reais sucessos na guerra contra as organizações terroristas, na primeira fila das quais Daech, Al-Qaïda [a Frente al-Nosra] e outras organizações terroristas associadas. E vós todos estais, aberta ou implicitamente, convencidos de que nós não tivemos e continuamos a não ter necessidade de utilizar armas interditas internacionalmente para eliminar o terrorismo. Além disso, não tendes absolutamente a menor dúvida de que quem se lançou nesta guerra contra o terrorismo internacional, no lugar dos vossos povos e dos vossos governos, não se submeterá hoje à escandalosa chantagem política ou às ameaças de agressão militar directa dos governos dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha ou da França; governos que cometeram tudo o que era interdito na Síria, começando pelo apoio ao terrorismo e chegando a dar instruções à organização da Frente al-Nosra [Al-Qaïda] e outras organizações filiadas de entre as quais, em primeiro lugar, os «Capacetes brancos», convidando-os a utilizar armas químicas contra civis sírios a fim de acusar o governo e criar o pretexto de uma nova agressão militar.

Senhora Presidente,

Na Síria, combatemos a Al-Qaïda na nossa terra, não em Washington, Londres ou Paris. Combatemos essa mesma Al-Qaïda que perpetrou os ataques do 11 de Setembro em Nova Iorque. Combatemos a mesma Al-Qaïda que realizou ataques em Paris, Londres e diversas outras capitais europeias. E a nossa recompensa foi que vós vos transformastes em força de apoio da Al-Qaïda contra nós, nós que combatemos em vosso lugar e em lugar dos vossos povos.

Interrogai-vos, vós que sois garantes da soberania do direito internacional e da legitimidade da Carta da ONU:

• O que é que levaria a Síria a recorrer a armas internacionalmente interditas que já não possui e que não têm qualquer utilidade militar, senão a de fornecer às três forças agressoras [já mencionadas] o pretexto para conduzir contra nós agressões sucessivas?

• Como é que sucede que a arma química supostamente utilizada não atinge senão mulheres e crianças, e não toca nos terroristas?

• Como e porquê essas três forças agressoras são as únicas a poder predizer o local, a data e o tipo de armas químicas que irão ser utilizadas na Síria?

• Porque é que uma tão miraculosa capacidade de predição é partilhada pelos três governos agressores e pelos terroristas da Frente al-Nosra [Al-Qaïda] e os «Capacetes brancos»?

• Porque é que o Conselho de segurança e a OIAC foram até agora incapazes de tomar em conta as informações contidas em 156 cartas, endereçadas pela Síria nos últimos anos?


Na circunstância, informações relativas aos produtos químicos tóxicos feitos chegar às organizações terroristas armadas, armazenados, acondicionados e utilizados contra civis para acusar o Exército sírio. Essas 156 cartas, ei-las. Endereçámo-las a vós bem como à OIAC. Mas ninguém leu. Ninguém quer ler. E ninguém quer cooperar com o governo sírio para lutar contra o terrorismo e impedir os grupos terroristas de fazerem uso de armas químicas. Porquê? Porque alguns não querem resolver o problema na Síria. Porque alguns exploram o terrorismo.

As interrogações são numerosas e as respostas são conhecidas. Por respeito pelo tempo que me é concedido e por confiança na vossa capacidade de avaliação, contentar-me-ei com dizer-vos que esses três governos fracassaram durante estes oito anos em obter o que desejavam apoiando o terrorismo. É por isso que são agora mais claros, conduzindo uma agressão militar directa, instalando ilegitimamente as suas forças armadas em certas partes do território do meu país. Impedirão o progresso do processo político em Genebra, Astana e Sotchi. Tentarão impedir a eliminação dos restos do terrorismo em Idleb e outros lugares. Trabalharão para bloquear o financiamento da reconstrução, o reerguer do país, bem como o regresso dos deslocados e dos refugiados aos seus lares a fim de viverem em dignidade, segurança e paz.

Insisto, Senhora Presidente, no facto de que no seguimento da destruição das duas últimas instalações mencionadas pela Srª Nakamitsu e da verificação pela missão da OIAC da destruição e evacuação dos escombros, a Síria cumpriu todos os seus compromissos relativos aos locais de produção de armas químicas.

Para acabar, o governo do meu país afirma ter endereçado anteontem, aos membros do Conselho de segurança, uma carta oficial contendo informações precisas e de uma grande credibilidade sobre os preparativos dos grupos terroristas armados, presentes em Idleb e nos campos de Lattaquié e Alepo, visando a utilização em grande escala de produtos químicos tóxicos contra civis com o objectivo de entravar a operação militar antiterrorista nestas regiões.

E, em conclusão, Senhora Presidente, digo que é absolutamente escandaloso e muito lamentável que certos delegados de Estados membros permanentes deste Conselho, incluindo a Presidência, tenham confundido o assunto da sessão de hoje com o assunto da sessão de amanhã.

Obrigado, Senhora Presidente

Fonte: https://www.legrandsoir.info/celui-qui-s-est-battu-contre-le-terrorisme-a-votre-place-ne-cedera-pas-a-vos-menaces.html

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