As consequências da “vitória”

Leonid Ivashov*    12.Mar.07    Outros autores


Leonid Ivashov
“Começa a ser tradição, no início de cada ano, que a “Gazprom” seja a força mais activa na política externa, agudizando até ao limite a situação na área do gás, tanto com a Ucrânia como com a Bielo-Rússia, e deitando por terra tudo o que de positivo se tinha conseguido conservar nas relações entre os povos eslavos: russos, ucranianos e bielorussos.”

Sobre a Gazprom e a crise energética entre a Rússia e a Bielo-Rússia

Onde podem levar os jogos geopolíticos da “Gazprom”

Começa a ser tradição, no início de cada ano, que a “Gazprom” seja a força mais activa na política externa, agudizando até ao limite a situação na área do gás, tanto com a Ucrânia como com a Bielo-Rússia, e deitando por terra tudo o que de positivo se tinha conseguido conservar nas relações entre os povos eslavos: russos, ucranianos e bielorussos. No auge da febre dos preços do gás e do petróleo, aparece Miller e Vaynshtock (1) para conduzirem a crise entre países e povos na sua fase mais crítica, fazendo entrar em cena os EUA e a Europa, mobilizando todos os meios de informação e mobilizando os russos que odeiam a ideia da união entre os povos eslavos.

Tentemos aqui esclarecer o que se passou com a Bielo-Rússia. Mas primeiro respondamos à pergunta: esta situação surgiu de forma casual ou foi o reflexo lógico dum plano preconcebido?

Para tal, recordemos os ideólogos da construção do império global da oligarquia financeira mundial, sob a marca registada “Estados Unidos da América”, os senhores Z. Brzezinski e H. Kissinger.

O primeiro já anunciava, no início dos anos 90: “prefiro o caos e a guerra civil na Rússia à tendência de unificação dos seus povos (ortodoxos)”. O segundo, desdobrando um “grande tabuleiro de xadrez”, recomendava insistentemente ao Ocidente (ao governo dos EUA, em primeiro lugar) que fizesse “o possível por separar a Ucrânia e a Bielo-Rússia da Rússia, para que esta última deixe de ser uma grande potência e se converta num país asiático comum.”

Poderíamos ignorar estes ideólogos imperialistas, não fosse o facto de as suas ideias terem servido de base para a estratégia dos EUA e reflectirem as directrizes e a cosmovisão da elite norte-americana, e de Kissinger visitar todos os anos a sede da presidência russa no Kremlin, em Moscovo, para dar instruções.

Na estratégia de segurança nacional dos EUA, todos os anos se verifica uma das suas mais importantes directrizes: não permitir a aparição, em nenhum lugar, de qualquer estado capaz de desafiar os Estados Unidos, e eliminar até mesmo a simples recordação de modelos de construção do estado que divirjam do que é apregoado por Harvard.

É por isso que se empenharam com especial crueldade na destruição do que restava do socialismo na antiga Jugoslávia, ou que aplaudiram em Washington o bombardeamento contra a “Casa Branca” (Parlamento russo), em Outubro de 1993. Hoje estão a liquidar o Iraque. Na fila, esperam o Irão e a Síria.

Mas eis que, para surpresa de muitos, aparece a Bielo-Rússia, com Lukashenko à cabeça, a mostrar a sua independência e singularidade.

Traçando o seu próprio percurso, desprezando os modelos de desenvolvimento (na realidade, degradação) que Harvard propõe, constrói um estado social, uma sociedade unida - e não dividida, como na Rússia, entre oligarquia e miséria - destacando-se, quer em nível científico e cultural, quer em estabilidade política, do espaço pós-soviético e da Europa oriental, em tempos de desenvolvimento da produção industrial e agrícola.

Os serviços secretos ocidentais, através de “organizações não governamentais”, injectam enormes somas de dinheiro para criar uma oposição, mas o povo, em eleições e referendos, simplesmente cospe em todos esses “liberais-matrioshka” artificiais. A paciência de Washington está a esgotar-se. O Congresso dos EUA chegou a aprovar, há mais de dois anos, uma lei sobre a mudança (leia-se derrocada) do regime na Bielo-Rússia, mas este sobrevive.

Apesar dos bancos ocidentais já terem há algum tempo proibido a concessão de créditos a Lukashenko, a Bielo-Rússia acelera o seu desenvolvimento e, em termos de nível de vida e de produção, foi a primeira (e a única) das repúblicas pós-soviéticas a alcançar, e até a superar, os indicadores de 1990.

Na política externa, Minsk prossegue o seu próprio caminho sem olhar para os EUA, continua fiel aos princípios da Carta das Nações Unidas e apoia a linha anti-americana do Movimento dos Não-Alinhados.

No plano estratégico-militar, a Bielo-Rússia, com os seus 600 km confinantes com o espaço da NATO, rompe a curvatura oval do jugo anti-russo dos mares báltico e negro, fazendo fronteira com as nossas tropas em Kalininegrado, rodeadas por completo por forças da NATO. Na esfera militar, as relações da União com a Rússia formam um espaço defensivo unificado dos dois estados, em direcção ao ocidente, que repele a pressão exercida pela NATO sobre as fronteiras russas. Ou seja, neste campo Minsk incomoda seriamente o Ocidente no que toca à realização dos seus “pacíficos” planos de instalação de mísseis balísticos.

Analisemos agora as relações russo/bielorussas propriamente ditas: estas deveriam basear-se nos documentos assinados aquando da criação do estado Unificado. Mas estou absolutamente convencido que, no Olimpo do poder russo, ninguém pretende realmente construir esse suposto estado “Unificado”(2). Até porque nem sequer existe um suporte científico que determine e desenvolva a teoria ou o próprio significado de “Estado Unificado”, como precedente na prática internacional.

Não existe nem a concepção, nem a consequente estratégia de criação do “edifício” desse estado. Mais importante ainda, é que durante todos estes anos, a Federação Russa e a República Bielorussa desenvolveram os seus sistemas estatais e os seus institutos governamentais em direcções completamente diferentes, por vezes diametralmente opostas, tanto no que se refere ao sistema político, como aos modelos económicos e à estrutura social, ratificados nas correspondentes actas legislativas e artigos da Constituição.

Porquê então tanto ruído à volta da questão da “União”? O povo bielorusso (e também o russo) acreditavam sinceramente na seriedade das intenções do governo da Federação Russa. Mas esse mesmo governo utilizou a unificação dos dois povos como trunfo na jogada eleitoral.

Mais sérias eram as pretensões dos oligarcas russos. Claro que não para unificar, mas sim para engolir a Bielo-Rússia, com as suas refinarias e a sua produção tecnologicamente desenvolvida, e sobretudo com as infra-estruturas de transporte. Mas os irmãos bielorussos mantiveram-se unidos como nação, e não se transformaram em população e eleitorado (como na Rússia), preferindo continuar a ter o seu próprio estado e economia, e não querem entregar os seus recursos nem o seu território para que estes sejam saqueados e despedaçados. Tanto mais que já viram os frutos do liberalismo e do “livre” mercado da democracia ocidental, nos exemplos da Rússia, Ucrânia e demais estados “independentes”.

Apesar de tudo, é possível que, contra a vontade dos liberais, se tenha conseguido algo de positivo no decurso dessa “construção”.

Em primeiro lugar no terreno da defesa, onde se alcançaram resultados integradores sérios. Em segundo lugar, nas relações económicas, onde se desenvolveu uma peculiar estrutura de câmbio e de preços, próxima da política interna de preços de ambos os estados. Os elementos mais significativos a ter em conta são:
-relações políticas.
-interesses estratégico-militares comuns.
-aspiração dos povos em conviver num estado unificado.

Ou seja, criou-se um compromisso em política de preços, benéfico para ambas as partes.

A Bielo-Rússia, por exemplo, não cobra aos russos pelas suas instalações estratégicas no seu território (nó de rádio-localização do sistema de defesa anti-míssil “Baranovichi”, centro de comunicações com os submarinos nucleares “Vileyka”). Também não exige nenhum pagamento pela informação sobre movimentos no espaço aéreo, nem pela cobertura oferecida pelas tropas de Kalininegrado, etc. Além disso, toda a produção exportada pela Rússia é a preços bielorussos, ou seja, a preços de produtor.

Mas quando a Rússia retira de repente um dos componentes de toda a estrutura geral de preços, como o gás, todo o sistema vem abaixo. Algo que os bielorussos já referiram na sua resposta. Se não se detém este processo, ambos os países passarão ao sistema europeu de preços, e desta forma estaremos a abrir a Bielo-Rússia à Europa ao mesmo tempo que fechamos as portas às relações privilegiadas com a Rússia, pois desmoronar-se-ão todas as componentes estruturais da política de preços inter-estatal.

Se, em certa medida, a “Gazprom” pode piorar a situação socio-económica na Bielo-Rússia, pode também estragar as posições políticas de A. Lukashenko, podendo até forçar a sua saída da presidência.

Mas quais serão as consequências para a Rússia?

Podemos prognosticar a variante mais provável: ”revolução laranja”, um férreo movimento anti-russo, adesão à NATO, bases militares da aliança contra Smolensk, eliminação da base de rádio-localização de “Baranovichi” (como já tinha sucedido com a da Letónia em Skrunde), a perda do último aliado da Rússia. Não vou descrever as consequências políticas, estratégico-militares, económicas e financeiras da vitória da “Gazprom” na sua guerra com Lukashenko, para isso basta ver a Geórgia e a Ucrânia.

Para concluir, perguntemo-nos: porque é que a “Gazprom” determina hoje a política estatal russa nas relações com o nosso vizinho estratégico?

As causas são variadas, mas destacaremos duas.

A primeira: o partido governamental na Rússia continua a ser a “quinta coluna” pró-americana representada pelos “liberal-monetaristas”.

Os meus argumentos: estão conscienciosamente a pôr-se em prática todos os ensinamentos da escola de Harvard em política interna e externa; todo o bloco energético e socio-económico do governo está nas mãos da União de Forças da Direita (SPS, na sigla em russo) e dos seus aliados (os líderes do SPS) Chubais e Kirienko, dirigem os principais sectores energéticos, nas relações com a Bielo-Rússia, pondo em prática o curso de Nemtsov (também líder do SPS).(3)

O que se segue não é mais que uma cadeia lógica: em Washington, a estratégia política nas relações com Minsk desenvolve-se a partir das concepções de Brzezinski, Kissinger e companhia. A direita russa põe-a em prática, enquanto que a “Gazprom” funciona como detonador na tarefa de rebentar as relações entre a Rússia e a Bielo-Rússia.

Segunda causa: a “felicitação” de ano novo que a “Gazprom” envia a Minsk (e não é a primeira) confirma a conclusão de que a estratégia de desenvolvimento da Rússia se constrói da seguinte forma: nas estruturas de poder oligárquico destacam-se uma série de holdings verticais (extractores de matérias primas, energéticos, metalúrgicos, as empresas mais competitivas do Complexo Militar Industrial), à sua volta concentra-se (através de bancos escolhidos) o principal capital financeiro, e estas holdings estão inseridas no sistema económico mundial. Estes são os únicos interessados na entrada da Rússia na Organização Mundial do Comércio, para receber a bênção da oligarquia internacional e poder continuar a governar a Rússia.

O resto do país, o seu sector industrial e agro-pecuário, o pequeno e médio comércio, a ciência, a cultura, a educação, convertem-se numa “reserva índia” para russos. Até já circulam anedotas: “O presidente da “Rússia”, corporação gaso-petrolífera, de transportes, exportações e armamento, recebeu o presidente da Federação Russa, por petição deste último”. Poderíamos acrescentar: “com o objectivo de pedir algum dinheiro para a sobrevivência dos 130 milhões de cidadãos do país”.

A “Gazprom” é o primeiro e mais bem sucedido candidato à ocupação desse lugar. Para aumentar os seus activos, precisam da infra-estrutura de gasodutos da Bielo-Rússia. Por isso é que é Miller e não Putin, nem Fradkov (4), quem recebe a delegação bielorussa ou ucraniana, é ele que determina a política da Rússia, previamente concertada com Washington e com ataques ideológicos e informativos de cobertura da direita liberal na elite governamental russa.

Notas.
1. Alexei Miller. Presidente da “Gazprom”.
Simeon Vaynshtock. Presidente da “Transneft”.
2. Estado Unificado. Em Abril de 1997, a Rússia e a Bielo-Rússia assinaram um acordo para a criação dum estado Unificado.
3. Anatoli Chubais. Um dos pais das privatizações no princípio dos anos 90, actualmente director da “Eléctricas da Rússia”.
Serguei Kirienko. Director da Agência Federal de Energia Atómica da Rússia. (Rosatom).
Boris Nemtsov. Ideólogo da direita russa, líder do “SPS”. Entre 2005 e 2006 foi conselheiro do presidente ucraniano Víctor Yuschenko.
4. Mikail Fradkov. Primeiro-ministro russo.

* General, vice-presidente da Academia de Problemas Geopolíticos. Foi chefe do departamento de Assuntos Gerais do Ministério da Defesa da União Soviética, secretário do Conselho de Ministros da Defesa da Comunidade de Estados Independentes (CEI), chefe do Departamento de Cooperação Militar do Ministério da Defesa da Federação Russa. Em 11 de Setembro de 2001 ocupava o cargo de chefe do Estado-maior das Forças Armadas russas.

Este artigo foi publicado em:
(http://www.voltairenet.org/auteur122841.html?lang=es).

Tradução de Luzia Paramés

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