As lutas prosseguem, ainda e sempre

Rémy Herrera    10.Jul.18    Outros autores

Em França as lutas em grandes sectores prosseguem, nomeadamente no sector ferroviário e no da energia. No sector ferroviário as greves assumiram novo agendamento, atingindo os momentos de maior fluxo de utentes no início das férias de Verão. No sector da energia há neste momento mais de 300 locais bloqueados. O governo e o patronato sonham que o Verão desmobilize as lutas. Mas irão verificar, na “rentrée”, que muito provavelmente regressarão com ainda mais cólera e mais vigor.

Se, no conflito na SNCF, as organizações «reformistas» (CFDT) e de direita (UNSA) oficializaram em 28 de Junho o seu abandono do movimento dos ferroviários, os sindicatos combativos, CGT e Sud-Rail, que em conjunto representam mais de 50% dos efectivos sindicalizados do sector ferroviário, anunciaram a sua vontade de prosseguir em conjunto a mobilização em Julho – e provavelmente mais além no decurso do Verão. Mas a estratégia posta em prática vai mudar: ao contrário da greve intermitente praticada desde o início de Abril, com um calendário de dias de greve estabelecido com grande antecedência (permitindo aos utentes prever soluções de substituição para as suas deslocações, mas permitindo também à direcção da SNCF de se organizar para atenuar os efeitos do movimento), a CGT e Sud-Rail decidiram revelar as datas de paragem apenas com poucos dias de antecedência, concentrando-os sobre as datas de grande saída de veraneantes (fim-de-semana de 6 e 7 de Julho, e 11 de Julho para uma acção específica no sector de transportes de mercadorias).

As promessas do Presidente Macron apenas se aguentaram algumas horas. A direcção da SNCF informou já que o ramo Fret da empresa irá suprimir 700 postos de trabalho até 2021. A razão invocada? O défice verificado neste ramo seria «agravado» pelas perdas causadas pela greve! Os ferroviários, muitos dos quais perderam 30 dias de salário nos últimos três meses, seriam no fim de contas os responsáveis por esses despedimentos! E como, sem qualquer vergonha, os sindicatos CFDT e UNSA abandonaram o movimento – o que já era esperado – estão agora em vias de mendigar umas migalhas nas negociações com a direcção de recursos humanos sobre a nova «convenção colectiva do transporte ferroviário» (substituindo o descartado estatuto dos ferroviários). Como aqui se diz, «quando o patronato decida reestabelecer a escravatura, os “reformistas” negociarão com os seus capatazes a dimensão das cadeias que os escravos utilizarão»…

Ao mesmo tempo, desenvolve-se uma outra mobilização de grande amplitude, ela também histórica pela sua força, determinação e duração. Os trabalhadores da energia entraram em luta desde há mais de dez semanas. Trata-se de uma greve massiva, muito dinâmica, dirigida por jovens trabalhadores, começada nomeadamente na zona de Marselha. Ao apelo da federação CGT da Energia os electricistas e trabalhadores do gás puseram-se em movimento, em cooperação e apoio da greve dos ferroviários, segundo modalidades bastante parecidas, mas com reivindicações específicas do seu sector e num espírito de convergência pela defesa dos serviços públicos.

Desde meados de Junho que este movimento cresce e afecta os locais Enedis (filial de Électricité de France [EDF], primeiro fornecedor de electricidade na Europa) e GRDF [Gaz Réseau Distribution France], filial de Engie [ex. GDF Suez] e principal distribuidor de gás natural na Europa. Em finais de Junho cerca de 300 locais estavam bloqueados, e mais de metade deles ocupados pelos trabalhadores. Estas greves foram inicialmente intermitentes, antes de passarem a renováveis, quando não ilimitadas, fazendo desta mobilização a mais importante greve do sector da energia no país desde há dez anos. O ambiente é frequentemente de boa vizinhança, familiar, tecendo amplos laços de solidariedade local-

Escandalizados pelos dividendos astronómicos distribuídos aos accionistas privados, os grevistas, na ofensiva, reclamam aumentos de salários (no mínimo mais 400 euros mensais) a contratação estável dos colegas actualmente com contrato a prazo ou intermitente, a anulação dos cortes programados de postos de trabalho, a reinternalização das actividades externalizadas e a nacionalização dos sectores da energia para um serviço público autenticamente colocado ao serviço dos utentes . e não dos capitalistas.

É o culminar das lutas, múltiplas e poderosas, conduzidas desde há dois anos pelos trabalhadores da electricidade e do gás (nomeadamente com os «dias de cólera» organizados durante vários meses no início de 2017). Perante a amplitude da rebelião, os media dominantes impõem uma censura total da informação. O patronato e o governo, temerosos, aguardam impacientemente as férias de Verão que, possivelmente, marcarão uma perda de fôlego das lutas. Aterrorizados perante o risco de contágio, o poder aposta na dispersão dos trabalhadores, que a privatização e o desmembramento do sector público têm promovido desde há anos. São mesmo discutidos prémios para os trabalhadores que não se mexam, nos sectores do nuclear e das linhas de alta tensão…Como irá suceder no regresso de férias, quando ressurgirá a cólera dos cidadãos contra Macron e renascerá a esperança de mudança?

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