As mentiras sobre Assange devem parar desde já

John Pilger    03.Dic.19    Outros autores

O kafquiano processo contra Julian Assange é sobretudo um processo contra a liberdade de informar, sem a qual o jornalismo não pode realizar a tarefa que fundamentalmente lhe caberia. Os media internacionais têm desempenhado um papel central na campanha para denegrir Assange e criminalizar aquilo que realizou – expor os crimes de guerra dos EUA -. Podem entretanto estar a dar-se conta de que a condenação de Assange será a sua própria condenação definitiva àquilo que tem sido o seu papel neste processo: o de meros e obedientes reprodutores da desinformação de um poder criminoso e corrupto.

Jornais e outros media nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Austrália assumiram recentemente uma paixão pela liberdade de expressão, especialmente pelo seu direito de publicar livremente. Estão preocupados com o “efeito Assange”.

É como se a luta de reveladores da verdade como Julian Assange e Chelsea Manning fosse agora um aviso para eles: que os rufias que arrastaram Assange para fora da embaixada do Equador em Abril podem um dia vir por eles.

Um refrão comum ecoou no Guardian a semana passada. A extradição de Assange, disse o jornal, “não é uma questão de quão sábio Assange é, e menos ainda de quão simpático será. Não se trata do seu carácter, nem do seu discernimento. É uma questão de liberdade de imprensa e do direito do público a ter conhecimento. ”

O que o Guardian está a tentar fazer é separar Assange das suas extraordinárias realizações, que ao mesmo tempo deram lucros ao Guardian e desvendaram a sua própria vulnerabilidade, juntamente com sua propensão para se subordinar ao poder voraz e difamar aqueles que revelam a sua duplicidade.

O veneno que tem alimentado a perseguição a Julian Assange não é neste editorial tão óbvio como costuma ser; não há ficção sobre Assange manchar com fezes as paredes da embaixada ou ser cruel com seu o gato.

Em vez disso, as hipócritas referências a “carácter”, “discernimento” e “simpatia” perpetuam um épico denegrimento que tem agora quase uma década. Nils Melzer, relator das Nações Unidas sobre Tortura, usou uma descrição mais adequada. “Tem havido”, escreveu ele, “uma implacável e desenfreada campanha de assédio público”. Explica o assédio moral como “um fluxo interminável de declarações humilhantes, degradantes e ameaçadoras na imprensa”. Essa “ridicularização colectiva” equivale a tortura e poderia levar à morte de Assange.

Tendo testemunhado muito do que Melzer descreve, posso garantir a verdade das suas palavras. Se Julian Assange vier, como alertam os médicos, a sucumbir às crueldades amontoadas sobre ele, semana após semana, mês após mês, ano após ano, jornais como o Guardian partilharão a responsabilidade.

Há alguns dias, Nick Miller, o homem do Sydney Morning Herald em Londres, escreveu uma preguiçosa e especiosa peça, intitulada “Assange não foi ilibado, apenas aguentou mais do que a justiça”. Estava a referir-se ao abandono sueco da chamada investigação Assange.
O relatório de Miller não é atípico nas suas omissões e distorções enquanto se disfarça de tribuna dos direitos das mulheres. Não há trabalho original, nem investigação real: apenas enxovalho.

Não há nada no comportamento documentado de um punhado de zelotes suecos que se apropriaram as “alegações” de má conduta sexual contra Assange e fizeram uma farsa da lei sueca e da tão gabada decência daquela sociedade.

Não menciona que, em 2013, a promotora sueca tentou abandonar o caso e enviou um e-mail ao Ministério Público da Coroa (CPS) em Londres a dizer que não iria mais tentar obter um Mandado de Detenção Europeu, que recebeu como resposta: “Não se atreva!!! ” (Obrigado a Stefania Maurizi de La Repubblica).

Outros e-mails mostram o CPS desencorajando os suecos de virem a Londres para entrevistar Assange – o que era prática comum - bloqueando assim um desenvolvimento que poderia tê-lo libertado em 2011.

Nunca houve um processo. Nunca houve acusações. Nunca houve uma tentativa séria de colocar “alegações” a Assange e questioná-lo - comportamento que o Tribunal de Apelação sueco considerou negligente e o Secretário Geral da Ordem dos Advogados da Suécia condenou depois.
Ambas as mulheres envolvidas disseram que não houve violação. Evidências críticas escritas de suas mensagens de texto foram intencionalmente negadas aos advogados de Assange, claramente porque minavam as “alegações”.

Uma das mulheres ficou tão chocada com a prisão de Assange, acusou a polícia de a manipular e de alterar o seu testemunho. A promotora-chefe, Eva Finne, rejeitou a “suspeita de qualquer crime”.

O homem do Sydney Morning Herald omite como um político ambicioso e comprometido, Claes Borgstrom, emergiu por detrás da fachada liberal da política sueca e efectivamente se apropriou e fez reviver o caso.

Borgstrom colocou uma ex-colaboradora política, Marianne Ny, como nova promotora. Ny recusou-se a garantir que Assange não seria enviado para os Estados Unidos se fosse extraditado para a Suécia, embora, como o The Independent relatou, “já tenham ocorrido discussões informais entre as autoridades dos EUA e da Suécia sobre a possibilidade do fundador do WikiLeaks Julian Assange ser entregue a custódia americana, segundo fontes diplomáticas “. Isto era em Estocolmo um segredo de Polichinelo. O facto de a Suécia libertária ter um sombrio e documentado passado de entregar pessoas nas mãos da CIA não era novidade.

O silêncio foi quebrado em 2016, quando o Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre Detenção Arbitrária, um órgão que decide se os governos estão a cumprir as suas obrigações sobre direitos humanos, decidiu que Julian Assange fora detido ilegalmente pela Grã-Bretanha e pediu ao governo britânico que o libertasse.

Ambos os governos da Grã-Bretanha e da Suécia haviam participado na investigação da ONU e concordaram em cumprir a sua decisão, que carregava o peso do direito internacional. O secretário de Relações Exteriores britânico, Philip Hammond, apareceu no Parlamento e insultou o painel da ONU.

O caso sueco era uma fraude desde o momento em que a polícia entrou secreta e ilegalmente em contacto com um tabloide de Estocolmo e desencadeou a histeria que viria a consumir Assange. As revelações de WikiLeaks sobre os crimes de guerra dos EUA envergonharam as donzelas do poder e os seus interesses pessoais, que se autodenominavam jornalistas; e por isso o irredutível Assange nunca seria perdoado.

Agora abrira a época da caça. Os atormentadores mediáticos de Assange cortaram e colaram entre si as mentiras e os insultos vituperativos uns dos outros. “Ele é realmente é matacão mais maciço”, escreveu a colunista do Guardian Suzanne Moore. O entendimento adquirido era que ele havia sido acusado, o que nunca fora verdade. Na minha carreira, fazendo reportagem a partir de lugares de extrema agitação, sofrimento e criminalidade, nunca conheci nada parecido.

Na terra natal de Assange, na Austrália, este “assédio moral” atingiu um apogeu. O governo australiano estava tão ansioso para entregar o seu cidadão aos Estados Unidos que a primeira ministra em 2013, Julia Gillard, quis retirar-lhe o passaporte e acusá-lo de um crime - até que lhe foi indicado que Assange não havia cometido nenhum crime e ela não tinha o direito de lhe retirar a cidadania.

Julia Gillard, segundo o sítio web Honest History, detém o recorde do mais bajulador discurso já feito no Congresso dos EUA. A Austrália, disse ela perante aplausos, era a “grande parceira” dos Estados Unidos. A grande parceira conspirou com os EUA na sua caça a um australiano cujo crime era jornalismo. O seu direito a proteção e assistência adequada foi negado.

Quando o advogado de Assange, Gareth Peirce, e eu nos encontrámos com duas autoridades consulares australianas em Londres, ficamos chocados ao saber que tudo o que conheciam sobre o caso “é o que lemos nos jornais”.

Este abandono pela Austrália foi a principal razão da concessão de asilo político pelo Equador. Como australiano, achei isso especialmente vergonhoso.

Quando recentemente lhe perguntaram sobre Assange, o actual primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, disse: “Ele deveria sujeitar-se à música”. Este tipo de comportamento rufia, desprovido de qualquer respeito pela verdade, pelos direitos e pelos princípios e leis, é a razão pela qual a imprensa na Austrália, controlada sobretudo por Murdoch, está agora preocupada com o seu próprio futuro, como o Guardian está preocupado, e o New York Times está preocupado. A preocupação deles tem um nome: “o precedente de Assange”.

Eles sabem que o que acontece com Assange pode acontecer-lhes. Os direitos básicos e a justiça que lhe são negados podem ser negados a eles. Foram avisados. Todos nós fomos avisados.
Sempre que vejo Julian no sombrio e surreal mundo da prisão de Belmarsh, lembro-me da responsabilidade daqueles que o defendem. Existem princípios universais em jogo neste caso. Ele próprio gosta de dizer: “Não sou eu. É muito mais amplo”.

Mas no cerne desta luta notável - e é, acima de tudo, uma luta - está um ser humano cujo carácter, repito carácter, tem demonstrado a mais surpreendente coragem. Saúdo-o.

Versão editada de uma intervenção de John Pilger no lançamento em Londres de “In Defense of Julian Assange”, uma antologia publicada por Or Books, Nova York.
Fonte: http://johnpilger.com/articles/the-lies-about-assange-must-stop-now

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