As ruínas de Detroit:
A economia dos off-shores

Paul Craig Roberts*    26.Mar.10    Outros autores

Paul Craig RobertsA desmesurada centralização e concentração do capital, acompanhadas de uma desmedida criação de capital fictício e uma vertiginosa queda da produção industrial são o retrato dos EUA, cada vez mais “a caminho de se tornar uma economia de terceiro mundo”.

No Século XX, Detroit e Michigan simbolizavam o poderio industrial dos EUA. Hoje simbolizam a economia dos off-shores.

A população de Detroit caiu para metade. Um quarto da cidade (56 km2) está deserto, com apenas algumas casas que ainda subsistem em ruas quase totalmente abandonadas. Se as autoridades locais conseguirem obter dinheiro de Washington, os responsáveis pelo planeamento urbano irão diminuir a área da cidade e estabelecer zonas rurais ou zonas verdes onde antes havia bairros.

O presidente Obama e os economistas não dizem senão banalidades acerca da recuperação. Mas como pode uma economia recuperar quando os seus líderes passaram mais de uma década a deslocar os empregos da classe média de elevada produtividade e valor para o estrangeiro, com o produto interno bruto que lhes está associado?

O Bureau of Labor Statistics [N. do T.: Agência de Estatísticas do Trabalho] emitiu este mês relatórios muito desanimadores. A quebra de postos de trabalho e número de horas trabalhadas atingiu valores recorde. No final do ano passado, a economia dos EUA tinha menos postos de trabalho que no fim de 1997, há 12 anos atrás. O número de horas trabalhadas no final do ano passado foi menor que no final de 1995, há 14 anos atrás.

A semana média de trabalho está a diminuir e situa-se actualmente em 33,1 horas para os trabalhadores que não ocupam cargos de chefia.

No que constitui um problema grave para a teoria económica, a produtividade laboral ou produto por hora trabalhada e as remunerações divergiram acentuadamente ao longo da última década. Os salários não têm acompanhado o aumento da produtividade. Talvez a explicação esteja nos dados da produtividade. Susan Houseman descobriu que as estatísticas da produtividade laboral dos EUA poderão estar a reflectir os baixos salários pagos no estrangeiro. Uma empresa dos EUA com produção nos EUA e na China, por exemplo, obtém resultados agregados em termos de produtividade do trabalho e remunerações. As estatísticas de produtividade medem neste caso a produtividade laboral das multinacionais e não a do trabalho nos EUA.

Charles McMillion assinalou que os custos por unidade de trabalho na realidade desceram em 2009, mas os custos não laborais subiram ao longo da década. Talvez o aumento de despesa não relacionada com trabalho reflicta a queda do valor de troca do dólar no estrangeiro e o aumento da dependência de factores de produção importados.

Economistas e políticos tendem a responsabilizar a gestão da indústria automóvel e os sindicatos pela decadência de Detroit. Contudo, a produção dos EUA caiu em toda a parte. A Evergreen Solar anunciou recentemente que irá deslocar a sua produção e montagem de painéis solares de Massachussetts para a China.

Um estudo do Department of Commerce dos EUA sobre a indústria das máquinas de precisão concluiu que os EUA estão em último lugar. A indústria dos EUA tem uma quota de mercado que está a diminuir e o menor aumento no valor das exportações. O Commerce Department inquiriu os utilizadores das máquinas de precisão e verificou que 70% das aquisições correspondiam a importações. Alguns dos distribuidores norte-americanos de máquinas de precisão nem sequer têm marcas norte-americanas.

A economia financeira que deveria substituir a economia industrial não está em parte alguma. Os EUA têm apenas 5 bancos na lista dos maiores 50 por valor das acções. O maior banco dos EUA, o JP Morgan Chase, está em sétimo lugar. A Alemanha tem sete bancos na lista dos maiores 50 e o Reino Unido e a França tem seis cada um. O Japão e a China têm cinco bancos na lista e, juntos, a Suiça e a Holanda, países pequenos, têm seis, com um valor combinado de acções superior em 1 185 biliões de dólares aos cinco maiores bancos dos EUA.

Além disso, depois da fraude dos derivados perpetrada sobre bancos de todo o mundo por parte dos bancos de investimento norte-americanos, não há perspectiva de algum país confiar nos líderes da finança dos EUA.

Os líderes económicos e políticos dos EUA usaram o seu poder para servir os seus próprios interesses à custa do povo americano e das suas aspirações económicas. Mediante o seu rápido enriquecimento, levaram a economia dos EUA à ruína. Os EUA estão a caminho de se tornar uma economia de terceiro mundo.

* Paul Craig Roberts foi editor do Wall Street Journal e Secretário-assistente do Tesouro dos EUA.

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