Aspectos ideológicos do bolsonarismo

Felipe Catalani    06.Nov.18    Outros autores

«A ameaça tornou-se um dos cernes da ideologia: com o poder de ameaçar sente-se que é
possível ter algum poder, nem que seja de amedrontar, mesmo que para além disso não se
tenha poder algum. A única felicidade possível do bolsonarista – que não é felicidade alguma –
é o prazer proporcionado pela ameaça ou pela punição, em que se misturam ressentimentos e
requintes de sadismo.»

Para qualquer pessoa que não tenha a sensibilidade atrofiada, a situação brasileira que
vivemos é assombrosa. Entretanto, quando da ascensão do fascismo na Alemanha, Benjamin
dizia que “o espanto em constatar que os acontecimentos que vivemos ‘ainda’ sejam possíveis
no século XX não é nenhum espanto filosófico” 1 . Tentemos portanto dar sentido às coisas e
com isso, quem sabe, tal como esperava Benjamin, “tornar mais forte nossa posição na luta
contra o fascismo”.
Muitas das especulações do caráter fascista do bolsonarismo rodam em falso. É evidente que
há certos limites na analogia com o fascismo histórico: se na Alemanha hitlerista havia a
ostentação de uma Volksgemeinschaft  comunidade do povo , calcada na ideologia do “sangue e solo” e
até com ares pretensamente anticapitalistas (na oposição entre capitalismo financeiro judaico
rapinante versuscapitalismo produtivo “com lastro”), o que vemos no Brasil atual é um
esgarçamento total do tecido social, um hiper-individualismo de crise. Como contra-argumento,
alguns dizem, por exemplo, que o fascismo seria necessariamente estatista e intervencionista,
e que o programa de Bolsonaro é ultra liberal, ou que Bolsonaro não é fascista e sim “um
soldado das guerras culturais” 1  etc. A tentativa de interpretar o fascismo a partir de
características do Estado e de formas de governo ou de estruturas econômicas só pode ter
caráter de especulação por tratar-se de um governo que ainda não existe, e mesmo se
especularmos, vemos nesse provável governo sobretudo um aprofundamento de tendências já
existentes. Nesse caso, bastaria analisar as posições e o discurso do General Mourão, que não
tem nada de alucinado nem de bobo, muito pelo contrário: encontramos ali a racionalidade de
um gestor que quer garantir a paz social e a ordem pública, por meio de armas e políticas
públicas de assistência social, o que Christian Laval chamou de “ momento hiperautoritário do
neoliberalismo ”: ou seja, reafirma uma tendência do mundo. 2
Por um lado, nada muito diferente da receita de pacificação de um governo de contra-
insurgência tal como o que começou a se consolidar quando Dilma Roussef soltou a bomba da
Lei Anti-Terrorismo. Por outro lado, nos termos da tradição crítica brasileira, o que a
inteligência militar por trás da candidatura de Bolsonaro está anunciando (e que o professor da
UFF Marco Aurélio Pinto chama de “doutrina da dependência militar” 3 ) é, mais uma vez, uma

“desistência histórica”, em que se optaria pelo capital privado internacional e uma “condição de
sócio-menor do capitalismo ocidental”, como dizia FHC. O Brasil não é mesmo o país do futuro
e assim declara-se encerrada a formação nacional: esse diagnóstico não é de um crítico
pessimista, mas deles mesmos. O plano de Mourão, que abertamente falou da “indolência do
índio” e da “malandragem do negro”, poderia ser resumido nessa nova dependência do capital
privado internacional do ponto de vista ideológico como um branqueamento do capitalismo
nacional.
Mas uma coisa é o governo Bolsonaro, que ainda não existe, e sobre o qual podemos ter
algumas hipóteses; outra coisa é um fenômeno bem palpável e efetivo que é o que podemos
chamar de bolsonarismo, ou o que Esther Solano chamou de “ bolsonarização da esfera
pública ” (que é na verdade, creio eu, o tiro de misericórdia da esfera pública). O fascismo aqui
deve ser entendido não tanto como um elemento do Estado ou uma forma de governo, mas
como um fenômeno social e ideológico. Por vezes, a adesão ao discurso fascista aparece
como uma patologia psicológica, porém, também Adorno, que tanto se apoiou na psicanálise e
na crítica da ideologia em suas análises do fascismo, afirmou que “o fascismo como tal não é
um problema psicológico  … . Disposições psicológicas, na verdade, não causam o
fascismo.” 4  Por mais que a família Bolsonaro seja um bando de psicopatas, isso não é uma
explicação suficiente. Ou seja, devemos ter em vista que a ideologia não pode ser tomada
como uma dimensão psíquica autônoma, uma patologia individual, mas como algo que diz
respeito a processos sociais e históricos objetivos. Por um lado, temos os militares e seu
projeto de gestão da desintegração social capitalista em uma sociedade com 14 milhões de
desempregados (segundo dados oficiais) e uma taxa de homicídio com intensidade de guerra
civil. Por outro, temos Bolsonaro como o agitador fascista propriamente dito e o bolsonarismo
como mecanismo de adesão ideológica de massas. Vou tentar me concentrar nesse segundo
aspecto.
O Brasil parece ter sido possuído, nos últimos tempos, por forças demoníacas. Um sentimento
de apocalipse, insuflado pela Besta na figura de Bolsonaro, é absorvido tanto por aqueles que
desejam o apocalipse quanto por aqueles que o temem. “Acabou para vocês”, ameaçam de um
lado. “O nosso mundo vai acabar”, pensamos nós, do lado de cá, ou ainda, “nós vamos
morrer”. Há uma espera nesse ar que parece portar um fim, uma espera esperançosa para
alguns 5 , pura agonia para outros. Muito da tensão vem da sensação confidente de que o líder
tem uma quantidade desmesurada de poder é proporcionada pelo ato da ameaça e pela sua
capacidade de incutir medo nos outros. O país se dividiu entre ameaçadores e ameaçados:
estar do lado dos ameaçadores, ou tornar-se um ameaçador, produz a ilusão de que não se é
ameaçado com aquilo que se escolhe apoiar. O sentimento de que se é capaz de fazer
temer gera uma compensação psíquica para uma situação de impotência real: os impotentes,
os fracassados, as vítimas de um sistema produtor de mercadorias e frustração sentem-se, de
repente, “empoderados”. O sentimento de impotência é crucial – como dizia Adorno: “As

experiências de impotência real são tudo, exceto irracionais;  … . Somente elas permitem a
esperança de uma resistência contra o sistema social  … .” 6
Com o poder de ameaçar sente-se que algum poder é possível ter, nem que seja o de botar
medo, mesmo que para além disso não se tenha poder algum. O nosso medo e o alarmismo
de setores da sociedade civil diante da ascensão fascista é recebido do outro lado, por grande
parte dos eleitores do Bolsonaro, com deleite (e adianto aqui que a única felicidade possível do
bolsonarista, que não é felicidade alguma, é o prazer proporcionado pela ameaça ou pela
punição, em que se misturam ressentimento e requintes de sadismo). “O desespero de vocês é
lindo”, diz uma apoiadora na internet. Um outro, com certo revanchismo de classe, porém
completamente desinformado de seu próprio destino, comenta: “Vocês estão morrendo de
medo porque até agora só os pobres são presos, agora também os ricos irão pra cadeia.” Sem
esse aspecto do “empoderamento” dos impotentes por meio da ameaça, e por que não dizer,
do terror, também a conversão jihadista de milhares de jovens desesperançados tanto no
mundo árabe quanto nas cidades europeias não pode ser explicada. Em uma proporção bem
menor em relação àquele que, sem limites para sua raiva e desejo de revanche, se engaja em
uma organização como o Estado Islâmico e é capaz de se explodir na esperança desesperada
de que algo de bom o bastante ou de muito ruim aconteça, também o ato do eleitor que adquire
seu pequeno prazer ao eleger Bolsonaro possui algo desse gesto. Pulsão de morte? Sem
dúvida. De todo modo, toda uma dimensão de um poder (imaginário ou real) adquirido por meio
da ameaça (e o prazer sádico que decorre disso) impregnou a vida social e política do país.
São ameaças por toda parte. Vive-se uma produção sistemática de arrepios, que são sentidos
ora com horror, ora com prazer. Em debate no Rio de Janeiro, Witzel ameaçava mandar
prender Eduardo Paes. Bolsonaro fez o mesmo com Haddad: “Sua hora vai chegar”, dizia ele.
No caso de Bolsonaro, é uma evidente tática militar de guerra psicológica para amedrontar o
inimigo (se procurarem, verão o quão recorrente é a ameaça de prisão que ele fez a Haddad).
Os futuros estadistas ameaçam prender, e seus concidadãos (já são centenas de relatos
acumulados) ameaçam espancar ou matar, e muitas vezes simplesmente reiteram uma
ameaça vaga, sem conteúdo específico. Seria necessário perguntar qual o lastro dessa
ameaça de Bolsonaro, o que sustenta ela, ou se ela é um blefe. Pois, como diz Marildo
Menegat, “virou um jogo de pôquer no qual todas as cartas são ruins, por isso, basta blefar
antes e mais alto para levar.” 7
De todo modo, é evidente que a própria ameaça se tornou um dos cernes da ideologia, ou a
ideologia se manifesta enquanto ameaça. É algo semelhante àquilo que Silvia Viana chamou
de “cinismo viril” quando analisava o show de horrores dos mandos e desmandos nos reality
shows, 8  e de fato não há nada tão constitutivo da sociedade brasileira quanto a violenta
virilidade patriarcal e nosso cinismo de nascença. 9  Lembremos que a ideologia, em sentido
tradicional, depende de um descompasso entre norma e fato, e a crítica da ideologia parte
justamente dessa contradição. Já o cinismo enquanto ideologia prescinde da norma e se

coloca enquanto fato bruto, ele é violência sem mediações, sem promessa de algo outro para
além dele. Neste aspecto, a ideologia torna-se imune a qualquer desvelamento, pois não há
nada a ser desvelado. Tentar “mostrar” o que é Bolsonaro é por isso, para grande parte de
seus eleitores, uma tentativa em vão, e não surte nenhum efeito justamente porque aquelas
normas às quais tentamos contrapor o horror dos fatos, e que caracterizam o horror como
horrível, caíram por terra.
O discurso de Bolsonaro tem algo daquela “desfaçatez de classe” que Roberto Schwarz viu
estilizada no narrador de Brás Cubas, que é “um show de impudência, em que as provocações
se sucedem, numa gama que vai da gracinha à profanação.” 10  No caso de Bolsonaro, é uma
profanação da própria política (enquanto nós a defendemos, perdemos o lugar de
profanadores). Seu aspecto que mistura violência e gracejo, brutalidade sanguinária e
piadismo, não é tanto a rigidez do militar ultra disciplinado, mas traz representada em si a
conduta própria à classe dominante brasileira desde os tempos de Machado. Bolsonaro diz as
maiores barbaridades como um tiozão da padaria, burro e violento, mas simpático, com um ar
debochado e leve – que é precisamente o que permite a identificação do cidadão médio. Como
dizia Adorno, “o agitador fascista é usualmente um exímio vendedor de seus próprios defeitos
psicológicos. Isso somente é possível devido a uma similaridade estrutural geral entre
seguidores e líder, e o objetivo da propaganda é estabelecer um acordo entre eles.” 11  O fato de
Bolsonaro ser um idiota não joga contra ele, mas a favor: “Os agitadores fascistas são tomados
a sério porque arriscam a se passar por tolos.” 12  O discurso do fascista não é trágico, mas
farsesco (Marcuse já dizia que quando a história se repete como farsa, a farsa é pior que a
tragédia 13 ).
Entretanto, somente burrice e cinismo não dão conta de todo o quadro ideológico. A ameaça
sádica e cínica, por mais central que seja, é, a longo prazo, psicologicamente insuportável. Ela
não é cínica em tempo integral. Há mesmo no bolsonarismo uma pretensão de inteligência
(uma apreensão pseudo-cognitiva do mundo) e uma pretensão de moralidade. Isso contradiz a
tese da desnormatização social generalizada inerente à ideia de cinismo como regra. Tanto
não é o caso de um cinismo de massas, em que a própria transparência dos processos sociais
tenha se tornado a ideologia, que uma campanha, quer dizer, um cyber-ataque terrorista com
amparo internacional e financiado por empresários para a divulgação massiva de mentiras foi
necessário. As famosas e tão debatidas “fake news” têm um papel central no funcionamento
ideológico, na formação de sujeitos paranoicos, acuados, e ao mesmo tempo indignados e
apáticos (a ideia de indignação apática talvez seja aqui complementar à definição de fascismo
como “revolta na ordem”, segundo João Bernardo). O apático indignado é um info-
junkie viciado em fatos. Nas últimas semanas, essas fake news assumiram um evidente caráter
de manipulação de massas com comando centralizado, exemplo claro de guerra psicológica,
tática militar empregada desde a Primeira Guerra Mundial que se define pela produção de um
certo sentimento ou emoção na população (como indignação ou medo), a partir de informações
verdadeiras ou falsas, tendo em vista um certo sistema de valores, crenças e comportamentos,

de modo a converter tais sentimentos em vantagem política ou militar. No caso de Bolsonaro,
mesmo que a notícia venha a ser posteriormente desmentida, cria-se um desnorteamento das
pessoas e um clima de incerteza que beneficiou o candidato, que aparece como figura
reestabilizadora (o efeito de indignação ou medo perdura mesmo depois que a notícia é
desmentida). Isso porque ninguém sabe quem é o forjador ou remetente daquela notícia, ela
simplesmente aparece. E, diferentemente do boato, que pode ter como origem uma notícia
verdadeira que é deturpada no processo comunicativo, as fake news exigem um forjador
consciente.
Porém, desde antes dessa campanha-ataque, já vinha se consolidando o chão ideológico
proto-fascista que tanto fomenta as notícias falsas quanto é retroalimentado por elas. Esse
chão ideológico proto-fascista é uma paranoia com dois aspectos. Por um lado, trata-se de
uma paranoia sexual em que a homofobia da sociedade brasileira se converteu em força
política movida a nojo, elegendo deputados e presidente. As fantasias que circundam o “kit
gay” vão desde a pedofilia até o incesto (devemos portanto ver a tragédia não somente na
disseminação das falsas notícias acerca do “kit gay”, mas sobretudo no fato de que
elas funcionaram). Por outro lado, o antipetismo (que tem seu momento de verdade) tem
também elementos paranoicos e, penso eu, pode ser analisado a partir de estruturas do
antissemitismo. Para o primeiro aspecto (que não é completamente isolado do segundo),
podemos pensar a partir de uma frase amplamente repetida, que é: “A putaria vai acabar.” A
liberalização dos costumes, a visibilização de LGBTs, as cotas, as drogas, sindicatos, as
universidades públicas, peças de teatro com nudez, ONGs, tudo isso aparece como uma
espécie de festa, uma suruba da qual eu fui excluído e que eu quero que acabe. Eu quero que
todos sofram como eu: essa a lógica fundamental do ressentimento. A dinâmica deles é:
“Matam para que se iguale a eles o que lhes parece vivo.” 14 Adorno já dizia que faz parte do
discurso do agitador fascista “a revelação vingativa de toda sorte de prazeres proibidos
usufruídos por outros.” O significante “putaria” aqui engloba desde corrupção até amor
homossexual visibilizado. Outra versão da frase, “a mamata vai acabar”, denota ainda um ódio
à preguiça e aos supostos preguiçosos (de forma semelhante ao ódio aos “judeus parasitas”
que não trabalham) – bolsonaristas dizem que a esquerda vai ser torturada porque agora todos
terão que trabalhar (mostrando aqui o vínculo entre ideologia do trabalho e punição – nada
mais adequado para a crise da sociedade do trabalho, na qual resta somente seu caráter
tautológico e de produção de sofrimento, também bastante adequada à antiética neoliberal da
austeridade). Ao mesmo tempo, nessa mesma ameaça de “a putaria vai acabar”, é possível ver
– por exemplo no grotesco ritual promovido pelo dono de puteiro Oscar Maroni no dia da prisão
de Lula (todos devem ainda ter essa imagem na cabeça) – o verdadeiro anúncio: “a putaria vai
começar.” Alexandre Frota, quando indagado sobre seu passado como ator pornô após sua
eleição como deputado federal, responde ao ingênuo jornalista: “Mas o congresso já é uma
putaria.” O moralismo se autodesativa.

Todas as “fake news” têm caráter de denúncia, e aquelas que circulam em torno do “kit gay”,
que vão desde a acusação de Olavo de Carvalho de que Haddad teria defendido o incesto até
imagens de pedofilia, são mensagens que estimulam tanto repulsa a um outro que realiza um
prazer proibido, imoral, quanto desejo vingativo de linchamento (e como demonstrou o
sociólogo José de Souza Martins, os linchamentos são uma especialidade brasileira praticada
em larga escala). A diferença é que agora o próprio Estado (e a justiça oficial) cumprirá o papel
de justiceiro popular e de linchador – a transformação espetacular (e popular!) de um juiz como
Sergio Moro em “herói” já dava sinais da guinada linchadora e justiceira da justiça e do Estado,
que agora se casa com um punitivismo de massas, que já vinha celebrando atos bárbaros
como prender um ladrão no poste pelo pescoço com uma trava de bicicleta e tatuar à força a
testa de outro.
A esse punitivismo corre em paralelo o antipetismo, que, como disse antes, se estrutura
ideologicamente de forma análoga ao antissemitismo. Segundo Adorno, o antissemitismo tem
um “caráter funcional” que possui uma “independência relativa do objeto”. O antissemitismo é
“um dispositivo device para ‘orientação’ sem esforço em um mundo frio, alienado e altamente
incompreensível.” 15  O antissemitismo é uma crítica primitiva do mundo, funda-se no sentimento
(correto) de que há forças sociais intangíveis que operam às costas dos sujeitos e que carecem
de explicação. A conspiração, forma básica da compreensão antissemita do mundo, é uma
intuição de que existe totalidade social, porém transformada na imagem de uma reunião de
indivíduos excessivamente inteligentes e malignos (além das “ideologias perversas”, uma das
coisas que se pretende abolir, segundo o programa de Bolsonaro, é a “esperteza”). A
divulgação massiva de fotos (montadas ou não) mostrando petistas se encontrando, ou
encontrando outros políticos “malignos e poderosos” como Kirchner (!!!) dá sinal disso. O
grande complô para o antipetismo é o Foro de São Paulo, a partir do qual é possível explicar
terríveis males em frases vagas como esta, que consta no mesmo programa: “Mais de UM
MILHÃO de brasileiros foram assassinados desde a 1 a  reunião do Foro de São Paulo.” 16  Aliás,
a imprecisão e o exagero de números em dados completamente sem sentido são uma
constante no programa: “Graças ao Liberalismo, bilhões de pessoas estão sendo salvas da
miséria em todo o mundo.” As explicações esdrúxulas, que são ao mesmo tempo
“complicadas” e muito simples de compreender, geram satisfação. Como Adorno analisava, há
um “ganho narcísico fornecido pela propaganda fascista”, frente ao qual “qualquer tipo de
crítica ou de autoconsciência é ressentida como uma perda narcísica e incita fúria.” 17  O
fascismo é anti-intelectualista não só no sentido de ódio aos intelectuais, mas também como
ódio ao pensamento, aversão à introspecção.
Vale ressaltar que há um elemento desse novo fascismo que se vincula a uma forma específica
da luta de classes no Brasil. Florestan Fernandes dizia que a luta de classes no Brasil não se
dá entre capital e trabalho, e sim entre quem tem propriedade e quem não tem: por isso ela
não é um mecanismo regulador interno do capital, mas sim simplesmente sanguinária. Alguns
substantivos no programa de Bolsonaro são grafados em maiúsculo, dando a eles uma

conotação semi-religiosa, mas no caso da propriedade privada, para não deixar dúvidas, é dito
de forma clara: ela é sagrada. Portanto aquele que a infringe é um sacrílego. Isso é muito
evidente no “programa”, que visa (1) armar os proprietários (2) “tipificar como terrorismo
invasão de propriedade rural e urbana”, e (3) para ladrões e assaltantes: “prender e deixar na
cadeia” (para não citar as declarações que envolvem pena de morte e esterilização dos
pobres). O que se revela aqui é uma matriz colonial desse neo-fascismo brasileiro,
estruturalmente racista: uma parcela da população é considerada efetivamente descartável
“como modess usado ou bombril” (Mano Brown).
Para além dessa utopia apocalíptica que prevê o extermínio de um contingente da população
supérflua como parte de uma grande “limpeza”, é evidente para todos que Bolsonaro não tem
um programa de governo. Mas penso que também isso não joga contra ele, e pode
eventualmente até jogar a favor. Adorno notou que os agitadores fascistas falam muito sobre
“este grande movimento”, mas “raramente dizem alguma coisa sobre aquilo a que se supõe
que tal movimento conduzirá, para qual fim a organização é boa ou o que o misterioso
renascimento pretende positivamente alcançar” 18 . Ou seja, não há um objetivo claro, um
projeto, um ponto a ser alcançado – mas esse ponto é preenchido pela fantasia, seja pelos
nossos pesadelos, ou pelos delírios perversos deles. Depois que a esquerda brasileira
descobriu sua vocação definitiva para o governo e para a gestão, o espaço que se abriu depois
que a gota d’água de 2013 fez o balde transbordar foi ocupado por uma direita que redescobriu
a anti-política, e que encaminhou os sonhos do povo (que desaprendemos a interpretar) para
esse pesadelo real.

Notas
1 Como defendeu Pablo Otellado. Ver: “ Não é o que parece ”, Folha de S.Paulo, 27 set. 2018.
2  Christian Laval, “ Bolsonaro e o momento hiperautoritário do neoliberalismo ”. Blog da
Boitempo, out. 2018.
3 Marco Aurélio Cabral Pinto, “ A ‘doutrina da dependência’ militar e a eleição de 2018 ”, Carta
Capital, 27/09/2018.
4  Theodor Adorno, “ A teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista ”, em: Margem
Esquerda #7, disponibilizado integralmente no Blog da Boitempo. Citado de: Theodor
Adorno, Ensaios sobre psicologia social e psicanálise, Unesp, p. 185-6.
5 Uma esperança que, entretanto, parece ter se revelado em algumas pessoas, após o
resultado das eleições, como vergonha.
6 Theodor Adorno, “Sobre a relação entre sociologia e psicologia”, em: Ensaios sobre
psicologia social e psicanálise, São Paulo, Unesp, p. 111
7 Marildo Menegat, “ Volver! ”.
8 Silvia Viana,  Rituais de sofrimento , São Paulo, Boitempo, 2013.

9 No auge da era FHC, em 1998, Paulo Arantes escrevia: “Não quero parecer ufanista, mas em
matéria de cinismo também estamos na frente. Ou melhor, continuamos. […] Enquanto na
metrópole um espesso véu vitoriano ainda recobria o interesse nu e cru do pagamento em
dinheiro, numa longínqua sociedade colonial a exploração prosperava a céu aberto, direta e
seca. Na metrópole, todos faziam, porém a rigor não sabiam de nada, ao passo que na
periferia todos sabiam muito bem o que estavam fazendo.” Paulo Arantes, “Eles sabem o que
fazem” in Zero à esquerda, p. 109.
10  Roberto Schwarz, Um mestre na periferia do capitalismo. São Paulo: Duas Cidades, p. 17.
11 Theodor Adorno, “Antissemitismo e propaganda fascista”, p. 144
12 Theodor Adorno, “Antissemitismo e propaganda fascista”, p. 145
13 Herbert Marcuse, “Prólogo”. Em: Karl Marx,  O 18 de brumário de Luís Bonaparte . São
Paulo, Boitempo, 2011,
14 Theodor Adorno, Minima Moralia, p. 228
15 Theodor Adorno, The Autoritarian Personality
16  “Enfrentaremos o viés totalitário do Foro de São Paulo, que desde 1990 tem enfraquecido
nossas instituições democráticas.” (Ou seja, basicamente desde a redemocratização). “ O
caminho da prosperidade: Proposta de Plano de Governo (Jair Bolsonaro 2018) ”, pp. 11-12.
17  Theodor Adorno, “ A teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista ”, p. 177.
18 Theodor Adorno, The Autoritarian Personality.

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