Até ONDE e até QUANDO?

Rémy Herrera    24.Jun.18    Colaboradores

Em França prossegue a ofensiva Macron: privatizações, despedimentos, cortes nas funções sociais do Estado, explosivo crescimento da pobreza infantil. No movimento dos trabalhadores, o esperado recuo das organizações sindicais de direita e reformistas. Mas também a determinação em não ceder, em prosseguir as lutas, e em realizar acções de notável imaginação e impacto.

No conflito na SNCF, um dos argumentos do Presidente Macron é que a «reforma» que impôs aos ferroviários – tendo já sido votada no Parlamento a lei que comporta essa «reforma» - não implicará a privatização do sector ferroviário. Mas, num momento em que as organizações de direita (UNSA) e reformista (CFDT) rompem a unidade sindical e os sindicatos mais combativos (CGT, SUD-Rail) anunciam que prosseguirão a greve durante o Verão (incluindo as saídas dos veraneantes), o ministro da Economia e das Finanças, Bruno Le Maire (ex-ministro de Nicolas Sarkozy) apresentava o seu projecto de «lei Pacto». No âmago deste projecto, dissimulado sob um dispositivo alegadamente destinado a ajudar as pequenas e médias empresas e a desendividar o Estado, figura um programa governamental de privatizações.

Este texto prevê as próximas cedências de participações do Estado a proprietários privados na ADP (sociedade que gere os aeroportos Paris-Charles-de-Gaulle e Orly, número 1 na Europa para fretes e correio), ENGIE (grupo de energia, anteriormente GDF-Suez, 3º grupo mundial na energia não petroleira) e a Française dos jogos (lotarias e apostas desportivas). O abandono do Estado diria também respeito à Air France (onde os sindicatos permanecem mobilizados num conflito social por resolver), Orange (telecomunicações) e sector automóvel (Peugeot, Renault). Enquanto os media e as suas legiões de mercenários injectam a dose máxima de «ópio do povo», até onde conseguirão os neoliberais fazer recuar o Estado?

O contra-ataque dos trabalhadores não se fez esperar. Em 14 de Junho cerca de 150 locais eram ocupados por electricistas e trabalhadores do gás. Pode gostar-se de futebol, mas gosta-se mais ainda da luta. Em numerosas das agências em que vieram pedir explicações aos respectivos dirigentes acerca da privatização da energia, os empregados viram os seus chefes baixar a cabeça e nada dizer, barricarem-se nos seus gabinetes ou pôr-se em fuga! Em 22 de Junho, mais de 220 locais estavam ocupados pelos sindicalistas. Em alguns locais, bem no meio dos átrios de entrada foram instaladas piscinas insufláveis e os grevistas, em fato de banho, banhavam-se enquanto aguardavam que os seus filhos fossem convidados a fazer o mesmo no fim-de-semana! Afinal, nas greves da Frente Popular em 1936 jogava-se ping-pong nas fábricas ocupadas!

Enquanto isto, os mordomos de Emmanuel Macron anunciavam que o Presidente deseja construir – à conta da República – uma nova piscina (acima do solo) em Brégançon, local de vilegiatura colocado à sua disposição na Côte d’Azur. E que o casal presidencial decidiu renovar a baixela do Eliseu (por 500 000 euros)! No mesmo dia, circulava na internet um vídeo mostrando o Presidente a declarar que é gasto «um saco de dinheiro louco» nos apoios sociais mínimos. Será que podemos concluir que o próximo empreendimento será a redução dos orçamentos públicos de luta contra a pobreza (rendimentos e prestações sociais atribuídos às famílias pobres, rendimento mínimo para idosos, apoios ao alojamento…)?

Aí está uma coisa que cairia bem. Um relatório oficial recente indica que o número de crianças pobres aumentou explosivamente: cerca de 20% das crianças vivem hoje, em França, abaixo do limiar da pobreza. São sobretudo originários de famílias monoparentais e/ou desempregadas. O poder afirma que o desemprego baixa. Na realidade, os constrangimentos postos aos desempregados para se registarem endureceram de tal forma que permitem eliminar das estatísticas muita gente sem emprego. Que consequência retira daí o governo? Despedir 4.000 empregados do Pôle Emploi, o organismo públicos encarregado de auxiliar os desempregados a encontrar um emprego!

Irão juntar-se portanto aos milhares de despedidos do grupo Carrefour, que em 15 de Junho tinham ficado a saber que a assembleia de accionistas tinha atribuído ao seu PDG um prémio de despedida de 13 milhões de euros pela gestão realizada (anúncio da eliminação de 2.500 postos de trabalho) e uma reforma anual de mais de meio milhão de euros. Até quando irão estes dirigentes predadores e cínicos, apoiados pelo governo, conseguir manter em funcionamento o seu sistema de destruição e pilhagem?

Em 21 de Junho, a Federação CGT Minas-Energia reivindicava o corte de alimentação de gás ao Palácio do Eliseu, colocado «em precariedade energética» como milhares de lares franceses. Alguns dias antes, perto de Toulouse, o Primeiro-ministro Édouard Philipe era obrigado a discursar às escuras e sem microfone por causa de um corte de electricidade organizado pela CGT.

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