Barreira sino-russa contra a intromissão dos EUA

M.K. Bhadrakumar    23.Ago.19    Outros autores

Os EUA acumularam suficiente experiência e sucessos na promoção de “revoluções coloridas” para se abalançarem a duas operações simultâneas de grande ambição: Hong Kong e Moscovo. O problema é irem confrontar-se com forças e meios muito superiores àqueles com que se depararam em outros lugares. E desta nova ofensiva resultarem novas plataformas de cooperação sino-russa, outro pesadelo para os EUA e seus aliados.

A China acusou explicitamente os Estados Unidos e a Grã-Bretanha de fomentarem os protestos “pró-democracia” em Hong Kong. Pequim assumiu o assunto por meio do canal diplomático exigindo que os serviços secretos dos EUA parem de incitar e encorajar os manifestantes de Hong Kong. Na semana passada, evidências fotográficas apareceram nos media mostrando a conselheira política do consulado dos EUA em Hong Kong, Julie Eadeh, a confabular no átrio de um hotel de luxo local com os líderes estudantis envolvidos neste movimento “pró-democracia” de Hong Kong.

Washington ficou ressentida pelo facto de a cobertura de Julie ter sido quebrada. Aparentemente ela é uma especialista que organizou “revoluções coloridas” em outros países e foi revelado que estava envolvida na trama de “actos subversivos” na região do Médio Oriente. O Global Times escreveu um editorial furioso . Dizia:
“O governo dos EUA desempenhou um papel vergonhoso nos distúrbios de Hong Kong. Washington apoia publicamente os protestos e nunca condena a violência que atinge a polícia. O consulado geral dos EUA em Hong Kong está a aumentar a sua interferência directa na situação de Hong Kong. A administração dos EUA está a instigar tumultos em Hong Kong, da mesma forma que alimentou “revoluções coloridas” em outros lugares do mundo.2
A alegação chinesa será plausível? Escrevendo no Asia Times , o renomado académico, economista e autor canadiano Ken Moak comentou recentemente que os protestos são generosamente financiados e que a sua logística e organização são de uma escala de recursos financeiros a que “só governos estrangeiros ou indivíduos ricos que poderiam lucrar com eles se comprometeriam”. Pormenorizou exemplos passados de tentativas anglo-americanas para desestabilizar a China.

Moak prevê futuras operações subversivas “mais intensas e violentas” contra a China por parte EUA.

De facto, agentes provocadores estão a calibrar os protestos quase diariamente, como a queima da bandeira chinesa e a ocupação do aeroporto de Hong Kong. O plano do jogo é forçar Pequim a intervir para que se siga o dilúvio – sanções ocidentais, et al.

Com a tecnologia 5G prestes a ser lançada, este é um momento oportuno para os EUA arrebanharem os seus aliados ocidentais num boicote económico à China, no momento em que países como a Alemanha e a Itália, que têm relações comerciais e de investimento florescentes com a China, abominam ficar a reboque os EUA.

O renomado jornalista e escritor italiano e observador de longa data da China baseado em Pequim, Francesco Sisci, escreveu recentemente que Hong Kong é, na verdade, a “válvula de segurança” de Pequim e sufocá-la pode causar asfixia em todo o sistema chinês. Sisci compara Hong Kong a “uma câmara de compensação, uma válvula de segurança entre a economia fechada da China continental e as economias abertas do resto do mundo”.

Se a China podia globalizar com avidez e ainda assim manter a sua economia fechada era por ter Hong Kong, que era completamente aberta e proporcionava o terceiro maior mercado financeiro do mundo. Se ocorrer uma fuga de capitais em larga escala em Hong Kong a China terá que efectuar os seus futuros acordos financeiros através de países sobre os quais não tem controlo político. Para citar Sisci, “o actual status de Hong Kong pode ajudar Pequim a comprar tempo, mas a questão crucial ainda é o status da China. A época de estar dentro e fora do sistema comercial global graças a uma arquitectura complexa de acordos especiais está rapidamente a esgotar-se “.

Dito simplesmente, a agitação em Hong Kong torna-se um modelo da abordagem de pressão máxima dos EUA para quebrar o ímpeto de crescimento da China e a sua ascensão como uma rival na tecnologia global do século XXI. As mãos nos EUA que influenciam a China já estão a abrir a garrafa de champanhe por “a revolução estar no ar em Hong Kong” – e, isso marcará “o fim do comunismo sobre o solo chinês”.

Entra a Rússia. Coincidência ou não, ultimamente pequenos fogos estão a ser acesos também nas ruas de Moscovo e estão a propagar-se em protestos significativos contra o presidente Vladimir Putin. Se a lei de extradição foi o pretexto para o tumulto de Hong Kong, a eleição para a Duma de Moscovo (legislativo da cidade) foi aparentemente o que provocou o protesto russo.

Assim como em Hong Kong há descontentamento económico e social, a popularidade de Putin diminuiu ultimamente, o que é atribuído à estagnação da economia russa.

Em ambos os casos, a agenda americana é descaradamente pela “mudança de regime”. Isto pode parecer surpreendente, uma vez que as lideranças chinesa e russa parecem sólidas. A legitimidade do Partido Comunista Chinês presidido por Xi Jinping e a popularidade de Putin ainda estão a um nível que faz inveja a qualquer político em qualquer parte do mundo, mas a doutrina das “revoluções coloridas” não é construída sobre princípios democráticos.

As revoluções coloridas referem-se à inversão de uma ordem política estabelecida e não tem correlação com o apoio das massas. A revolução colorida é o golpe por outros meios. Não é nem mesmo acerca de democracia. As recentes eleições presidenciais e parlamentares na Ucrânia revelaram que a revolução colorida de 2014 foi uma insurreição que a nação repudia.

É claro que as apostas são muito altas quando se trata de desestabilizar a China e a Rússia. Está em causa nada menos do que o equilíbrio estratégico global. A estratégia de contenção dupla dos EUA contra a Rússia e a China é na sua quinta-essência o projecto New American Century – a hegemonia global dos EUA ao longo do século XXI.

Os EUA apostaram que Moscovo e Pequim seriam duramente pressionados para enfrentar o espectro das revoluções coloridas e que as isolariam. Afinal de contas, regimes autoritários são exclusivos e dentro do sanctum sanctorum das suas políticas internas nem os seus amigos ou aliados mais próximos são permitidos.

É aqui que Moscovo tem uma surpresa desagradável para Washington. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, disse na sexta-feira em Moscovo que a Rússia e a China deveriam intercambiar informações sobre a interferência dos EUA nos seus assuntos internos. Ela assinalou que Moscovo está consciente das declarações chinesas de que os EUA interferem nos assuntos de Hong Kong e trata estas informações “com toda a seriedade”.

“Além disso, penso que seria correcto e útil trocar tais informações através dos respectivos serviços”, disse Zakharova, acrescentando que os lados russo e chinês discutirão a questão dentro em breve. Acrescentou que os serviços secretos dos EUA estão a utilizar tecnologia para desestabilizar a Rússia e a China.

Pouco antes, na sexta-feira, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia convocou o chefe da Secção Política da embaixada estado-unidense, Tim Richardson, e apresentou-lhe um protesto oficial contra o encorajamento dos EUA a uma manifestação não autorizada da oposição em Moscovo no dia 3 de Agosto.

Na verdade, Moscovo tem muito mais experiência do que Pequim em neutralizar operações secretas da inteligência dos EUA. É uma característica marcante da grande habilidade e perícia bem como da tenacidade do sistema russo que durante toda a era da Guerra Fria e no período “pós-soviético” nunca tenha havido nada parecido com os motins na Praça Tiananmen em Pequim (1989) ou em Hong Kong (2019) desencadeados pelos serviços secretos dos EUA.

A mensagem de Moscovo para Pequim é directa e franca – “Unidos venceremos, divididos cairemos”. Sem dúvida, os dois países estiveram em consultas e queriam que o resto do mundo soubesse disso. Na verdade, a mensagem transmitida por Zakharova – sobre uma barreira (firewall) conjunta contra a interferência dos EUA – é de significado histórico. Ela eleva a aliança russo-chinesa a um nível qualitativamente novo, criando mais um reforço político de segurança colectiva.
11/Agosto/2019

O original encontra-se em indianpunchline.com/a-sino-russian-firewall-against-us-interference/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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