Bolívia: os fios da conspiração

Marcos Domich    27.May.12    Colaboradores

Marcos DomichA conspiração imperial abrange vários países latino-americanos. O nosso país, todavia, é o alvo imediato, uma vez que é tido como o elo mais fraco da cadeia de países que viraram à esquerda ou simplesmente adoptaram posições progressistas e antimonopolistas.

I

Um político avisado como o Dr. Guevara Arze dizia que “ninguém conspira na Bolívia com testemunho público”. Dizia-o pouco tempo antes do golpe militar de Todos os Santos (1979). Aqueles que estavam comprometidos - dirigentes e parlamentares do MNR, de ADN e até do MNRI - negavam rotundamente e dissimulavam a sua participação. Mas vários deles acabaram ministros do breve gabinete encabeçado por Natusch. Quando se verificou o sequestro do Dr. Siles Zuazo, que era o sinal para o início de outro golpe, também os políticos da direita juravam e rejuravam que não andavam conspirando. Quando fracassou a operação golpista, muito rapidamente se veio a verificar que militares e até muito altos funcionários do governo da UDP estavam de alguma forma comprometidos.

Conspiração internacional. Poderíamos dar mais exemplos da história recente do país. É desnecessário. Vamos agora ocupar-nos da conspiração em marcha contra o governo de Evo Morales. É o regime de maior perfil antimonopolista, anti-neoliberal e anti-imperialista dos últimos tempos. Isto é precisamente o que mais irrita o imperialismo, que colocou em andamento todos os seus mecanismos de desestabilização e os seus agentes internos para derrubar governos que o contestam. Dizemo-lo no plural porque a conspiração imperial abrange vários países latino-americanos: Cuba, sempre, mas agora também Venezuela, Equador, Nicarágua e Bolívia estão na primeira linha. O nosso país, todavia, é o alvo imediato, uma vez que é tido como o elo mais fraco da cadeia de países que viraram à esquerda ou simplesmente adoptaram posições progressistas e antimonopolistas, como a Argentina, que nacionalizou a REPSOL.

A conspiração é ampla. A este ponto dos conflitos e movimentações é possível afirmar que os fios conspirativos, movidos pelo imperialismo, são muitos e muito entrelaçados graças, antes de mais, ao trabalho dos meios de comunicação, na sua grande maioria propriedade dos grupos de poderosos e com muitos comunicadores - consciente ou inconscientemente – juntando a sua capacidade de comunicação à actividade dos conspiradores.

Mais do que provável, é certo que o governo de Evo cometeu erros. Mas, na nossa opinião, nenhum desses erros foi de princípio, mas sim de método, em resultado de medidas inoportunas, mal calculadas e mal apresentadas. É nesse quadro que a convulsão social actual é aproveitada para desestabilizar o governo. Paralelamente, é evidente que a direita não possui nem dirigentes reconhecidos nem aceites. Estão em processo de os criar. Os mais visíveis são Doria Medina e Juan del Granado. Ambos com uma folha de serviço ao neoliberalismo mais ou menos equivalente e com uma matriz político ideológica comum: o “mirismo”, desaparecido organicamente mas persistente nas suas linhas de conduta. Cada um deles aspira a ser aquele que congregue sobretudo todo o desânimo das camadas médias e se sustente com o apoio das agências do império e da oligarquia. Veremos qual deles chega à meta…

II

Alavancas sensíveis. Existem outros fios que se dirigem a sectores populares e até aos organismos de segurança. Referimo-nos às reivindicações de algumas comunidades indígenas que querem aplicar custe o que custar a tese da propriedade da “terra e território” e desalojar, por exemplo, cooperativas ou pequenas empresas mineiras. A questão do TIPNIS (Território Indígena, Parque Nacional Isiboro Sécure) reacendeu-se com a IX marcha indígena que, tal como a VIII, tem a intenção de chegar a La Paz, entrar na Plaza Murillo e tentar um assédio ao Palácio Quemado. Com grande irresponsabilidade é difundida uma macabra palavra de ordem: enforcariam Evo Morales como foi enforcado Villarroel em 1946. Tudo por causa de uma estrada desnecessária que destruiria o coração da amazónia.

As esposas dos polícias organizam uma greve da fome e solicitam para esse fim instalações da COB, reclamando que o governo nivele os salários dos seus esposos com os dos militares. Os médicos prosseguem, há mais de 45 dias, com uma greve e com manifestações pedindo a revogação de um decreto que afecta o seu cómodo horário de trabalho. Como a greve em si tem um impacto limitado convocaram os estudantes de medicina para praticar violências nas ruas e cortes de estrada.

Entre Tarija y Chuquisaca pode, a qualquer momento, produzir-se um choque regionalista na disputa das vantagens e impostos da jazida “Margarita”, compartilhada por ambos os departamentos. Em resumo, o inventário de conflitos é infindável, e os conflitos continuam a alimentar-se a si próprios.

Desorientação sindical. O que parece inexplicável, neste processo de conflitos e de conspiração, é a atitude que tomou grande parte da direcção da COB, desempenhando o papel de eixo articulador. Essa posição - que sabemos que nem de longe abarca a totalidade, ou sequer uma clara maioria da base – aparece, graças mais uma vez aos meios de comunicação, como aquela que é determinante para o sentido do conflito geral. A direita, subtilmente, encoraja as suas reuniões, proporciona recursos para seus encontros, marchas, etc. A isso soma-se a algazarra ultra-esquerdista, sobretudo do trotskismo, que pensa que chegou a hora de “derrubar o índio e instaurar a ditadura do proletariado”. Nesta azáfama estão até estimulando reuniões como uma chamada “cimeira sindical”, à margem dos estatutos e com tão tortuosas intenções que chegam inclusivamente a contrariar os dóceis dirigentes recentemente eleitos no congresso de Tarija.

Há que admitir que nunca o movimento sindical esteve tão desorientado e que nunca tinham atingido uma tal ausência de rumo político e de cumprimento da sua missão histórica. Chegou-se ao cúmulo de tolerar e - até em violação dos seus princípios estatutários – a integrar no Comité Executivo elementos desqualificados e publicamente conhecidos como ex (¿?) agentes de anteriores ditaduras militares.

Apesar deste panorama sombrio, há que confiar em que os elementos sãos das direcções sindicais, hoje amedrontados e encurralados pela algazarra ultra, vão reagindo. Talvez seja útil dizer que é tempo de empreender uma contra-ofensiva ideológica e política e recordar aqui algo que Lénine disse: “Tudo o que seja inclinar-se perante a espontaneidade do movimento operário, tudo o que seja diminuir o papel do elemento consciente, o papel da vanguarda política, equivale… a fortalecer a influência da ideologia burguesa sobre os operários”.

Na nossa opinião é inadiável organizar a direcção do Processo de Mudança, armá-lo sem vacilações de uma ideologia revolucionaria; adoptar um programa mínimo que reforce o caminho da transição e, superando o desânimo, empreender uma contra-ofensiva que derrote a conspiração. Existem reservas e experiências suficientes para o conseguir.

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