Breve história da NATO de 1991 aos dias de hoje (IX, X)

Manlio Dinucci    25.Nov.17    Outros autores

O ataque EUA/NATO à Síria segue o padrão anteriormente experimentado, nomeadamente na Líbia. Mas o golpe de estado na Ucrânia traz outros elementos. No lugar da tropa de choque utilizada no Médio-Oriente, recrutada entre o terrorismo islâmico, surgem agora grupos paramilitares neonazis. A violência contra os povos assume aqui contornos mais especializados, tomando como alvo particular os comunistas e os sindicalistas. O imperialismo assume a aliança com o fascismo.

IX

O início da guerra contra a Síria

Em Outubro de 2012 o conselho do Atlântico denuncia «os actos agressivos do regime sírio na fronteira sul-oriental da NATO», aprestando-se a desencadear o artigo 5º que compromete à assistência armada ao país membro «atacado», a Turquia. Mas já tinha antes sido efectivado o «não-artigo 5º» - introduzido no decurso da guerra contra a Jugoslávia e aplicado contra o Afeganistão e a Líbia – que autoriza operações não previstas pelo artigo 5º fora do território da Aliança.
A guerra na Síria começa em 2011. Eloquentes imagens dos edifícios de Damasco e Alepo devastados por explosivos muito poderosos mostram que se trata de acções, não de simples rebeldes, mas de profissionais da guerra infiltrados. Cerca de 200 especialistas das forças de elite britânicas SAS e SBS – reporta o Daily Star – operam na Síria, com unidades britânicas e francesas.
As tropas de choque são constituídas por um amontoado de grupos islamitas (muito pouco tempo antes definidos por Washington como terroristas) provenientes do Afeganistão, Bósnia, Chechénia, Líbia e alguns outros países. No grupo de Abu Omar al-Chechen – refere o enviado do Guardian a Alepo – as ordens são dadas em árabe, mas precisam de ser traduzidas em checheno, tajique, turco, dialecto saudita, urdu, francês e algumas outras línguas. Providos de passaportes falsos (especialidade CIA), os combatentes afluem às províncias turcas de Adana e Hatay, fronteiras à Síria, onde a CIA abriu centros de formação militar. As armas chegam sobretudo via Arábia Saudita e Qatar que, tal como na Líbia, fornecem também as forças especiais.
O comando das operações encontra-se a bordo de navios NATO no porto de Alexandrite (Iskenderun). É aberto em Istambul um centro de propaganda em que dissidentes sírios, formados pelo Departamento de Estado dos EUA, elaboram informações e vídeos que são difundidos por redes de satélite. A guerra da NATO contra a Síria está portanto já em acção, com a justificação oficial de ajudar o país a libertar-se do regime de Assad. Tal como na Líbia, foi metida uma cunha nas fracturas internas de modo a derrubar o Estado, instrumentalizando a tragédia das populações martirizadas.
Uma das razões pelas quais se quer atingir e ocupar a Síria é o facto de a Síria, Irão e Iraque terem em 2011 assinado um acordo para um gasoduto que deveria ligar a jazida iraniana de South Pars, a maior do mundo, à Síria e ao Mediterrâneo. A Síria, onde fora descoberta uma outra grande jazida perto de Homs, poderia tornar-se assim um ponto de cruzamento de corredores energéticos alternativos aos que atravessam a Turquia e outros percursos, controlados pelas empresas estado-unidenses e europeias.

X

O golpe de Estado na Ucrânia

A operação efectivada pela NATO na Ucrânia tem início quando em 1991, depois da desagregação do Pacto de Varsóvia, se desagrega também a União Soviética da qual esta fazia parte. Os EUA e os seus aliados europeus agem de imediato no sentido de retirar a maior vantagem da nova situação geopolítica.
A Ucrânia – cujo território de mais de 600.000 km2 forma uma zona-tampão entre a Rússia e a UE – não entra na NATO, ao contrário do que fazem outros países da ex. URSS e do ex. Pacto de Varsóvia. Vai em contrapartida entrar no «Conselho de cooperação norte-atlântico» e, em 1994 na «Parceria para a paz», contribuindo para as operações de “manutenção da paz” nos Balcãs.
Em 2002 é adoptado o «Plano de acção NATO-Ucrânia» e o presidente Kouchma anuncia a intenção de aderir à NATO, Em 2005, na esteira da “revolução laranja” (orquestrada e financiada pelos EUA e pelas potências europeias), o presidente Yushchenko é convidado para a cimeira NATO em Bruxelas.
Imediatamente depois é lançado um “diálogo intensificado sobre a aspiração da Ucrânia a tornar-se membro da NATO” e em 2008 a cimeira de Bucareste dá luz verde à sua entrada. Em 2009 Kiev assina um acordo que permite o trânsito terrestre pela Ucrânia de abastecimentos para as forças NATO no Afeganistão. A adesão à NATO parece desde então certa mas, em 2010, o presente recém-eleito Yanoukovitch anuncia que, mantendo embora a cooperação com, a adesão à NATO não integra o programa do seu governo.
Mas entretanto a NATO tece uma rede de ligações no interior das forças armadas ucranianas. Oficiais superiores participam ao longo de anos em cursos do Otan Defense College em Roma e em Oberammergau (Alemanha), sobre temas relativos à integração das forças armadas ucranianas com as da NATO. No mesmo quadro insere-se a instituição, junto da Academia militar ucraniana, de uma nova “faculdade multinacional” com docentes NATO.
É igualmente muito desenvolvida a cooperação técnico-científica no domínio dos armamentos de modo a facilitar, através de uma maior inter-operacionalidade, a participação das forças armadas ucranianas em “operações conjuntas pela paz” sob orientação NATO.
Para além disso, e dado que «numerosos ucranianos têm falta de informação sobre o papel e os objectivos da Aliança e mantêm na ideia estereótipos ultrapassados datando da guerra-fria», a NATO institui em Kiev um Centro de informação que organiza encontros e seminários e mesmo visitas de “representantes da sociedade civil” ao quartel general de Bruxelas.
E como o que existe não é apenas aquilo que se vê, é evidente que a NATO constrói uma rede de relações entre os meios militares e civis muito mais alargado do que aquela que está à vista.
Sob a direcção EUA/NATO, através da CIA e de outros serviços secretos, vão ser recrutados, financiados, treinados e armados militantes neonazis. Documentação fotográfica de 2006 mostra jovens militantes neonazis do Uno-Unso na Estónia, em treino orientado por instrutores NATO, que lhes ensinam técnicas de combate urbano e a utilização de explosivos para sabotagens e atentados.
É o mesmo método que a NATO utilizou, durante a guerra-fria, para formar a estrutura paramilitar secreta “Gládio”. Activa também em Itália onde, em Camp Darby e outras bases, grupos neofascistas são treinados, preparando-os para atentados e para um eventual golpe de estado.
É esta estrutura paramilitar que entra em acção na Praça Maidan, transformando-a em campo de batalha: enquanto grupos armados assaltam os edifícios governamentais, atiradores isolados “desconhecidos” atiram com as mesmas espingardas de precisão tanto sobre os manifestantes como sobre os polícias (quase todos atingidos na cabeça).
Em 20 de Fevereiro o secretário-geral da NATO dirige-se em tom de comando às forças ramadas ucranianas, advertindo que devem “permanecer neutrais”, sob pena de “graves consequências negativas para as nossas relações”. Abandonado pela cúpula das forças armadas e por uma grande parte do aparelho governamental, o presidente Viktor Yanoukovitch é obrigado a fugir.
Andriy Parubiy – co-fundador do partido nacional-social, constituído em 1991 sobre o modelo do partido nacional-socialista de Adolf Hitler e chefe das formações militares neonazis – é colocado à frente do «Conselho de defesa e de segurança nacional».
O putsch da Praça Maïdan é acompanhado de uma campanha de perseguição, dirigida nomeadamente contra o Partido comunista e os sindicatos, análoga às que marcaram a chegada do fascismo em Itália e do nazismo na Alemanha. Sedes de partido destruídas, dirigentes linchados, jornalistas torturados e assassinados; activistas queimados vivos na Casa dos Sindicatos em Odessa; habitantes de origem russa da Ucrânia oriental, desarmados, são massacrados em Mariupol, bombardeados com fósforo branco em Slaviansk, Lugansk e Donetsk.
Trata-se de um verdadeiro golpe de estado sob o comando EUA/NATO, com o objectivo estratégico de provocar uma nova guerra-fria na Europa para atingir e isolar a Rússia e, ao mesmo tempo, reforçar a influência e a presença militar dos EUA na Europa.
Perante o golpe de estado e a ofensiva contra os russos da Ucrânia, o Conselho supremo da República autónoma da Crimeia – território russo integrado na Ucrânia na época soviética, em 1954 – vota a secessão relativamente Kiev e solicita a anexação à Federação Russa, decisão que será confirmada com 97% de votos favoráveis em referendo popular. Em 18 de Março de 2014 Vladimir Putin assina o tratado de adesão da Crimeia à Federação Russa, com o estatuto de república autónoma.
A Rússia vai então ser acusada pela NATO e pela UE de ter anexado ilegalmente a Crimeia e será submetida a sanções.

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos