Bush: uma viagem em vão

La Jornada*    07.Mar.07    Outros autores

visita de bush
Na ponta final de dois mandatos marcados pela mentira, a derrota militar no Iraque, a crise económica e financeira, o desprestígio e a desaprovação internos e mundiais, George W Bush, inicia esta semana um périplo por cinco países latino-americanos que apenas lhe pode trazer manifestações de repúdio.

Derrotado militarmente no Iraque e politicamente nos Estados Unidos, desprestigiado pelo peso das suas próprias mentiras e no troço final de uma presidência minguante que deixa saldos de desastre no seu país e no mundo, George W Bush, depois de seis anos de esquecimento, volta a ver a que foi a mais sólida região de influência de Washington: a América Latina. Mas a viagem que o governante estadunidense empreenderá esta semana por cinco países desta zona – incluindo o nosso [México] – ocorre num novo contexto, no qual os diversos países do hemisfério iniciaram o caminho por projectos nacionais independentes que questionam frontalmente os afãs hegemónicos dos Estados Unidos no continente.

O mapa latino-americano, que até há uns anos, com excepção de Cuba, era uma área de submissão e acatamento dos ditames económicos da super potência, aparece hoje povoado de exercícios de soberania de diversa orientação, mas unidos pelo propósito da integração regional: apesar das suas diferenças, os governos da Argentina, Bolívia, Brasil, Equador, Nicarágua e Venezuela animam propostas de desenvolvimento nacional à margem das determinações do “Consenso de Washington.” Além disso, as autoridades de cada um destes países manifestam, abertamente, as suas discordâncias com o papel que a Casa Branca pretende desempenhar no planeta e no hemisfério.

Em tais circunstâncias, o itinerário latino-americano de Bush reflecte uma colecção menor de aliados regionais – como a Guatemala, a Colômbia e o México, governados por grupos de direita de clara orientação oligárquica –, um sócio menor e conjuntural – o Uruguai – que acabou a aproximar-se de Washington não por convicção, mas pelas suas dissenções com os outros parceiros do Mercosur, e o Brasil, cujo presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, encabeça o mais moderado dos projectos de desenvolvimento alternativo, e com um governo que, conhecedor da sua condição de potência regional, se empenha num complexo jogo de equidistâncias.

A não ser por lamentável alienação dos governos de Filipe Calderón, Óscar Berger e Álvaro Uribe, Bush não tem nada a esperar da América Latina, salvo o repúdio. O texano fez da “guerra contra o terrorismo internacional” a divisa central dos seus dois mandatos, e o subcontinente não tem nada a fazer nessa aventura neo-colonial e sangrenta. As propostas de intercâmbio económico assente em bases justas e equitativas foram de antemão descartadas por Washington, cuja iniciativa de Acordo de Livre Comércio das Américas (ALCA) procurava impor a toda a região termos de troca tão predadores como os que sofre há treze anos o nosso país com o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLCAN). O outro grande tema da relação dos Estados Unidos com a América Latina, a migração, foi convertido pela classe política de Washington em mote de demagogia eleiçoeira e a Casa Branca carece já de qualquer margem política razoável – para não dizer de vontade – para conseguir os acordos bilaterais ou regionais nesta matéria ou, pelo menos, uma regulação interna menos lesiva e gravosa que a actual para os milhões de trabalhadores latino-americanos – andinos, centro-americanos, caribenhos, mexicanos – que viajam até ao território estadunidense em busca de emprego.

Em suma, esta região não tem nada de bom a esperar de uma presidência estadunidense afundada em desprestígio e no repúdio interno e mundial. Por isso, o iminente périplo de Bush por cinco países latino-americanos será uma viagem em vão.

* Editorial de dia 5 de Março de 2007 do prestigiado jornal mexicano La Jornada

Tradução de José Paulo Gascão

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