Cabeças coroadas*

Filipe Diniz    13.Abr.14    Colaboradores

Em menos de duas semanas, Obama e Isabel II foram de visita ao Papa Francisco. Tratando-se de um Papa a cuja eleição não serão estranhas as preocupações face aos processos progressistas em curso na América Latina, e estando em curso uma violenta contra-ofensiva imperialista, talvez se possam adivinhar alguns temas comuns. Mesmo que a rainha só tenha interesse nas Malvinas, de cujo território é nominalmente proprietária.

Em menos de duas semanas o Vaticano foi visitado por Barack Obama e pela rainha de Inglaterra. Esta proximidade no tempo suscita algumas constatações curiosas.

Trata-se de três chefes revestidos de um poder teocrático. Se isso é óbvio em relação aos monarcas do Vaticano e de Inglaterra - chefe da Igreja Anglicana - não é menos visível na forma como o poder nos EUA vem crescentemente reivindicando uma legitimação religiosa. Não se trata apenas do “destino manifesto” ou do combate entre o “bem” e o “mal”. Trata-se da sistemática invocação de orientação divina concreta, que tanto iluminou o narcoléptico Reagan ou o tosco G. W. Bush como agora ilumina o sofisticado Obama, a quem “Deus guiou” em todos os passos, desde a ida para Chicago e à mulher com quem casou até à ida para a Casa Branca (http://www.whitehouse.gov/the-press-office/2014/02/06/remarks-president-national-prayer-breakfast), e certamente continua a “guiar” quando à terça-feira decide quem vai ser assassinado por um drone.

Segundo a Forbes, Obama é o 2º personagem mais poderoso do mundo, o Papa Francisco é o 4º. Isabel II não consta dessa lista. Embora a simpática senhora receba mais de 25 milhões de euros anuais do Estado e a sua fortuna ascenda a 350 milhões de euros, diz-se que o seu papel é meramente decorativo. É a maior proprietária de terras do mundo. Só o ducado de Lancaster proporciona-lhe um rendimento de 25 milhões de euros. Se esta senhora é símbolo de alguma coisa, é-o da monarquia assente num pacto constitucional entre a aristocracia latifundiária e a burguesia ascendente que Marx e Engels tão bem descreveram. Um poder de Estado que congrega um domínio económico, social, político e espiritual das classes dominantes que - assumindo formas muito diversificadas e em tantos casos absurdamente anacrónicas - permanece e deseja perpetuar-se.

Que estes personagens passem em tão curto espaço pelos mesmos salões não será problemático. Falta saber que bênçãos trocaram entre si, nomeadamente o chefe da maior potência imperialista e o chefe espiritual de uma instituição com 1,2 mil milhões de seguidores. Para os povos é sempre preferível correr do que fiar-se na Virgem.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2106, 10.04.2014

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