Carta aberta de Simón Trinidad, comandante das FARC, preso numa cadeia dos EUA

Simón Trinidad*    08.Nov.06    Colaboradores

Simón Trinidad
“Se esse é o preço a pagar pelos nossos ideais e pelos princípios que nos impelem à luta e que dão razão de ser à nossa existência, que se há-de fazer, bem-vinda seja prisão. Outros farão uso da sua liberdade para concluir os nossos sonhos de um mundo sem exploradores nem explorados e sem propriedade privada sobre os meios de produção”.

Sobre o julgamento devo ressaltar que, agora, os procuradores dizem ter várias pessoas que testemunharão em juízo que estive reunido com os três estadunidenses [1] em 2003. Tanta mentira, tanta adulteração da verdade, tanto falso testemunho só indica que as autoridades gringas, num julgamento justo, não poderiam condenar-me, e que, por trás disto tudo só há um espírito retaliatório contra as FARC.

Foi algo nebuloso no processo a proposta feita pelos procuradores ao juiz para que este determine manter em segredo de justiça a identidade dos doze jurados, com o argumento de que as FARC atentariam contra a sua vida e segurança. Com isto, o que os procuradores procuram é colocar, desde início, o júri contra mim, aproveitando-se do estado de prevenção que criaram no povo dos Estados Unidos contra tudo o que o Governo apelide de terrorismo. A propósito de julgamentos, a juíza de Valedupar continua empenhada em apressar o julgamento de Consuelo Araújo [2], apesar da carta que lhe dirigi fazendo-lhe ver que me negou o direito de falar com o meu advogado e de conhecer o processo, para poder fazer a minha defesa. Tanto num como noutro julgamento, o que se aplica é a “lei suprema”, a famosa, a respeitada, a intocável “lei da rolha”, do poema de Neruda.

Desde 8 de Fevereiro do ano passado, a pouco mais de um mês da minha extradição, o Departamento de Estado determinou manter-me sob o regime de “medidas administrativas especiais” (SAM em inglês), razão porque me mantém numa área de segurança máxima desta cadeia, fechado na cela as 24 horas do dia, sem direito a falar ao telefone, a enviar ou receber correio, sem visitas, só podendo reunir-me com os advogados norte-americanos.

E nos últimos seis meses estas condições endureceram ao ponto de me terem transferido para uma cela mais pequena, onde não vejo ninguém, para além dos polícias que me vigiam dia e noite; de há dois meses para cá, quando vêm os meus advogados, os polícias não me retiram as algemas da mão direita, pelo que fico impedido de tomar notas ou até de manusear os documentos que analisamos, o que entrego ou o que recebo dos meus advogados.

As idas ao tribunal são agora com uma segurança levada a limites extremos: a caravana de carros patrulha é escoltada por um helicóptero, tanto de manhã como pela tarde, quando regresso à prisão. Outro exemplo: dia 12 de Maio fui ao médico por um problema no ouvido e ele decidiu enviar-me a um hospital, para que me fizessem um exame mais rigoroso.

Ao meio dia vieram dois marshalls [3] para me levar a um centro médico que distava meia hora da prisão e montaram uma operação tão grande (não foi a primeira vez que o fizeram) que as pessoas nas ruas e o pessoal médico do hospital ficaram surpreendidos e atemorizados com as espectaculares medidas, a quantidade de agentes que participaram – mais de 30 –, o tipo de armamento e equipamento técnico que utilizaram, as sentinelas que colocaram, o sobrevoo do helicóptero durante o tempo todo, o cerco do edifício hospitalar, o bloqueio da entrada do edifício hospitalar com rádio-patrulhas e o encerramento do trânsito.

Tanto alvoroço por um pouco de algodão que coloquei no ouvido, nas noites em que o pus, para atenuar a algazarra entre presos e polícias.

Ora bem, no Estado de Colorado, no centro do país, há uma prisão de segurança máxima onde estão os condenados mais perigosos, os condenados por delitos mais graves, como traição à pátria e terrorismo.

Estes presos permanecem em celas individuais, sem qualquer contacto visual ou físico com outros presos, têm direito a uma hora de sol diária, comem na cela, são vigiados 24 horas por dia através de circuitos fechados de televisão e filmadas todas as suas actividades de forma permanente e assistem aos serviços religiosos e alguns educativos por meio de um televisor a preto e branco. Isto é, estes condenados estão sujeitos a “medidas administrativas especiais” (SAM) e apenas os seus advogados têm contacto com este tipo de presos, isto se o seu processo ainda estiver num tribunal de recurso.

Bom toda esta história para concluir que irei para essa prisão e nessas condições, quando acabarem os meus dois julgamentos. Mas já estou psicologicamente preparado para isso.

Se esse é o preço que há que pagar pelos nossos ideais e pelos princípios que nos impelem à luta e dão razão de ser à nossa existência, que se há-de fazer, bem-vinda seja a prisão. Outros farão uso da sua liberdade para concluir os nossos sonhos de um mundo sem exploradores nem explorados e sem propriedade privada sobre os meios de produção.

Notas do tradutor:
[1] Simón Trinidad refere-se aos agentes da CIA capturados pelas FARC quando derrubaram um avião que participava na guerra ao lado do exército colombiano.
[2] Trata-se de uma guerrilheira das FARC que, tal como Simón Trinidad, foi entregue pelo narco-presidente Álvaro Uribe aos Estados Unidos, para aí serem julgados! Simón Trinidad é acusado nos dois processos.
[3] Em inglês no texto da carta.

* Comandante das FARC

Tradução de José Paulo Gascão

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