Chávez e a cloaca máxima

John Saxe-Fernández Os EUA classificaram de infâmia a suspeita levantada por Chávez em relação ao facto de diversos líderes latino-americanos surgirem doentes de cancro. Mas a negra história dos crimes de Estado praticados ou tentados pelo imperialismo é longa, e os recursos utilizados tanto podem ser o assassínio à bala, como sucedeu com Patrice Lumumba, como outros recursos bastante mais sofisticados.

Canalizar a riqueza petroleira para as necessidades da população (saúde, educação, habitação, etc.) e do interesse público nacional venezuelano, seja como detonador do desenvolvimento ou projectando-o numa política exterior soberana, vital para a segurança nacional e para a solidariedade bolivariana, explica em parte a popularidade de Chávez. Ao fim de 13 anos como presidente tem o apoio de seis em cada 10 votantes. E isto apesar de, como indica Ángel Guerra (La Jornada, 23/2/12, p. 31), “na última década nenhum outro líder político mundial tenha sido tão satanizado pelos polvos mediáticos”. Basta ver Newsweek, NYT, Washington Post, Televisa, CNN, etc., para comprovar que o insulto é amplo, sistemático e excessivo: tratando-se de Chávez, abandonam toda a contenção profissional e adoptam o guião do conclave petroleiro e do aparelho de segurança dos Estados Unidos.

Como “Goebbels vs. Hugo Chávez”, de Guillermo Zamora (Colmanares y Vargas Editor, 2011) bem ilustra, a cruzada anti Chávez é implacável. A hostilidade imperial, que se reflecte nos entremezes psico-político-ideológicos de guionistas ou de canetas de aluguer, é resultado da recusa de Chávez em relação à política petroleira de “máxima extracção” que Estados Unidos impulsionaram na América Latina quando as suas reservas atingiram o pico de produção nos anos 70, e por ter sustido a entrega da renda petroleira em curso quando assumiu a presidência.

Dada a dimensão das reservas comprovadas, a sua desobediência face ao diktat imperial é “matéria de segurança”. Segundo a certificação da OPEP, registada pelo Oil and Gas Journal, ao ser contabilizado o petróleo pesado do Orinoco a reserva comprovada passou de 98 mil milhões de barris (mmb) para 211 mmb no início de 2010, e a PDVSA-OPEP a certifica-a agora em 297 mmb, a maior do mundo. Assim, não deve causar estranheza a ninguém que perante o mais pequeno pretexto a CNN dedique horas a insultar Chávez ou que a Newsweek o nomeie “paranoico do ano” por ter manifestado surpresa e natural suspeita face ao facto de que tantos líderes de centro-esquerda padeçam, como ele, de algum tipo de cancro: Lula, Dilma Roussef, Fernando Lugo e Cristina Fernández, cujo diagnóstico resultou numa intervenção cirúrgica.

Embora vários especialistas em “mortalidade estatística” se tenham manifestado igualmente intrigados, os Estados Unidos qualificaram a suspeita de “infâmia”. A massa documental desclassificada teria aconselhado mais contenção verbal, para não destapar o que Saint-Simon (Duc Louis de Rouvroi) qualificaria então como “cloaca máxima” (e sobre a qual o leitor, se tiver estômago para tanto, pode debruçar-se pesquisando no Google, em: “Interim Report on Alleged Assassination Plots Against Foreign Leaders”, Nov. 1975, do Senado estado-unidense, o Relatório Church). Aí são revelados repugnantes esquemas para assassinar ou “desactivar” Patrice Lumumba (Congo), Fidel Castro (Cuba), Rafael Trujillo (República Dominicana), Ngo Dinh Diem (Vietnam) y René Schneider (Chile). Aí abunda a escatologia imperial. Indica-se, por exemplo, que “(N)o verão de 1960″ Richard Bissell, um subdirector da CIA, pediu ao chefe da divisão África para “explorar a possibilidade de assassinar Lumumba” e ordenou a um cientista/criminoso da CIA para “fazer preparativos para assassinar ou incapacitar um ‘líder africano”’, acrescentando que dispunha “da mais alta autorização” e que “os materiais biológicos tóxicos deveriam ser entregues ao chefe da CIA em Leopoldville”.

200 dias depois de assumir o cargo de primeiro-ministro, Lumumba foi crivado de balas. Lutou pela libertação do seu povo e pela sua soberania sobre o ouro, cobre, cobalto, os diamantes e o tantalio, tão cobiçado pela indústria aeroespacial. Em resultado das revelações do Comité Church, Gerald Ford emitiu a Ordem Executiva 12333 que proíbe o assassínio nas operações dos Estados Unidos. Tapou a cloaca mas não travou a criminalidade de Estado: atentados, fraudes, drogas, armas, lavagem de dinheiro.

Guillermo Zamora, então correspondente de guerra da Proceso, recorda que no âmbito das atrocidades de Reagan contra os sandinistas, para além do escândalo Irão-contras, foram realizados 80 ataques contra a direcção sandinista e uma conspiração falhada em 1983 (com veneno tálio misturado num licor Benedictine) contra Don Miguel D’Escoto, chanceler da Nicarágua.

Apenas 14 dias após o 11 de Setembro (ver http//patriotsquestion911.com), esses ataques foram utilizados, tal como em 1933 Golo Mann afirmou após o incêndio do Reichstag, “para a manufactura de poder”: o Departamento do Conselheiro Jurídico de Bush/Cheney emitiu um memorando, que se manteve secreto durante três anos, estipulando que “os poderes do presidente incluem poderes inerentes ao Executivo não enunciados na Constituição”, entre os quais, como documenta Charlie Savage (Takeover, Little & Brown, 2008), o de usar a força contra países ou pessoas, “ainda que estas não estivessem relacionadas com os ataques do 11/S”. Em contravenção à própria doutrina dos julgamentos de Nuremberga, a autocracia imperial pratica a “guerra de autodefesa anticipatória” (Iraque, Afeganistão) e as “execuções extrajudiciais”. ¿Paranoia, infâmia ou cloaca máxima?

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