China critica a política financeira dos Estados Unidos

Peter Franssen*    25.Oct.08    Outros autores


Neste texto, Peter Fransen debruça-se sobre o declínio do dólar como moeda de troca internacional. Este declínio também é animado pela “China [que] deve equilibrar as suas reservas para que moedas fortes como o euro compensem as moedas mais frágeis, como o dólar.”

O jornal do Partido Comunista Chinês acredita que uma nova ordem financeira mundial, que não esteja dependente de EUA nem do dólar, é necessária. A política financeira americana é responsável pela crise, escreve o editorialista. A questão subjacente é, no entanto, a seguinte: Por que é que o mundo tem de pagar a factura?

O comentário encontra-se na edição, para o estrangeiro, do “People’s Daily” (17 de Setembro). O editorial é escrito pelo professor Shi Jianxun, da Universidade de Tongji, em Xangai: “A crise nos Estados Unidos mostra que há grandes deficiências no acompanhamento e na fiscalização do mundo financeiro americano. Esta situação levou à falência do banco financeiro Lehman Brothers, e pode degenerar num verdadeiro tsunami financeiro. A falência da Lehman Brothers pode ter um efeito dominó. Terá, igualmente, efeitos negativos na economia de outros países. O mundo precisa urgentemente de uma moeda diversificada e de uma ordem financeira que seja justa e independente dos E.U.A. “, afirma o professor Shi Jianxun.

O dólar perde o seu estatuto

No mês de Novembro passado, o mundo financeiro tinha sido assustado por um discurso de Cheng Siwei, vice-presidente do Parlamento chinês. Nesse momento, a China possuía cerca de 1.500 mil milhões dólares de reservas, em moeda estrangeira. Cheng declarou: “A China deve equilibrar as suas reservas para que moedas fortes como o euro compensem as moedas mais frágeis, como o dólar. “

Simultaneamente, um alto funcionário do Banco Nacional chinês afirmava que o dólar se encontrava “ocupado a perder o seu estatuto de principal moeda de reserva, no mundo”.

Alguns políticos acreditam, desta forma, que a China dever-se-ia proteger contra as flutuações do curso do dólar, diversificando as suas divisas estrangeiras. O artigo da primeira página do “People’s Daily” mostra que este ponto de vista começa a ganhar influência nas altas esferas do Estado chinês.

As consequências negativas da crise

A falência da Lehman Brothers tem consequências negativas imediatas para os três bancos chineses que possuem acções da Lehman ou das suas filiais. O Banco da China “Merchants Bank” possui 70 milhões de dólares em acções da Lehman Brothers, o Banco “Industrial & Commercial Bank” possui 151 milhões de dólares dessas mesmas acções, e o Banco da China possui, por seu lado, 75 milhões de dólares acrescidos de 53 milhões de dólares em empréstimos à Lehman. É muito provável que os chineses tenham de “fazer uma cruz” definitiva nestes 350 milhões.

Estes são os prejuízos imediatos. Os efeitos negativos da crise financeira americana far-se-ão, de seguida, sentir na economia chinesa, assim como na economia global. O “People’s Daily” afirma que a culpa recai sobre a política americana, facto com o qual, aliás, muitos banqueiros, em todo o mundo, concordam. Esta crítica reforça, e não sem importância, o grupo de países que querem livrar-se da hegemonia do dólar. Nenhum país quer pagar por aquilo que até mesmo o candidato presidencial Barack Obama chama de “o total fracasso da nossa política financeira.”

O coro cresce

As duas bolsas petrolíferas dominantes, no mundo, são as de Londres e de Nova York. Ambas estão nas mãos de empresas americanas. O petróleo é, obviamente, tratado em termos de dólares. Mas, em meados de Fevereiro deste ano, abriu uma bolsa de petróleo iraniana. O ouro negro já não é tratado, apenas, em dólares, mas em rial, a moeda iraniana.

Uma semana antes da abertura da bolsa iraniana, Abdullah al-Badri, secretário-geral da OPEP, disse que, dentro de dez anos, os países exportadores de petróleo terão trocado o dólar pelo euro.

O ministro iraquiano do petróleo, Hussein al-Shahristani, disse, nessa ocasião: “A OPEP vai criar uma comissão para estudar a transição do dólar para uma outra qualquer moeda”.

Dentro da OPEP, a Venezuela pretende, tal como o Irão, a aceleração deste processo.

Outros produtores de petróleo fora da OPEP, como a Noruega e a Rússia, estão, igualmente, prontos a “deixar cair” o dólar. A decisão de dois ou três países suplementares de passar ao euro, ao iene ou a uma outra moeda é, sem dúvida, suficiente para abandonar os “méritos” da emblemática hegemonia do dólar no mundo, ou seja, dos petrodólares. Daí este comentário do peculiar especulador George Soros, na Primavera passada: “O mundo caminha na direcção do fim da era do dólar. “

Até agora, os Estados Unidos têm sido capazes de exportar a maior parte de sua crise económica, simplesmente aumentando o volume de dólares. O mundo necessitava destes dólares, pois o petróleo e outras matérias-primas são tratados nessa moeda: 70 por cento de todas as reservas estrangeiras no mundo são feitas em dólares. Esta massa de dólares não se encontra, no entanto, desde há muito tempo, em relação com o volume real da economia dos E.U.A..

No final da II Guerra Mundial, quando a libra britânica e a Grã-Bretanha ficaram gravemente “feridas”, o dólar passou a ser a moeda de troca no mundo. As opiniões defendidas no “People’s Daily” mostram que este período se aproxima do seu fim.

* Peter Franssen é redactor do site www.infochina.be.

Este texto foi publicado em michelcollon.info.

Tradução de Ana Saldanha

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