China, Rússia e o segundo advento de Obama

M K Bhadrakumar*    27.Dic.12    Outros autores

“O segundo mandato de quatro anos de Barack Obama como presidente dos EUA ficará marcado pela contagem regressiva final da emergência da China como superpotência. A dinâmica de poder na Asia-Pacífico converte-se no modelador crucial deste processo histórico. “

O segundo mandato de quatro anos de Barack Obama como presidente dos EUA ficará marcado pela contagem regressiva final da emergência da China como superpotência. A dinâmica de poder na Asia-Pacífico converte-se no modelador crucial deste processo histórico.

Enquanto os EUA podem contar com o Japão e a Austrália enquanto aliados que o tempo tem comprovado, as suas elucubrações a respeito da China e da Rússia estão em desenvolvimento e a forma como venham a configurar-se terá um impacto decisivo na dinâmica de poder na Asia-Pacífico.

As habituais mensagens de felicitações e as rápidas reacções de Pequim e Moscovo oferecem certas pistas quanto ao nível das expectativas nas duas capitais no que diz respeito ao segundo mandato de Obama. Nenhuma das capitais manifestou nos dias anteriores ao 6 de Novembro qualquer sinal relativamente a que resultado havia que esperar, e assumiram uma atitude de retraimento estudado, mas ambas se apressaram a reagir quando a vitória de Obama se tornou evidente.

A China mantém-se cuidadosamente optimista em que a fricção nas relações com os EUA é controlável e não necessita necessariamente de degenerar em confrontos. Consola-se com o facto de que não irá haver nenhum “enigma oculto” na relação geral, na medida em que Pequim pode prever o que esperar da presidência de Obama.

A convicção da China é que actualmente existe muita interdependência nas relações entre os dois países, e Pequim confia em que pode desempenhar um papel positivo na recuperação da economia dos EUA.

A reacção russa, em comparação, foi algo cuidadosa e condicional, mais retraída em relação ao que há a esperar mas também insegura sobre como conseguir um novo tratamento. Entretanto, Moscovo prepara-se para certa turbulência no ar a curto prazo.

Absolutamente sincero

Pequim felicitou Obama de primeiro-ministro a presidente, sublinhando a proximidade de vínculos que vão para além das exigências protocolares. É interessante que o vice-presidente chinês, Xi Jinping, também tenha enviado uma mensagem de felicitações ao vice-presidente Joe Biden. Biden tinha recebido Xi no decurso da muito bem-sucedida visita aos EUA que este último realizou em Fevereiro, durante a qual, segundo foi informado, passaram várias horas de intensas conversações cara a cara.

Biden contou posteriormente que ele e Xi estabeleceram uma estreita relação pessoal apesar das diferenças entre os dois países em assuntos de comércio ou de política exterior. “Foi totalmente sincero. É aberto. Procura, como eu, compreender a posição do outro. Não se pode pedir muito mais do que isso… Quer conhecer os detalhes. Tenho um sentimento claro de que procura compreender quais são os nossos interesses e quais são as nossas preocupações”, resumiu Biden.

Pequim evidentemente começa cedo a ascensão de Xi como chefe de Estado em Março, ao invocar a relação pessoal que aparentemente se desenvolveu entre ele e Biden.
Curiosamente, todavia, Moscovo deixou passar uma maravilhosa oportunidade semelhante quando o Kremlin preferiu não jogar a carta Dimitry Medvedev,‎ embora o primeiro-ministro russo tenha compartilhado também uma certa relação com Obama durante o seu período como presidente até Maio.

Entretanto, Medvedev‎ teve que reagir em público durante uma visita ao Vietnam e, ao fazê-lo, compensou amplamente a mensagem cuidadosamente articulada do presidente Vladimir Putin, que foi comedido embora cordial, mas despojado de qualquer entusiasmo manifesto ou calor pessoal. Medvedev‎, em comparação, foi visivelmente efusivo:
“”Alegra-me que o maior e mais poderoso Estado do mundo seja governado por uma pessoa que não considera que a Rússia seja o seu inimigo geopolítico número um. Creio que ele [Obama] é um presidente de sucesso… É um socio previsível para a Rússia.

“Não escondo que muito no nosso país depende da situação económica dos EUA. Queiramo-lo ou não, sejamos ou não afectuosos com os estado-unidenses, toda a família russa depende do valor do dólar… Nós [ele e Obama] começámos a ‘reajustar’ as relações. Tivemos algum êxito… Alcançámos bons resultados. Espero que tenhamos relações normais com Obama. Isto é também importante para todo o mundo”.

Ao que parece Moscovo falou a duas vozes, seja intencionalmente ou por autêntico desacordo. De facto, quando apareceu uma terceira voz – a do ministro dos Estrangeiros Sergei Lavrov – esta ajustou-se facilmente à mensagem de Putin.

Lavrov disse algo parecido com o que Barkis uma vez transmitiu através de David Copperfield a Clara Pegotty na famosa novela clássica de Charles Dickens, ou seja: que a Rússia está disposta a progredir nos seus laços com os EUA e está disposta a fazer alguma coisa, sempre que Washington esteja interessado.

Putin, a propósito, convidou Obama a visitar Rússia e é muito previsível que isto suceda em Junho quando a cimeira do G-20 tiver lugar em São Petersburgo. Lavrov resumiu: “É natural que continuemos a trabalhar com este governo. Estamos dispostos a fazer o possível na base da igualdade, vantagem mútua e respeito mútuo sempre que o novo governo dos EUA esteja disposto a fazê-lo”.

Igualdade, confiança mútua e vantagem mútua

As reacções chinesas e russas relativamente ao segundo mandato de Obama na Casa Branca põem em destaque as diferentes prioridades e preocupações dos dois países. A situação de Moscovo é difícil. Obama optou por um vínculo selectivo com a Rússia, enquanto por outro lado a ignora e não presta atenção aos seus interesses. Pequim, por outro lado, está recebendo talvez demasiada atenção de Obama.
A Rússia busca paridade (“igualdade”) em termos de suportar a pesada carga do equilíbrio estratégico global, que considera o elemento central da ordem mundial posterior à guerra-fria, e está descontente porque Washington já não pensa segundo essa linha desde o colapso da antiga União Soviética.

A China, pelo contrário, sente-se cheia de segurança em que a interdependência com os EUA os une solidamente e que os dois países têm uma necessidade real de nadar juntos.
Um comentário de Xinhua sobre a vitória de Obama declarou na quarta-feira: “Nenhum presidente dos EUA pode evitar as relações com a China nos próximos quatro anos, já que o comércio bilateral provavelmente superará os 500.000 milhões de dólares este ano e cerca de 10.000 personas viajam cada dia entre os dois países”.

Enquanto Moscovo avalia o “reajustamento” de Obama dos vínculos entre os EUA e a Rússia como praticamente moribundo, Pequim dá-se por satisfeita com que, apesar das fricções que emanam do “reequilíbrio” na Asia, a cooperação china-estado-unidense mostrou “contínuo progresso” durante o último período de quatro anos. Xinhua assinala:
“Graças ao seu comum entendimento na construção de uma colaboração cooperativa baseada no respeito mutuo e na vantagem mutua, os dois países definiram o papel de cada um e a sua relação de uma forma mais clara e mais positiva. Os diálogos entre os dos países são mais exactos e mais efectivos.”

A ansiedade do tom russo está ausente na previsão chinesa da trajectória futura dos vínculos com os EUA. De novo, um certo realismo se destaca pelas próprias prioridades de China na situação que se desenvolve. Xinhua acrescenta:
“ Entretanto, as disputas entre o maior país desenvolvido e o maior país em desenvolvimento são evidentes e existe sempre o risco de confronto… [a China] quer construir um novo tipo de relação, definida por vantagens mútuas e cooperação… Se os EUA não mudam a sua forma de pensar tradicionalmente hegemónica, haverá mais e mais conflitos enquanto a China continua a desenvolver-se e a proteger os seus próprios interesses.

A China tem muitos problemas internos urgentes que há que resolver… [a China] não pode suportar os custos de uma confrontação total com o mundo exterior. Os EUA também necessitam da China, não apenas em termos de desenvolvimento económico mas também em outros campos. A crise financeira global revelou que a globalização levou a que os países sejam muito interdependentes… a China e os EUA têm que trabalhar juntos para bem da futura estabilidade mundial”.

As florestas são belas, escuras e profundas

Dito de outra maneira, a China considera as florestas – quão escuras e profundas (mas belas) poderiam ser as florestas – enquanto a Rússia conta tenazmente as árvores. Moscovo está atascada no pensamento de que a Câmara de Representantes dos EUA poderia estar em vias de promulgar a denominada Lista Magnitsky, que vê como uma reposição pela porta traseira da Emenda Jackson-Vanick - que restringiu los laços económicos entre os EUA e a Rússia - da era da guerra fria.

Segundo a avaliação de Sergei Rogov, director do Instituto de Estudos dos EUA e Canadá em Moscovo, acumulam-se as nuvens de uma iminente tormenta nos laços entre os EUA e a Rússia, mas “após um certo tempo, o governo de Obama pode apresentar uma nova agenda para as relações com a Rússia”.

Pensa que Obama terá que procurar a cooperação da Rússia no que diz respeito ao Afeganistão e às questões do desarmamento; e inclusivamente poderiam ter lugar algumas “discussões muito serias” sobre o fastidioso problema do programa de defesa de mísseis. Mas, segundo Rogov, o melhor que se pode dizer é que “falando em geral, penso que o governo de Obama não conduzirá as relações entre os EUA e a Rússia a uma crise seria de qualquer tipo”. Resumindo, Moscovo pode esperar a mesma antiga mistura de cooperação selectiva e contemporização benigna no segundo mandato de Obama.

Tanto Pequim como Moscovo especulam ansiosamente sobre a escolha por parte de Obama do próximo secretário de Estado dos EUA. Ambos encaram como forte possibilidade que a escolha de Obama se limite ao senador John Kerry.

Naturalmente, Kerry será um novato no que diz respeito às relações com a China, mas é uma cara familiar em Moscovo e poderia suscitar sentimentos ambivalentes (ainda que pudesse ser muito pior se a escolha de Obama acabasse por ser Susan Rice, que tem feito numerosas observações pouco diplomáticas sobre as políticas russas). Sem dúvida, a China lamentará a partida do secretário do Tesouro, Timothy Geithner.

*O embaixador M. K. Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Ministério dos Estrangeiros da India. Exerceu funções na extinta União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão, Kuwait y Turquia.
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Fonte: http://www.atimes.com/atimes/Central_Asia/NK09Ag01.html (Asia Times Online)

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