Ciclone em Mianmar: a hostilidade dos Estados Unidos prejudica a ajuda humanitária

Sara Flounders    03.Jun.08    Outros autores


“Está a administração Bush realmente tentando ajudar as pessoas de Mianmar a recuperar do desastre natural que os atingiu? Então por que é que insiste que o Pentágono esteja a cargo dessa ajuda?”

Está a administração Bush realmente tentando ajudar as pessoas de Mianmar a recuperar do desastre natural que os atingiu? Então por que é que insiste que o Pentágono esteja a cargo dessa ajuda? E porque impõe sanções no país quando soube que o ciclone era aproximadamente estava prestes a os atingir? Uma das tempestades mais severas do século embateu inesperadamente nas terras baixas e densamente cultivadas do Delta do Rio Irrawaddy em Mianmar, na costa do Golfo de Bengala, em 2 de Maio. Esta é uma fértil mas subdesenvolvida região, especialmente susceptível de ser inundada. Este Delta é morada de um quarto dos 57 milhões de pessoas que vivem em Mianmar. O último ciclone tropical a atingir a costa deste país tinha sido há 40 anos.

Os meteorologistas vinham seguindo o Ciclone Tropical Nargis há uma semana. Mas quando o ciclone atingiu a terra trouxe com ele uma imprevista onda gigante de proporções épicas. Uma parede de água 12 pés de altura (mais ao menos 3 metros e 60 centimetros) surgiu cobrindo sete milhas terrestres. Mais de um milhão de pessoas ficaram sem abrigo e dezenas de milhares estão desaparecidas. As estimativas sobre os mortos vão de 20.000 a 100.000. Yangon, a antiga capital (chamada Rangum até 1989) e um porto comercial importante cidade, ficou em ruínas.

Os média privados norte-americanos despejam relatos sobre a amplitude do desastre e sobre a incapacidade do governo local para tratar da ajuda e dos socorros, passando completamente em silêncio o comportamento extremamente negativo do governo norte-americano no encaminhamento de socorros em caso de desastre.
Cada novo artigo nos média repete as exigências de Washington tendo em vista obter pleno acesso militar a Mianmar a fim de fornecer uma ajuda urgente. Os média estão ultrajados e chocados porque o Mianmar não permite aos aviões militares norte-americanos aterrarem no seu território nem às embarcações da Marinha estado-unidense atracarem nos seus portos. A acusação pretendendo que não se pode fiar no governo de Mianmar para a distribuição da ajuda é repetida a cada momento.
Aquilo que os média não dizem é que a administração Bush, nos seus cálculos e planeamento criminosos, fez premeditadamente tudo o que podia para complicar ainda mais os esforços de ajuda. Na véspera do dia em que o ciclone Nargis atingiu o Mianmar, quando a aproximação da tempestade gigantesca já fora anunciada e era seguida desde há uma semana, o presidente George W. Bush assinou um novo pacote de sanções económicas extremamente severas contra Mianmar. Estas sanções constituem um acto de agressão, uma forma de guerra económica que visa especificamente os mais pobres e os mais desamparados.

Sanções impostas enquanto o ciclone embate

Com todos seus satélites espiões, Washington era de longe mais consciente que as pessoas de Mianmar do que estava para vir. As sanções dos EUA tornaram a ajuda directa norte-americana e internacional do fundo de emergência quase impossível. A agência de notícias Xinhua de 2 de Maio informava que ordem executiva de Bush era descrita nos seguintes termos: “bloquear toda a propriedade e interesses em propriedade de entidades e indivíduos determinadas como possuídas ou controladas pelo governo da Birmânia (Mianmar)”. Esta criminosa ordem executiva que decretou a expansão de sanções foi seguida dentro de dias por expressões de preocupação profunda pela população devastada. O cinismo e a hipocrisia não poderiam ser maiores.

As novas sanções restringem indivíduos e organizações humanitárias dos Estados Unidos de doar dinheiro directamente a causas dentro da empobrecida Mianmar. Organizações de ajuda dos EUA., como a Cruz Vermelha norte-americana, descobriu que poderiam apenas fornecer provisões — não pessoal ou dinheiro — ao esforço de ajuda sob as regras das sanções impostas. Enquanto nos EUA os meios de comunicação privados expõem centenas de reportagens arrogantemente dando lições a Mianmar sobre o que não está a sendo feito, nem sequer mencionam o impacto das novas sanções dos Estados Unidos que foram impostas enquanto a tempestade varria o país.

Com base em controlos por satélite do clima, muitos cientistas estavam já a monitorar a tempestade enquanto ela ganhava intensidade. Quase uma semana antes de ela embater em terra, o Departamento de Meteorologia Indiano publicava avisos detalhados da rota, velocidade e localizações a ser atingidas. O governo de Mianmar, que recebeu mensagens de texto de advertência da Índia a partir de 26 de Abril e anunciou avisos de tempestade na rádio estatal, não tem radares costeiros para detectar o ciclone a caminho, nem tinha este empobrecido país um plano de evacuação.

O governo norte-americano insistiu em que o Pentágono obtivesse o direito de fornecer a ajuda com o seu pessoal e os seus próprios equipamentos. É evidente que este rico país imperialista não tem outro meio de fornecer a ajuda humanitária senão à ponta das suas baionetas!

Contudo, muitos outros países encontraram meios diferentes dos militares para fornecer uma ajuda imediata. A rádio nacional de Mianmar relatou que a ajuda humanitária internacional afluiu a partir da China, Índia, Japão, Singapura, Itália, Bangladesh, Laos e Tailândia e que aviões vindos destes países pousaram no aeroporto internacional de Yangon com tendas, mosquiteiros, geradores eléctricos, medicamentos, sistemas de purificação da água, produtos processados de batatas e porco, massas de cozedura instantânea, vestuário, folhas de zinco, martelos e pregos, velas, etc.

O governo norte-americano exprimiu indignação por constatar que, ao aceitar a ajuda estrangeira, Mianmar não permite ao pessoal estrangeiro supervisionar a distribuição desta mesma ajuda. A 9 de Maio, o jornal gerido pelo governo birmanês, New Light of Myanmar, explicava porque procedia assim: “O Pentágono está desesperado por não poder instalar bases militares no nosso país”.

Não se trata portanto de paranóia delirante da parte da junta militar que dirige Mianmar.
O Pentágono mal dissimulou seu interesse no derrube do regime. O que se verifica no momento em que o país é pressionado para que se abra e autorize a instalação de bases norte-americanas e o acesso das companhias norte-americanas às vastas reservas de petróleo e de gás que, que em Mianmar, foram nacionalizadas.
Eis como Shawn W. Crispin explica este assunto num artigo intitulado “Argumentos a favor da invasão de Mianmar” (”The case for invading Myanmar”):

“Com navios de guerra e aviões da força aérea dos Estados Unidos a postos, e por cima de 1 milhão de cidadãos de Mianmar deixados cobertos de lama, sem casa e susceptíveis a doenças derivadas da água poluída pelo Ciclone Nargis, o desastre natural apresenta uma oportunidade de crise para os EUA. “Uma unilateral — e potencialmente aprovada pelas Nações Unidas - intervenção militar em nome do humanitarismo facilmente poderia voltar a maré contra os dirigentes militares impopulares do país empobrecido, e simultaneamente reabilitar o legado altamente impopular (e de saída) do Presidente dos EUA George W. Bush e as suas controversas políticas militares de ataque preventivo.

“A Força de Aérea dos EUA e barcos navais, incluindo o US C-130 (avião militar) está agora na vizinha Tailândia, e o USS Kitty Hawk e o USS Nimitz (navios de guerra), estão actualmente a postos em águas próximas. … Os decisores políticos em Washington estão agora sem dúvida pesando o potencial de prós e contras de uma missão humanitária preventiva numa região de interesse geo-estratégico fulcral e num país subitamente enfraquecido.” (Asia Times online, 10 de Maio)

Doutrina de choque

Muitos países, mesmo quando afectados por um desastre, temem a assistência dos Estados Unidos e Ocidental porque muito frequentemente ela vem com múltiplas contrapartidas, incluindo onerosas condições de dívidas e exigências de reorganização da economia e privatização dos recursos naturais. O livro de Naomi Klein, “A doutrina de choque: o nascimento do capitalismo do desastre” (”The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism”) descreve detalhadamente como a ajuda estado-unidense, o FMI e o Banco Mundial são utilizados para tirar partido de um país em estado de choque, mesmo quando este é confrontado com uma infraestrutura arruinada a seguir a uma catástrofe natural do tipo furacão, tsunami, seca ou inundação. Tais crises são consideradas como uma oportunidade de impor directamente uma impopular “terapia de choque” económica, tal como a venda dos bens do Estado e a privatização dos recursos naturais. Trata-se de uma terapia, sim, mas sobretudo em proveito dos banqueiros internacionais, não dos países afectados.

A actuação dos Estados Unidos em Nova Orleães e no Iraque

Aquilo que não está sequer mencionado nas lições dadas pelos médias “de referência” acerca do que Mianmar deveria ou não deveria fazer é o curriculum particularmente desastroso da classe dirigente estado-unidense no que se refere a planeamentos de urgência, de evacuação e de socorros durante e após a passagem dos furacões Katrina e Rita sobre Nova Orleães e as costas do Golfo do México.
O mundo inteiro pôde constatar a negligência criminosa, o racismo, a ausência de planeamento e a confusão total quando inundações e diques arrebentados puseram completamente debaixo de água a cidade de Nova Orleães, a 28 de Agosto de 2005.
Este desastre foi seguido por uma recusa arrogante a aceitar a ajuda de organizações e indivíduos que se apresentavam a título benévolo, bem como por uma recusa insultuosa de toda ajuda internacional. As propostas de ajuda de Cuba e da Venezuela, que dispunham de equipes de médicos prontos para partir e perfeitamente equipados e que propunham toneladas de alimentos, água e mesmo um milhão de barris de petróleo suplementares, foram recusadas. Mesmo a aviação francesa e um navio hospital que estava pronto na Caraíbas, assim como a ajuda alemã e russa, ficaram em suspenso.

Equipas internacionais de televisão sobrevoaram os lugares e filmaram os sinistrados desesperados, apinhados sobre telhados. Mais de 20 mil pessoas sem água potável, sem alimento, sem equipamentos sanitários nem cuidados foram amontoados no Superdome e dezenas de milhares de outras passaram dias e dias no Convention Center sob um calor tórrido e nas mesmas condições. As equipas de urgência provenientes dos quatro cantos dos Estados Unidos viram-se proibidas de ter acesso a Nova Orleães.

Os helicópteros das Força aérea, numa baixa muito próxima, foram mantidos no solo, enquanto os seus pilotos propunham – insistindo – seus serviços a fim de utilizar estes mesmo aparelhos em repouso para evacuar pessoas. A FEMA (agência federal para situações de emergência) e a Homeland Security (serviço de segurança interna) de facto bloquearam a ajuda e os voluntários, conforme numerosos relatos dos media. Camiões transportando água e toneladas de materiais provenientes dos quatro cantos do país jamais puderam chegar a Nova Orleães.

Dois anos e meio depois, dezenas de milhares de pessoas evacuadas não tiveram a possibilidade, nem a autorização, para retornarem às suas casas.

O Pentágono no Iraque e na Somália

O curriculum do Pentágono no Iraque é de longe pior. Mais de cinco anos após terem devastado o seu caminho para invadir um Iraque vai debilitado e enfraquecido por sanções económicas, as forças militares dos Estados Unidos provaram ser incapazes de proporcionar a sobrevivência humana mais básica como a necessidade de água potável, nutrição básica, electricidade, assistência de emergência médica ou educação. Se mais de 160.000 tropas dos EUA, 100.000 mercenários privados e a maior colecção de equipamento militar no planeta não consegue proporcionar electricidade fiável ou água potável em Bagdade, poderia alguém esperar que fizessem melhor em Yangon? Utilizando como desculpa uma missão humanitária na famélica nação da Somália, os EUA impuseram a sua força militar nesse país através de uma resolução da ONU que permitiu aos Marines (fuzileiros) ocupar a capital, Mogadishu, em Dezembro de 1992. A população enfurecida expulsou os Marines no ano seguinte. O Pentágono ignorou totalmente o sentimento popular anti-imperialista, inclusive entre uma população desesperada.

Em Mianmar, a oposição de massas às dominação britânica e estado-unidense é uma forte corrente na população. Qualquer intervenção poderia conhecer uma resistência feroz, apesar do sofrimento causado pelo ciclone. A propósito dos ataques ao governo de Mianmar como ditadura por todos os meios de comunicação dos EUA, é importante recordar que o Pentágono tem fortalecido, armado e financiado ditaduras militares brutais ao redor do mundo – desde a Arábia Saudita e a Indonésia ao Paquistão (de Musharaf), o Chile (de Pinochet) e o Congo (de Mobutu). Sua oposição à ditadura em Mianmar não é devido às suas medidas repressivas mas sim a facto de esta não ter desfeito a nacionalização dos recursos naturais conquistada através de um sentimento anti-colonial de massas há décadas. Isto é o que as empresas multinacionais dos EUA estão determinadas a reverter.

O movimento anti-guerra e progressista devem desconfiar da reaccionária campanha dos meios de comunicação à volta de Mianmar. As pessoas de lá têm direito a um correcto acesso à assistência internacional imediata liberta de exigências dos EUA ou de sanções.

Publicado em 15 de Maio de 2008 em Workers World

Tradução de Luís Rocha

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