Cimeira das Lajes, segunda temporada

José Goulão    10.Dic.19    Outros autores

O facto de o governo PS acolher em Lisboa uma reunião conspirativa de dois sociopatas mundiais, Netanyahu e Pompeo, é um degradante exemplo de alinhamento com o que de pior se movimenta na cena internacional. António Costa e Santos Silva aceitaram apadrinhar um encontro que o próprio Boris Johnson recusara alojar. Assumirão, tal como Durão Barroso nas Lages, o peso da corresponsabilidade no agravamento da situação internacional que estes dois delinquentes coordenam, e envergonham e desprestigiam o país.

Já é degradante para o prestígio interno e internacional de um país acolher na sua capital uma reunião conspirativa de dois sociopatas mundiais como são o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e o secretário de Estado norte-americano da Administração Trump, Michael Pompeo. O facto de o primeiro-ministro, António Costa, receber ambos os fora-de-lei transforma o caso numa situação trágica, porque expõe directamente o país às consequências do previsível agravamento da instabilidade global decorrente destes encontros. Afinal o espírito belicista da Cimeira das Lajes – que afundou o Médio Oriente na crise de guerras sucessivas em que se encontra – continua bem vivo nos governantes portugueses. Depois de Barroso, cabe aos socialistas interpretar a segunda temporada.

Nem os britânicos, chefiados por uma aberração chamada Boris Johnson, permitiram que o encontro entre Netanyahu e Pompeo decorresse nas suas ilhas, simplesmente por não estarem disponíveis para acolher o chefe do governo israelita. Ao contrário do trabalhista Blair, em 1993, o conservador Johnson eximiu-se agora do complot.

Costa não. Embora com a nuance, meramente formal, de receber os dois violadores das leis internacionais em separado, o facto é que eles fizeram anteriormente o trabalho sujo. O que quer que tenham decidido em termos de agressão e operação de mudança de regime no Irão, «normalização» dos colonatos israelitas e anexação do Vale do Jordão na Cisjordânia – à revelia do direito internacional – e de um tratado de «defesa mútua» que, no limite, implica a mobilização da NATO no caso de Israel sofrer uma «agressão», fizeram-no num contexto que envolve o governo da República Portuguesa.

António Costa, o seu ministro Santos Silva e a generalidade da equipa escolheram não se distanciar do gueto internacional formado pelo núcleo de países responsáveis por uma nova fase de desestabilização belicista internacional. Isolaram-se, por uma vez, da sua querida União Europeia e logo pelos piores motivos. Tornaram-se parceiros das agressivas fugas para a frente de dois regimes desacreditados, desesperados, fora de lei, afundados em escândalos de corrupção, violência, racismo e xenofobia como são os de Trump e Netanyahu.

Os portugueses não se pronunciaram para que os seus votos fossem usados desta maneira irresponsável.

Grau zero da legalidade

Ignora-se se António Costa tem no seu horizonte curricular o cargo de presidente da Comissão Europeia. Pelo menos foi assim que Durão Barroso iniciou o caminho para o Eldorado que passou por Bruxelas e o levou à cúpula do banco que «faz o papel de Deus na Terra».

O elementar bom senso, porém, aconselharia a que Lisboa ou qualquer outro lugar do território português fosse poupado a uma reunião entre o fundamentalista «cristão sionista», como Pompeo se identifica, e a principal figura do fascismo sionista, definição que cabe a preceito em Benjamin Netanyahu.

Não se pense que o qualificativo de «foras-de-lei» aplicado aos dois dirigentes é uma mera figura de retórica. Nada disso: eles são-no – e com provas dadas.

Michael Pompeo interpreta a «diplomacia» de Trump; e esta acaba de proclamar que os colonatos israelitas e a aquisição de território palestiniano pela força estão conformes com a lei internacional.

De facto não estão e não basta que seja a cúpula do regime norte-americano a afirmar o contrário para isso ganhar força de lei. Convenções internacionais como a de Viena e várias resoluções das Nações Unidas definem os colonatos como ilegais e exigem a sua extinção, não a «legalização». Já era tempo de o secretário-geral das Nações Unidas reafirmar esse princípio, pelo menos para assinalar por onde passa a lei. Mas Guterres, ensimesmado como está com as urgências do clima, parece não ter palavras para as muito maiores urgências traduzidas pelos avanços das políticas de guerra e as violações contumazes dos direitos humanos.

Pompeo é o braço direito de Trump numa administração sob impeachment no seu país, mas que acaba de ter espaço – que os autores do impeachment não lhe vedam – para enviar mais 14 mil militares e artefactos de guerra de última geração para o Médio Oriente.

Um movimento militar que está certamente associado ao complot urdido em Lisboa em regime de pé-de-orelha com o primeiro-ministro de Portugal.
Podem assinalar-se outras malfeitorias em que Pompeo está directamente envolvido, como a usurpação de poder na Venezuela, o golpe fascista na Bolívia, a imposição de condições miseráveis de vida a vários povos, desde Cuba e Venezuela ao Irão – coisas, aliás, bem aceites por António Costa e pelo prestimoso Santos Silva. Haverá, entretanto, quem considere estas sevícias como matérias «subjectivas», passíveis de outras «interpretações». Pois bem: quanto à questão de considerar «legais» os colonatos ilegais não há subjectividade possível. O que faz de Pompeo um fora-de-lei.

Benjamin Netanyahu há muito que é um energúmeno contumaz, um criminoso de guerra. Basta recordar a situação de Gaza, a colonização permanente, a tortura e morte dos presos políticos palestinianos nas prisões israelitas, a institucionalização do regime de apartheid em Israel, os muros de separação, o roubo da água, a destruição de estruturais vitais palestinianas, a limpeza étnica contínua da Palestina. O rol de crimes é longo, conhecido de todos, talvez até do primeiro-ministro António Costa.

Acresce que Benjamin Netanyahu é primeiro-ministro em exercício mas já falhou duas tentativas para formar novo governo, pelo que são necessárias terceiras eleições gerais consecutivas.

Como se não fosse suficiente, Benjamin Netanyahu desembarcou em Lisboa num momento em que é acusado pela justiça israelita de crimes de corrupção, fraude e quebra de confiança, passíveis de prisão e que põem em causa a sua posição de chefe de governo – já de si meramente em gestão de assuntos correntes. Isto é, Netanyahu é um fora de lei no ponto mais baixo da legitimidade institucional. De tal maneira que o próprio presidente de Israel lhe propôs uma solução: indultá-lo dos crimes desde que reconheça a sua culpa e se demita da chefia do governo.
Foi recebido em Portugal num momento em que tenta aproveitar desesperadamente o espaço que lhe resta para criar focos de instabilidade militar que o transformem em intocável comandante-em-chefe. Será difícil que um chefe de governo como o português não interprete os riscos desta fuga de Netanyahu para diante.

Missão Lisboa

Que vieram os sociopatas Pompeo e Netanyahu fazer a Lisboa?

Não vale a pena ter em conta os despachos feitos pelos jornalistas seleccionados por ambos para acompanhar a viagem, os únicos com acesso à informação oficial. Não se trata de informação mas de propaganda; os agentes que foram escolhidos têm exactamente essa missão: transformar em factos aquilo que Trump e Netanyahu delinearam como estratégia. Jornalistas portugueses estão incomodados por terem sido excluídos da cobertura dos actos da visita, quando, na verdade, deveriam sentir-se orgulhosos: não merecem a confiança dos malfeitores; e, por outro lado, receberam uma lição de como funciona a verdadeira liberdade de informação dos que verdadeiramente dirigem o «mundo livre»1.

Pompeo e Netanyahu vieram acertar agulhas sobre a agressão ao Irão na perspectiva da mudança de regime no país. Os movimentos de massas que estão a acontecer no Iraque e no Irão reflectem uma componente da estratégia de desestabilização que tem uma opção militar latente – daí o novo reforço de efectivos e do aparelho agressor no Médio Oriente.

Em segundo lugar, concertaram posições quanto à iminente ocupação do Vale do Jordão, na Cisjordânia, pelo regime israelita. Trata-se da região mais atraente economicamente de toda a Margem Ocidental do Rio Jordão – pelo que está na calha para seguir o caminho dos Montes Golã sírios e de Jerusalém Leste. Como os Estados Unidos deixaram de considerar «ilegal» a colonização, a anexação desse território é um importante trunfo de campanha que Netanyahu pretende brandir perante o eleitorado, no sentido de unificar toda a extrema-direita fascista. Recorda-se que têm sido núcleos deste sector a impedir o êxito das tentativas de formação de governo pelo primeiro-ministro em exercício.

Escusado será dizer, mas há que registá-lo: a anexação do Vale do Jordão liquida, de vez, a solução de dois Estados na Palestina e que está inscrita no direito internacional. Não haverá mais espaço para um Estado Palestiniano independente, soberano e viável. O governo da República Portuguesa torna-se directamente cúmplice pela violação de um princípio que ele próprio diz defender. E, claro, de uma atrocidade contra a legalidade internacional.
As administrações Trump e Netanyahu estão prestes a concluir um tratado de «defesa mútua», isto é, o mecanismo que permitirá às tropas norte-americanas – e da NATO, obviamente – acudirem em socorro de Israel caso este país seja «agredido». Pelo que não será de excluir uma provocação que simule, por exemplo, um «ataque iraniano», para fazer deflagrar uma guerra de proporções inimagináveis.

Factos consumados

Entre os conteúdos da conspiração de Lisboa estão, tudo leva a crer, decisões no sentido de avançar para factos que a relação mundial de forças não permitirá reverter depois de consumados. Tem sido esta uma das estratégias essenciais para a anexação de territórios, sobretudo palestinianos, que Israel vem executando desde a fundação do Estado. Expulsão de populações e construção de colonatos são dois vectores primordiais de tal estratégia e a previsível ocupação do Vale do Jordão será o exemplo mais recente, com a respectiva vaga de expulsões no quadro de uma limpeza étnica perante a qual o mundo continua cego.

Está por apurar, ainda, a reacção das principais instâncias internacionais à «legalização» da colonização anunciada pelos Estados Unidos. A acção segue na linha da transferência da Embaixada norte-americana para Jerusalém – que significa a aceitação da anexação de Jerusalém Leste – e do reconhecimento por Washington da anexação dos Montes Golã sírios.

Em qualquer dos casos houve virulentas reacções internacionais, em termos verbais, e que rapidamente esmoreceram até à extinção. Reacção prática? Nem sombra. Os factos estão consumados.

No caso presente há a anotar, mais uma vez, o mutismo do secretário-geral das Nações Unidas, claramente sem coragem para citar os Estados Unidos como um mau exemplo quanto ao modo de encarar a legalidade internacional. Não lhe ficaria mal uma nota de registo. Mas não: seria demasiado para António Guterres, tal como demasiado seria pronunciar-se contra a carnificina israelita em Gaza – território que a própria ONU calculou como humanamente inabitável em 2020, isto é, daqui a dias.

No quadro da estratégia de factos consumados pode inserir-se o cumprimento em curso de elementos conhecidos do chamado «acordo do século», um plano urdido por Trump e Netanyahu como solução final da questão palestiniana.

A anexação de uma parte vital da Cisjordânia, como o Vale do Jordão, faz parte desse elenco de medidas arbitrárias que ainda não foi apresentado à comunidade internacional mas que, escrutinando a situação no terreno, está a ser cumprido de maneira avulsa e conspirativa. Certamente o tema esteve à mesa no menu de Lisboa.

Poderá dizer-se que, estando o «acordo do século» implicitamente na agenda, à mesa na capital portuguesa sentou-se ainda um convidado virtual, a Arábia Saudita, um dos obreiros do plano. Enquanto isso, o governo português esteve por perto, receptivo e facilitador. O governo de António Costa tem vindo a esmerar-se nas aproximações que faz na arena internacional. De Guaidó a Trump, Pompeo e Netanyahu, mais os que o silêncio esconde, como a fascista Añez na Bolívia e o carniceiro saudita bin Salman, a lista é bastante selecta e democrática.

1.Segundo notícia da agência Lusa, «Pompeo e Netanyahu reúnem-se em Lisboa com jornalistas portugueses mantidos longe», de 4 de Dezembro de 2019, a imprensa portuguesa foi impedida de fotografar o encontro ou registar declarações, reservadas aos jornalistas das duas delegações. Pompeo e Netanyahu cumprimentaram-se no hall de um hotel identificado apenas como sendo «no centro de Lisboa» e seguiram para uma sala próxima, onde estavam os jornalistas que acompanharam as viagens para Lisboa do secretário de Estado norte-americano e do primeiro-ministro israelita e uma pool de jornalistas designados por media internacionais. À porta da referida sala, Todd Miyahira, conselheiro de imprensa da embaixada dos Estados Unidos em Lisboa, informou a Lusa que quer a fotografia do encontro quer uma posterior conferência de imprensa estavam vedadas aos jornalistas portugueses, sem contudo avançar uma razão para o facto. A informação, afirma a Lusa, é semelhante à obtida pela agência junto de fonte israelita que pediu para não ser identificada.

Fonte: https://www.abrilabril.pt/internacional/cimeira-das-lajes-segunda-temporada

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