Citações*

José Casanova    25.May.13    Outros autores

José CasanovaNum Portugal em que a classe dominante cavalga em direcção ao passado já nem falta uma primeira figura do Estado cada vez mais parecida, na mediocridade e no ridículo, com o seu antecessor Américo Tomás. A História reservará aos dois um lugar semelhante.

Estou em crer que, mais dia, menos dia, alguém tomará a iniciativa de organizar e publicar uma selecção de «pensamentos de Cavaco Silva», à semelhança do que, em tempos, foi feito em relação a esse outro insigne pensador que foi Américo Tomás. E há que dizer que, quem o fizer, tem pano para mangas e êxito de vendas assegurado, tal a quantidade, a profundidade, a hilaridade dos «avisos», «alertas», citações», «pensamentos», produzidos pelo actual Presidente da República – sempre irradiando uma inteligência fulgurante, uma acutilância cirúrgica, uma cultura avassaladora.

E uma coisa, pelo menos, é certa: sempre que Cavaco Silva verte pensamento em público põe o País a gargalhar.

Recordo que, aqui há uns anos, num 10 de Junho – «Dia da Raça», por decisão de Salazar e por opção do actual Presidente da República – um jornalista perguntou ao então primeiro-ministro, se sabia quantos Cantos tinha Os Lusíadas. Cavaco, no seu estilo muito ao jeito de Alípio Abranhos, confessou: «Não me recordo, como a maioria dos portugueses estudei a obra no Ensino Secundário» – mas logo acrescentou, lampeiro: «Agora vou a Os Lusíadas quando preciso de encontrar alguma citação, ou quando a minha mulher me faz algum desafio».
De então para cá, foi um fartote de pensamentos e citações, amiúde entremeadas de luzidas confissões culturais: Li, uma vez, um livro: A Utopia, de Thomas Mann…

Há dias, a conselho da esposa, Maria, citou Nossa Senhora de Fátima e fez da referida Senhora uma propagandista das malfeitorias do pacto das troikas – e, no dia seguinte, presumo que novamente inspirado pela consorte, chamou à liça S. Jorge, por tradição portador de boas notícias, citando-o a abençoar as práticas de austeridade do Governo ao serviço da troika ocupante.

É claro que destas invocações e citações não vem mal de maior ao País: o Presidente cita e a malta ri, ou sorri, ou cora…
O mesmo não direi da mais solene de todas as suas citações: aquela em que ele, de mão no peito, diz: «Juro, pela minha honra, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa». E depois faz o que faz.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2060, 23.05.2013

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