Clinton, Assange e a guerra contra a verdade

John Pilger    10.Nov.17    Outros autores

Hillary Clinton lançou um livro em que procura ajustar contas com a sua não-eleição. Tal como a personagem, o livro é intragável. Mas os grandes media fazem a sua promoção, proporcionando-lhe entrevistas em que, como é seu hábito, mente e oculta as criminosas responsabilidades reais que lhe cabem.

Em 16 de Outubro a Australian Broadcasting Corporation (ABC) divulgou uma entrevista com Hillary Clinton: uma das muitas destinadas a promover o seu livro-de-ajuste-de-contas sobre o porquê de não ter sido eleita Presidente dos EUA.
Folhear o livro de Clinton “What Happened” (“O que aconteceu”) é uma experiência desagradável, como uma indisposição de estômago. Calúnias e lágrimas. Ameaças e inimigos. “Eles” (os eleitores) foram objecto de uma lavagem ao cérebro e foram arrebanhados contra ela pelo odioso Donald Trump com a cumplicidade de Eslavos sinistros enviados da grande treva conhecida como Rússia, apoiados por um “niilista” australiano, Julian Assange. No The New York Times foi publicada uma notável fotografia de uma jornalista a consolar Clinton, tendo acabado de a entrevistar. A líder perdida era, acima de tudo, “absolutamente feminista”. Os milhares de vidas de mulheres que esta “feminista” destruiu quando no governo – Líbia, Síria, Honduras – eram irrelevantes.
No magazine New York , Rebecca Traister escreveu que Clinton estava finalmente a exprimir «alguma legítima indignação». Até lhe era difícil sorrir: «tão difícil que os músculos da cara lhe doíam». Certamente, concluía, «se atribuíssemos aos ressentimentos das mulheres o mesmo destaque que concedemos aos rancores dos homens, a América ver-se-ia forçada a reconhecer o facto de que todas estas mulheres iradas poderão ter algo a dizer».
Patacoadas deste tipo, trivializando a luta das mulheres, vêm marcando as hagiografias mediáticas de Hillary Clinton. O seu extremismo político e o seu belicismo não têm importância. O seu problema, escreveu Traisler, foi “as pessoas terem-se fixado em seu prejuízo nas histórias dos correios electrónicos”. Ou seja, terem-se fixado na verdade.
Os correios electrónicos divulgados do director de campanha de Clinton, John Podesta, revelaram uma ligação directa entre Clinton e o apoio e financiamento do jihadismo organizado e do Estado Islâmico (ISIS). A fonte principal do terrorismo islâmico, a Arábia Saudita, desempenhou um papel central na sua carreira.
Um correio electrónico de 2014, enviado por Clinton a Podesta pouco depois de ela ter deixado o cargo de Secretária de Estado, revela que o Estado Islâmico é financiado pelos governos da Arábia Saudita e do Qatar. Clinton aceitou vultuosos donativos de ambos governos para a Fundação Clinton.
Como Secretária de Estado aprovou a maior venda mundial de armas aos seus benfeitores, no valor de mais de $80 milhares de milhões. Graças a ela as vendas de armas dos EUA em todo o mundo – a serem usadas em países agredidos como o Iémen – duplicaram.
Isto foi revelado por WikiLeaks e publicado pelo The New York Times. Ninguém duvida que os correios electrónicos são autênticos. A campanha subsequente para denegrir WikiLeaks e o seu editor em chefe, Julian Assange, como “agentes da Rússia” ampliou-se até uma espectacular fantasia conhecida como “Russiagate”. Diz-se que o enredo teria a assinatura do próprio Vladimir Putin. Não existe a mínima prova.
A entrevista de ABC Austrália com Clinton é um exemplo notável de denegrimento por omissão. Diria mesmo que é modelar nesse aspecto.
“Ninguém”, diz a Clinton a entrevistadora, Sarah Ferguson, “poderia ter deixado de se comover perante a dor que a sua face exprimia naquele momento [da tomada de posse de Trump] … recorda-se de como aquilo a afectou visceralmente?”.
Tendo estabelecido o sofrimento visceral de Clinton, Ferguson pregunta sobre “o papel da Rússia”.
CLINTON: Penso que a Rússia afectou as percepções e as opiniões de milhões de eleitores, sabemo-lo agora. Penso que a intenção deles, vinda do próprio topo com Putin, era prejudicar-me a ajudar Trump.
FERGUSON: Quanto disso era uma vingança pessoal de Vladimir Putin contra si?
CLINTON: … Penso que ele quer desestabilizar a democracia. Quer minar os EUA, quer meter-se com a Aliança Atlântica e nós consideramos a Austrália como uma espécie…uma extensão disso….
A verdade é o oposto. São os exércitos ocidentais quem se está a concentrar na fronteira russa pela primeira vez desde a Revolução Russa, há 100 anos.
FERGUSON: Quanto é que [Julian Assange] a prejudicou pessoalmente?
CLINTON: Bem, eu tive uma considerável história com ele porque quando era Secretária de Estado WikiLeaks publicou uma quantidade de informação sensível do nosso Departamento de Estado e do nosso Departamento de Defesa.
O que Clinton não diz – e a sua entrevistadora não lhe lembra – é que em 2010 WikiLeaks revelou que a Secretária de Estado Hillary Clinton tinha ordenado uma campanha secreta dos serviços de informações visando os dirigentes da ONU, incluindo o Secretário-Geral, Ban Ki-moon, e os representantes permanentes da China, Rússia, França e Grã-Bretanha no Conselho de Segurança. Uma directiva classificada, assinada por Clinton, foi enviada a diplomatas dos EUA em Julho de 2009, solicitando detalhes técnicos forenses sobre os sistemas de comunicações utilizados pelos funcionários de topo da ONU, incluindo palavras-passe e chaves pessoais de codificação utilizados em redes privadas e comerciais.
Ficou conhecido como Cablegate. Era espionagem fora da lei.
CLINTON: Ele [Assange] é muito claramente um instrumento dos serviços de informações russos. E fez aquilo que lhe pediram.
Nem Clinton apresentou qualquer prova que fundamentasse esta grave acusação, nem Ferguson a contestou.
CLINTON: Não se vê informação negativa e prejudicial acerca do Kremlin a ser filtrada em WikiLeaks. Não se vê nada disso publicado.
Isto é falso. WikiLeaks tem publicado uma volumosa quantidade de documentos sobre a Rússia – mais de 800.000, na sua maioria críticos, muitos dos quais utilizados em livros e processos judiciais.
CLINTON: Portanto eu penso que Assange se tornou uma espécie de niilista oportunista que faz o serviço a um ditador.
FERGUSON: Muita gente, incluindo na Austrália, pensa que Assange é um mártir da liberdade de opinião e da liberdade de informação. Como é que o descreveria? Acabou de o descrever como niilista.
CLINTON: Sim, e também como um instrumento. Quero dizer que ele é um instrumento dos serviços de informações russos. E se ele é tanto um mártir da liberdade de opinião, porque é que WikiLeaks nunca publica nada que saia da Rússia?
Ferguson, de novo, nada disse para contestar isto ou para a corrigir.
CLINTON: Houve uma operação concertada entre WikiLeaks e a Rússia e muito provavelmente pessoas nos EUA no sentido de instrumentalizar essa informação, de inventar histórias…de ajudar Trump.
FERGUSON: Agora, juntamente com essas histórias insólitas, havia informação que foi revelada sobre a Fundação Clinton que pelo menos no espírito de alguns eleitores pareceu associá-la a…
CLINTON: Sim, mas era falso!
FERGUSON: … tráfico de informações …
CLINTON: Era falso! Era totalmente falso!….
FERGUSON: Compreende quão difícil era para alguns eleitores entender os volumes de dinheiro que a Fundação [Clinton] estava a receber, a confusão com a consultoria que estava também a obter fundos, a receber ofertas e viagens e outras coisas para Bill Clinton, a ponto de a própria Chelsea estar também a ter alguns problemas com isso?…
CLINTON: Olhe Sarah, desculpe, quer dizer, eu conheço os factos…
A entrevistadora da ABC elogiou Clinton como “o ícone da vossa geração”. Não lhe perguntou nada acerca das enormes somas que ela arrecadou de Wall Street, tais como os $675.000 que recebeu por uma conferência no Goldman Sachs, um dos bancos no centro do crash de 2008. A ganância de Clinton perturbou profundamente o tipo de eleitores que ela insultou como “deploráveis”.
Claramente à procura de um título de sensação para a imprensa australiana, Ferguson perguntou-lhe se Trump “representava um perigo claro actual para a Austrália”, e obteve a resposta que era previsível.
Esta destacada jornalista não fez qualquer menção ao “perigo claro e actual” que Clinton representou para o povo do Irão, a quem uma vez ameaçou de “obliterar totalmente”, nem aos 40.000 líbios que morreram no ataque à Líbia em 2011 que Clinton orquestrou. Ruborizada de excitação, a Secretária de Estado regozijou-se com a morte horrenda do líder líbio, Coronel Khadafi.
«A Líbia era a guerra de Hillary Clinton», disse Julian Assange numa entrevista filmada comigo no ano passado. “De início, Barack Obama opunha-se a ela. Quem era a pessoa que a defendia? Hillary Clinton. Está documentado em toda a extensão dos seus correios electrónicos…há mais de 1.700 mensagens, de um total de 33.000 que publicámos, só sobre a Líbia. Não se trata de a Líbia ter petróleo barato. Ela concebia a remoção de Khadafi e o derrube do Estado Líbio como algo que iria utilizar no processo de se apresentar como candidata às eleições presidenciais.
«Em data já tão adiantada como 2011 existe um documento interno chamado o Líbia Tick Tock que foi produzido para Hillary Clinton, e consiste na descrição cronológica de como ela era a figura central na destruição do Estado líbio, que resultou em cerca de 40.000 mortos no interior da Líbia, na entrada dos jihadistas, na entrada do ISIS, conduzindo à crise europeia de refugiados e emigrantes.
«Não só tinhas pessoas fugindo da Líbia, pessoas fugindo da Síria, a desestabilização de outros países africanos em resultado do fluxo de armamentos, como o próprio Estado líbio deixara de estar em condições de controlar o movimento de pessoas através dele.
Isto – não o sofrimento “visceral” de Clinton por perder para Trump nem o resto das patacoadas em defesa própria na sua entrevista com a ABC – é que era a história. Clinton partilhou a responsabilidade pela desestabilização massiva do Médio Oriente que conduziu à morte, ao sofrimento e à fuga de milhares de mulheres, homens e crianças.
Ferguson nem uma palavra colocou sobre isto. Clinton difamou repetidamente Assange, que nem foi defendido nem lhe foi oferecida a possibilidade de responder na cadeia de comunicações pública do seu país.
Num tweet enviado de Londres, Assange citou o Código de Práticas da própria ABC que diz: «Quando forem feitas alegações sobre uma pessoa ou uma organização, devem ser realizados os esforços razoáveis na circunstância para proporcionar uma justa oportunidade de resposta».
No seguimento da transmissão da ABC, o produtor executivo de Ferguson, Sally Neighbour, re-tweetou o seguinte: « Assange is Putin’s bitch. We all know it!’» («Assange é a gaja de Putin. Todos o sabemos!»)
O insulto, depois apagado, foi até utilizado como link para a entrevista da ABC formulado como: Assange is Putins (sic) b****. We all know it!’
Ao longo dos anos passados desde que conheci Julian Assange tenho testemunhado a insultuosa campanha pessoal procurando detê-lo e deter WikiLeaks. Tem sido um ataque frontal contra a divulgação de informação, contra a liberdade de opinião e contra o jornalismo livre o que, no seu conjunto, está agora sob o ataque continuado de governos e das empresas que controlam a internet.
Os primeiros ataques em forma partiram do Guardian que, tal como um amante rejeitado, se voltou contra a acossada fonte que antes utilizara, tendo lucrado largamente com as revelações de WikiLeaks. Um livro do Guardian levou a um lucrativo negócio para um filme de Hollywood, negócio do qual nem um penny foi para Assange ou para WikiLeaks. Aí Assange era retratado como “frio e indiferente” e uma “personalidade perturbada”. Era como se um exuberante ciúme se recusasse a aceitar que as coisas notáveis que conseguira se perfilavam em marcado contraste com aquilo que os seus detractores nos media do sistema faziam. É como observar os guardiões do status quo, indiferentes aos tempos, debatendo-se para silenciar a dissidência real e impedir a emergência do que é novo e esperançoso.
Nos dias de hoje, Assange permanece um refugiado político do sombrio estado fazedor de guerras do qual Donald Trump é a caricatura e Hillary Clinton a corporização. A sua resistência e coragem é assombrosa. Ao contrário dele, os seus detractores são cobardes.

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