Com um registo de intervenção de “falcão”: Biden escolhe Samantha Power para dirigir a USAID

Alan Macleod    20.Ene.21    Outros autores

Cada nova nomeação de Biden para cargos na sua administração confirma o que já se sabia: mudam as caras, não mudam as políticas. Vários são recuperados do pior da administração Obama, como é o caso da “falcão” Samantha Power, nomeada para dirigir um dos mais poderosos braços da ingerência EUA em todo o lado, a USAID.

O presidente eleito Joe Biden escolheu Samantha Power, uma insider democrata de longa data, para dirigir a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID). “Simplesmente não existe ninguém melhor para garantir que a nossa agenda de desenvolvimento constitui um pilar central da nossa política externa”, disse o homem de 78 anos oriundo do Delaware numa declaração em vídeo, alegando que, sob administrações democráticas anteriores, Samantha Power “lutou incansavelmente para priorizar os direitos humanos.”

A USAID autodenomina-se uma organização de direitos humanos, um grupo patrocinado por Washington que promove a democracia e o desenvolvimento em todo o mundo. Mas se investigarmos mais fundo do que o nível superficial, a organização tem sido crucial no financiamento de uma série de operações de mudança de regime em todo o mundo. O dinheiro da USAID tem sido usado para apoiar insurreições de opositores na Venezuela e Nicarágua, por exemplo, enquanto continua a usar as suas bolsas para fornecer treino de liderança aos seus candidatos políticos preferidos em todo o mundo. Allen Weinstein, um co-fundador do National Endowment for Democracy, uma organização financiada pela USAID, disse ao Washington Post: “Muito do que hoje fazemos era há 25 anos feito secretamente pela CIA”.

A nomeação de Power foi calorosamente apoiada pela vice-presidente de Biden, Kamala Harris. “Um dos desafios mais urgentes com que a nossa nação se depara é restaurar e fortalecer a liderança global da América como campeã da democracia, dos direitos humanos e da dignidade de todas as pessoas”, disse ela, acrescentando que “Poucos americanos estão melhor preparados para ajudar a liderar esse trabalho” do que a ex-embaixadora dos EUA nas Nações Unidas.
Outros não tinham tanta certeza. O jornalista Glenn Greenwald escreveu,
“É uma boa escolha no sentido de que, como chefe da USAID, uma agência *ostensivamente* dedicada a ajudar outros países, Samantha Power pode trabalhar para reparar os danos a todos os países que ajudou a destruir na última vez em que esteve no governo com o seu desequilibrado militarismo.”

“Um Problema vindo do Inferno”

Power chamou a atenção nacional com a publicação do seu livro, “A Problem from Hell: America and the Age of Genocide”. O livro foi publicado em 2002, na sequência dos ataques de 11 de Setembro e da invasão do Afeganistão e na preparação para a Guerra do Iraque. Ao contrário de outros críticos da política externa dos EUA, Power castigava Washington por não intervir o suficiente em outros países, argumentando que os EUA têm a responsabilidade de proteger os fracos no mundo. Recebeu o Prémio Pulitzer pelo seu trabalho.

Em geral, Power apoiou a Guerra do Iraque, declarando na televisão que, “Uma intervenção americana provavelmente melhorará a vida dos iraquianos. As suas vidas não poderiam piorar, penso que é bastante seguro dizê-lo”, embora tenha criticado duramente o governo Bush por não gerir o conflito de forma eficaz.

Um “Falcão Humanitário” encaminha-se para a ONU

Ela teve a sua oportunidade no governo uma vez terminados os anos de Bush, sendo indicada para vários cargos no Departamento de Estado do presidente Obama e no Conselho de Segurança Nacional, antes de ser nomeada embaixadora na ONU em 2013. Power apresenta-se como alguém que deteve o genocídio na África Central e era fortemente a favor de intervenções militares na Líbia e na Síria pelas mesmas razões. Ainda assim, nos cargos que desempenhou no governo Obama, Power foi uma das principais promotoras de algumas das piores violências do século XXI.

Power em defesa dos violadores dos direitos humanos

O Iémen é um claro exemplo de destaque. Descrita há anos pela ONU como a “pior crise humanitária do mundo”, o ataque ao país liderado pelos sauditas fez com que 80% do país necessitasse de assistência humanitária, incluindo cerca de 20,5 milhões sem acesso a água potável e saneamento, enquanto os aviões sauditas visam instalações médicas, de águas e esgotos. Como embaixadora, Power defendeu a Arábia Saudita das críticas e ajudou a bloquear os esforços internacionais para responder, atribuindo mesmo a culpa pela violência aos grupos rebeldes Houthi. Milhões de iemenitas morreram ou foram deslocados devido à violência.
Power também defendeu fortemente Israel das críticas na ONU, apesar das campanhas de bombardeamento deste contra a população civil de Gaza. Criticou a instituição pelo seu “tratamento desigual” do Estado judeu e pelo seu “silêncio indefensável em resposta aos ataques terroristas contra israelitas”.

Nas suas memórias mais recentes, “The Education of an Idealist”, não há menção ao Iémen, aos ataques israelitas contra Gaza, ou guerra de drones, assuntos que aparentemente elidiu, por conveniência, da história. A sua “educação” já parecia completa em 2014, no entanto, quando assistiu a um jogo de beisebol com Henry Kissinger, um dos piores violadores dos direitos humanos do mundo e alguém que antes havia duramente criticado.

Dois anos depois, aceitou o Prémio Henry A. Kissinger das mãos do próprio, sinal de que conquistara o seu respeito e admiração.

Em certo sentido, Power poderia ser vista como a escolha perfeita para o governo Biden; uma mulher que continua a usar a linguagem dos direitos humanos, mas totalmente comprometida com o projecto imperial dos EUA e que é tão agressiva quanto as suas contrapartes republicanas. Com grupos próximos do presidente já a aconselhá-lo a pressionar o aumento das tensões com Rússia e China, Biden pode ter encontrado a pessoa certa para o cargo.

Fonte: https://www.mintpressnews.com/samantha-power-record-hawkish-intervention-biden-usaid/274305/

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