Como Cuba revela toda a mediocridade do Ocidente

Viktor Dedaj    22.Feb.18    Outros autores

A propósito de comentários sobre Cuba em media franceses, uma interessante reflexão acerca da integração de intelectuais “de esquerda” no leque das opiniões toleradas pelos grandes meios de comunicação social. Fundamentalmente, para a generalidade destes, se é a mediatização que os torna assim, ou se é por serem assim que são mediatizáveis.

Há assuntos que estão para os jornalistas como os recifes estão para os marinheiros: são de evitar. Uma vez assinalados e cartografados, as rotas da informação irão sistematicamente contorná-los, sem se questionarem. E se por acaso um viajante imprudente se decidisse a entrar numa dessas zonas, ignorando os sinais de aviso com as simbólicas caveiras, e regressasse indemne, seria dito que simplesmente tinha tido sorte ou que era maluco – ou as duas coisas ao mesmo tempo. Para esse viajante não iria haver um desfile a comemorar o seu regresso, nem lançamento de serpentinas, nem serões à volta da lareira em que o narrador manteria em suspenso um público cativado. E pouco importa que ele tenha feito a travessia uma, duas, ou vinte vezes, que tenha regressado com os braços carregados de amostras, de episódios vividos, de especiarias ou de peças em ouro, será dito que ele divaga com as suas histórias de dragões e de sereias, mesmo que fale sobretudo de mares azuis, ilhas paradisíacas e de povos acolhedores (mas também de dragões e de sereias).
Mas se estiverem na disposição, deitem algumas achas para o fogo e juntem-se a mim. Não temam, não tenho nada para vender e não vos pediria nada em troca (mas se tiverem um pequeno cálice de rum para a minha garganta seca, não recusarei)
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«Como não criticar Cuba quando aí há perseguição contra os homossexuais ? »
Gérard Miller, emissão On n’est pas couché, 20 de Janeiro de 2018.
Em cada ano a cena repete-se. Os alunos das escolas de jornalismo têm um relatório a fazer sobre um assunto à sua escolha. Em cada ano há os que escolhem «os media alternativos». E em cada ano, entre os «media alternativos», há quem escolha (entre outros) o Le Grand Soir. E em cada ano o encontro que não deveria ter a duração de mais «de um quarto de hora, meia hora no máximo» conclui-se ao fim de 2 horas, 3 horas ou (o record) 4 horas… Não é que eu seja tagarela (sou-o, e então?), é sobretudo porque eles se dão conta de a que ponto foram levados à certa durante dois anos de «estudos». «Tenho a impressão de ter feito dois anos de estudo para nada» foi o desabafo de um deles. Quando os olho, vejo as tartarugas recém-nascidas que saem da areia e tentam correr para a água enquanto os Drahi e os Bouygues [patrões dos grandes media franceses] planam nos ares…Poucos conseguirão alcançar o mar.
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Houve tempo em que possuía um aparelho de autotortura chamado «televisor». Telé quer dizer à distância (como em “telecomando”, “telefone” ou “és feio, chega-te para lá”). E visor é suficientemente explícito. E se existe um visor, é porque existe um visado. Se possuem uma dessas engenhocas electrónicas, é porque a presa se encontra nas proximidades. É inútil procurar à volta quem é o alvo, o alvo é você. E o pequeno círculo de luz vermelha no meio da sua testa dá-vos um certo ar de indu (sonhador). Todos os snipers vos dirão: possivelmente vereis o clarão, mas não ouvireis já o estrondo (E=MC2). Na época em que eu possuía uma dessas engenhocas, observava com um interesse muito antropológico uns egos sobredimensionados com uns QI minúsculos que apontavam à distância para captar a minha atenção. E alguns, colocando a fasquia intelectual um pouco mais acima, conseguiam-no. Atenção, “mais acima” não quer dizer “muito alto”, apenas acima da média. Digamos que uns 20cm do chão, o que em termos audiovisuais representa o Himalaia do pensamento. Entre essas raridades encontrava-se Gérard Miller.
O meu objectivo não é enveredar por um ataque ad hominem contra G.Miller, mas analisar um fenómeno típico nos intelectuais de esquerda mediatizados. E tal como sucede com a grande questão do ovo e da galinha, interrogar-me se é a mediatização que os torna assim ou se são mediatizados por serem assim. Provavelmente é as duas coisas ao mesmo tempo: são autorizados a entrar no campo mediático devido à compatibilidade do seu discurso com o quadro pré-estabelecido das expressões toleradas, e a sua presença continuada provoca por sua vez, através de uma espécie de instinto de sobrevivência no sentido de não se ver condenado a uma «morte mediática», uma conformação do seu discurso a esse quadro.
É assim que em 20 de Janeiro de 2018, na emissão On n’est pas couché, Gérard Miller pronunciou esta frase aparentemente marcada por um certo bom senso: «Como não criticar Cuba quando aí há perseguição contra os homossexuais ?». Nada que justifique um sobressalto, salvo se o vosso detector de «Bullshit» (alarvidade manifesta) está a funcionar a fundo. E eu, quando ouço uma frase que contém a palavra “Cuba”, o meu detector pessoal de «Bullshit» entra em sobreaquecimento e emite um assobio estridente.
Primeira constatação : a questão é formulada no presente. O presente significa agora ou um horizonte temporal próximo. O que significa “próximo”? Ontem, há um ano, há dez anos? Os acontecimentos a que Miller poderia estar a aludir (e teríamos de ser muito desportivos e de desligar por um momento o detector de «Bullshit») datam de há cerca de 50 anos. O porque me encontro em modo conciliador vou colocar o meu detector de «Bullshit» em silêncio.
Eis-nos portanto transportados ao passado, um meio século para trás, e em Cuba verificam-se «perseguições contra os homossexuais». Da natureza dessas perseguições não ficamos a saber nada, porque há perseguições e perseguições (corrijam-me se estiver enganado). Há depois o contexto de uma época (contexto regional, para não dizer mundial). Uma rápida vista de olhos geral revela-nos que a «perseguição» era anda o apanágio na maior parte dos países do mundo. Descobre-se, por exemplo, que nos EUA – nação frequentemente apresentada como o nec plus ultra dos direitos individuais – a justiça se tinha de pronunciar sobre os direitos dos homossexuais, e assim se manteve até aos anos 2000. Quem o teria acreditado?
Ter-se-ia portanto podido pronunciar uma frase, tão verdadeira como a de Gerard Miller (ou mesmo mais, mas recordo-vos que o meu detector de «Bullshit» está em modo silencioso) com este teor: «Como não criticar os EUA quando aí há perseguição contra os homossexuais ?». E, bem entendido, podia-se substituir “EUA” por outro país. E também substituir «perseguição contra os homossexuais» por «assassínios em massa» ou «guerras não provocadas», actos em que os EUA são costumeiros.
E é aqui que a primeira pancada dói, porque se trata de uma frase que não ocorreria naquele quadro. Entre duas «verdades verdadeiras», umas encontram o seu lugar com naturalidade na narrativa dominante, outras permanecem profundamente ocultas.
Se os gays em Cuba não podiam fazer o seu serviço militar nas forças armadas, nos EUA a descriminação durou oficialmente até 1996 (altura em que Congresso, não autorizando especificamente a sua presença nas forças armadas, considerou simplesmente que a questão da orientação sexual deixaria de ser colocada). Os exemplos não faltam, e uma simples contextualização acompanhada de uma cronologia, data a data, revela todo o absurdo de uma acusação repetida ad nauseam por uns e varrida para debaixo do tapete por outros. Melhor ainda: para os outros, e unicamente para os outros, tais registos seriam apresentados a contrario como uma constatação visando sublinhar os progressos verificados e gabar o «progressismo» em marcha.
«Progressismo»? A cada um o seu, a cada um sua época. Agrada-me muito rever as imagens das tropas revolucionárias cubanas irrompendo por Havana no 1º de Janeiro de 1959, com os negros, sorridentes e de punho erguido, amontoados sobre os blindados. Na mesma altura, em certos lugares dos EUA, e não dos menores, os seus semelhantes tinham a obrigação de se sentar nas traseiras dos autocarros, e tinham o acesso interdito a certas universidades. Nos EUA, a primeira lei anti-linchagem foi promulgada…em 1968 (e os assassínios racistas não cessaram aí). E os gays, perguntar-me-ão? Um artigo da agência Reuters de Junho de 2017 assinalava um aumento dos assassínios anti-gay (uma trintena por ano).
Poderá alguém indicar-me um só caso de assassínio racista ou anti-gay em Cuba depois de 1959? Procurem à vontade.

Segunda constatação: Quando se pronuncia uma frase como «em Cuba, os gays são perseguidos», em quem é que vai pensar, em termos de perseguidores? No poder vigente, no governo, nos dirigentes, nas autoridades…em Fidel Castro. E terá de algum modo razão, porque é exactamente assim que a frase pretende ser compreendida.
E agora a mesma frase ligeiramente reformulada: «nos EUA, os gays são perseguidos». O que é que vos vem ao espírito? O presidente dos EUA? Deus nos acuda, claro que não. Pensareis nos «red necks» do Sul, toscos atrasados vivendo à beira dos pântanos e que casam primos com primas, nos grandes latifundiários nostálgicos dos campos de algodão cuja colheita era feita por uma mão-de-obra barata, pensam no Ku Klux Klan.
E é aqui que a segunda pancada dói. No contexto latino (e do mito urbano sobre os «campos para gays»), Cuba não caiu muito baixo, mas partiu de muito baixo para evoluir muito rapidamente – em termos societais, a evolução foi mesmo fulgurante. E foi também uma época em que uma outra parte da população, as mulheres, conheceu uma libertação também ela fulgurante. Então, se se tem que falar da situação hoje, pode afirmar-se que ela é provavelmente uma das melhores no continente, senão mesmo no mundo.
E este progresso não foi realizado «apesar» do poder vigente, mas sim graças a ele, lutando denodadamente contra preconceitos e conservadorismo geral herdados dos antigos poderes colonialistas e imperialistas locais, em que a vida de uma pessoa, gay ou não, apenas valia pela sua fortuna e pelo seu grau de fidelidade à orem das coisas.
Uma situação julgada sem o contexto (como era antes) não faz sentido. É bastante absurdo, mas é sobretudo completamente impossível de gerir do ponto de vista da reflexão. A cai-se em caminhos ínvios à la Miller em que o que está em causa é uma época e um processo (a revolução cubana) que fez mais do que qualquer outro processo pela justiça e pela igualdade, etc. Miller confunde uma situação dada e a sua posição numa curva de mudança global e radical. É como se ele dissesse de um aluno que uma nota de 8 em 20 não é boa. Pois bem, isso depende de o aluno ter anteriormente uma média de 2 ou de 18, não é verdade? E se o aluno realiza um progresso fulgurante, não se vai decerto estar constantemente a recordar a época em que não passava do 2.
É como se eu dissesse «Como não criticar o maoismo de um certo GM?» e a sua cumplicidade com todos os erros da “revolução cultural” chinesa. Seria desonesto da minha parte. Ou talvez não, mas o dito GM provavelmente pensá-lo-ia, sobretudo se fosse assim formulado.
Porque falamos do mesmo aluno, da mesma revolução, do mesmo processo, das mesmas pessoas, os progressos alcançados (fulgurantes, recordo-o) foram conseguidos pelos próprios revolucionários cubanos, contra um certo conservadorismo da época. E falando de questões societais, irrita-me ouvi-las sistematicamente formuladas em termos puramente políticos, quando são antes de mais culturais, e a cultura é uma área sobre a qual a cultura pode agir, é certo, mas com um tempo de resposta que não é da ordem das 24 horas. Pode nacionalizar-se uma empresa de um dia ara o outro, pode anular-se o direito do trabalho de um dia para o outro, pode despenalizar-se a homossexualidade de um dia para o outro (Cuba: 1979, França: 1981), não pode “obrigar-se” uma população, de uma dia para o outro, a tornar-se “tolerante”. A única solução “a partir de cima” conhecida até hoje é a educação e o exemplo (vindo de cima). Felizmente, Cuba tem um sistema educativo dos mais eficazes, e dirigentes dos mais inteligentes. Mas em qualquer caso demora. Não muito, na realidade, mas ainda assim o suficiente para abrir uma brecha anacrónica de ataque e permitir a um Miller fazer a sua malandrice na televisão francesa em 2018, e pronunciar um daqueles «pensamentos reflexos» que não têm qualquer valor intelectual real.
Os «campos de trabalho» (estão a ver o paralelo, não estão?) para “homossexuais” nunca foram mais do que campos militares reservados aos refractários e/ou aos “inadaptados” ao serviço militar e à vida numa caserna (entre os quais, por exemplo, as Testemunhas de Jeová). O que, na época, não constituía um raciocínio absurdo. Eram aí torturados? Não. Sofriam linchamentos? Não. Sofriam a chacota do pessoal de enquadramento? Talvez, é provável. Que os campos não tenham existido senão 2 anos (ou 4, tenho preguiça de ir verificar), e que tenham sido encerrados por uma ordem vinda de cima, de muito acima, puco importa. A brecha anacrónica de ataque foi aberta, e ficará eternamente aberta. E, cereja sobre o bolo, serão acusados por esse fenómeno precisamente aqueles que lutaram contra ele. Orwell é nosso amigo.
Terceira constatação: quando a ideologia dominante “decide” apontar a um país, este tem todo o interesse em manter um curriculum vitae exemplar (segundo a ideologia dominante) e com um antecedente tão longo quanto possível. Se o país decidiu realizar uma revolução, tem interesse em fazer malabarismos com tudo ao mesmo tempo, e pouco importa a Guerra Fria, uma tentativa de invasão militar, os atentados terroristas e as sabotagens, um bloqueio cruel e desumano, e mesmo a presença de uma base militar de uma grande potência, sem esquecer a própria Revolução – fica com todas as jornadas bem preenchidas.
Quarta constatação : o método da crítica retroactiva. Este método é largamente utilizado no Ocidente. Apoia-se em dois princípios. O primeiro é que nós somos a medida-padrão do que está ou não está bem – os que pensam como nós e os que não pensam como nós. O segundo é que não é apenas necessário «pensar como nós» mas fazê-lo em simultâneo, numa espécie de coreografia da natação sincronizada. Acordei esta manhã com este princípio incrustado em mim, e exijo inclusivamente que daqui em diante toda a gente acorde com o mesmo estado de espírito, de preferência todos à mesma hora. Este método é aplicado como cobertura para uma profunda arrogância cultural e, como sucede com a maior parte das posturas arrogantes, produz situações no melhor dos casos caricatas, no pior dos casos trágicas.
Como um intelectual francês que critica Cuba sobre uma matéria em que Cuba se revelou sobretudo precursora nessa matéria. O que é também o caso no que diz respeito aos direitos das mulheres em que Cuba deixa alegremente a léguas – no tempo e no espaço – o «país dos direitos do homem». Transposta para os anos 60/70, a comparação entre os direitos adquiridos pelas francesas e pelas cubanas daria uma medalha de ouro a Cuba e uma medalha de chocolate (com óleo de palma) à França.
Este método parece destinar-se também a fornecer uma desculpa para nunca apoiar, nunca se comprometer, acantonando o seu utilizador numa posição cínica das mais confortáveis. Porque um revolucionário “autêntico” deve ser ao mesmo tempo revolucionário, anti-isto, anti-aquilo, pró-isto e pró-aquilo. Se uma única causa não corresponde, “lamento muito mas a sua candidatura não pode ser aceite. O seguinte. Lamento…”. E se por acaso uma causa é finalmente preenchida, encontrar-se-á outra que o não esteja. O que não falta são justificações, das mais graves às mais fúteis, da pena de morte ao rap, tudo serve. Isto tudo da parte daqueles que coçam o umbigo com as petições on-line, e contra aqueles que realizaram, e com sucesso (mesmo que vos desagrade) uma das mais formidáveis transformações sociais do século, num dos mais difíceis contextos alguma vez impostos a um país.
Num livro publicado em 2003 (« Cuba est une île » Viktor Dedaj/Danielle Bleitrach/Jacques François Bonaldi – Ed. Le Temps des Cerises), sublinhámos um aspecto fundamental da propaganda anti-cubana: a descontextualização. Fenómeno que está muito longe de se limitar a Cuba, mas que é sistematicamente aplicado ao caso cubano. A ponto de elementos que seriam tidos como incontornáveis em outros casos serem aqui pura e simplesmente omitidos.
Como falar da emigração cubana (que permanece, apesar de tudo, uma das menores do continente) sem mencionar a lei dos EUA «Cuban Adjustment Act» de 1964, destinada a favorecer a emigração cubana e a provocar uma fuga de cérebros. E não se trata de ir pesquisar em arquivos obscuros, é um elemento que incessantemente recordado pelos responsáveis cubanos.
Omiti-la não é, portanto, fruto de uma ignorância nem de um esquecimento, mas sim o resultado de uma escolha. E tanto pior se o público inadvertido é enganado, ao ser-lhe exibido um filme do qual metade da imagem foi cortada.
Na realidade, não existe um único assunto que eu conheça relativo a Cuba que não seja objecto seja de mutilação, seja de uma incrível deformação. («As prisões para doentes de sida» continuam a provocar-me uma cólera surda). E este pensamento-reflexo, referido anteriormente, não afecta apenas os tarefeiros do jornalismo nem os propagandistas do costume.
Numa recente conferência sobre Cuba, o redactor em chefe do mensário Le Monde Diplomatique, Renaud Lambert, concluiu a sua intervenção de uns quarenta minutos com a menção in extremis da palavra «embargo», que ele próprio qualificou de «terrível». Não se ficou a saber mais do que isso. Apenas que é «terrível». Ainda agora me pergunto como é que a elite do jornalismo francês consegue omitir de uma intervenção o aspecto «terrível» da realidade, ao mesmo tempo que foi pontuando a sua intervenção com anedotas sobre o serviço nos restaurantes e sobre a qualidade do alojamento para os turistas. Omitir o terrível, eis o que eu considero terrível.
De resto, no que diz respeito a Cuba, o famoso «embargo» nunca é mencionado, ou então é-o de passagem. Com poucas excepções, vós que me ledes não tereis na realidade a menor ideia acerca de em que consiste esse «embargo». Pensais talvez mesmo, tal como os fake jornalistas da AFP, que o embargo já foi levantado. Ou a vossa ignorância total na matéria permite-vos asneiras como «o embargo não existe» ou que «não passa de uma desculpa».
Também no que diz respeito a Cuba nunca serão mencionados os 3.000 atentados perpetrados contra a ilha – o que à escala da França equivaleria a 20.000 atentados. Como uma espécie de compensação jornalística preferir-se-á no melhor dos casos falar apenas nos atentados contra Fidel Castro, o que impõe a ideia de que os criminoso autores destes atentados não agiam senão com um objectivo sumamente louvável, «desembaraçar Cuba de um ditador». Os jovens que pescavam à linha em Caibarien, ou os operários da fábrica bombardeada com bobas incendiárias, ou o turista italiano morto num atentado à bomba num hotel, os passageiros do avião comercial cubano, e todas as 3.000 vítimas destes atentados talvez tivessem uma palavra a dizer. Mas para tal seria necessário não deixar cair no esquecimento, nem a elas, nem aos seus assassinos.
Não se lerá acerca de Cuba senão artigos estúpidos publicados no Inrockuptibles que contam como se «confinavam os doentes de Sida». Pouco importa se eu tenho a impressão de ter sido o único ocidental a ter posto os pés nesses centros (não era difícil, bastava pedir), e pouco importa se estes tinham mais o aspecto de Country Clubs readaptados do que de prisões, nada serve. Uma recente troca de argumentos com uma pessoa que se apresentava como um antigo dirigente de Act Up fez-me compreender que 1) a histeria colectiva é um facto e que 2) um narcisista perverso algo manipulador («você está a borrifar-se para os mortos de SIDA») pode assumir a direcção de uma organização respeitada.
Acerca de Cuba, nada se ouvirá acerca da solidariedade prestada pela ilha um pouco por toda a parte, com cerca de 40.000 médicos e trabalhadores de saúde nas regiões mais remotas. Aí também espíritos azedos falarão de «propaganda» (não muito eficaz, aparentemente) ou de «negócio, não caridade» e, para apoiar a suas balelas, mencionarão os raros casos em que Cuba «cobra» efectivamente pelos seus serviços, mas unicamente aqueles que possuem meios para isso. É como se a França enviasse 250.000 médicos pelo mundo inteiro. E peço-vos que reflictam acerca do que seria uma França que enviasse 250.000 médicos pelo mundo inteiro. A que é que se assemelharia uma tal França? Àquela que conheceis?
Acerca de Cuba, nada se saberá das dezenas de milhares, talvez centenas de milhares, de refugiados acolhidos na ilha. Refugiados políticos, originários de todos os continentes (mas sobretudo, evidentemente, da América Latina), e de todas as convicções, mas também «refugiados médicos». Refugiados acolhidos com uma tal espontaneidade e uma tal naturalidade que não consegui, ao fim de anos de pesquisas, encontrar um único cubano capaz de fornecer uma estimativa que fosse do seu número. Simplesmente não o sabem. Aparentemente nunca, nem antes nem depois, se colocaram a questão. Ao ponto de terem tratado do assassino do Che, Mario Terán.
Interrogar-se-ão talvez qual a relação entre todo o dito anteriormente, o início do texto, e a rase de Gerard Miller. É aqui que volto a ligar o meu detector de «Bullshit».
Tomando em conta nem que fosse a mais pequena ponta do iceberg de solidariedade que Cuba disponibilizou ao longo de toda a sua existência revolucionária, conhecendo aqueles e aquelas que dela foram os instigadores e os actores, como diabo se pode chegar a acreditar, nem que fosse durante um nanosegundo, que estes teriam podido, algum dia, olhar para alguém e dizer «hum…aquele e aquela, vamos persegui-los porque me incomoda a sua orientação sexual»?
A única explicação que encontrei é que existe uma misteriosa força física que se enuncia assim (com pedido de desculpas a Arquimedes):
«Todo o corpo intelectual mergulhado num meio mediático amorfo sofre uma força vertical dirigida de cima para baixo, e oposta ao peso dos argumentos desenvolvidos. Esta força é designada impulso Viktor Dedaj». Wikipédia (edição 2050, paciência…).

Fonte: https://www.legrandsoir.info/comment-cuba-revele-toute-la-mediocrite-de-l-occident.html

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